Rádio EG News Sábado, 03 de outubro de 2026 03/10/2026
EG News
Siga-nos
Walter Pinaya Colunistas

Do palco ao Congresso, da rua à CLDF: Ruth e Esteffany e dois Brasis em disputa

Por Redação EG News • 02/10/2026 às 17h42 (Atualizado em 03/10/2026 às 10h13) • ⏱️ 7 min de leitura
WhatsApp
Tamanho:
Imagem da matéria

Ruth e Esteffany - uma drag queen rumo ao Congresso, uma mulher trans rumo à CLDF — e dois Brasis no mesmo DF

Por Walter Pinaya

Nas eleições de 2026 em Brasília, dois rostos do universo LGBTQIAPN+ chamam atenção. Elas vêm de mundos completamente diferentes, mas estão na mesma linha de partida, a luta pelo respeito à diversidade sexual.

Ruth Venceremos é Drag Queen e candidata a deputada federal pelo PT. Seu nome de registro é Erivan Hilário dos Santos, tem 41 anos e nasceu em Pernambuco. Aos 13 anos, entrou no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde depois se tornou responsável pela escola nacional de formação do movimento. Em 2015, criou a personagem "Ruth Venceremos", uma drag queen que usa como ferramenta política para enfrentar a LGBTfobia dentro do próprio MST. Em 2022, disputou pela primeira vez uma vaga de deputada federal e recebeu 31.538 votos, ficando como a primeira suplente do PT no DF. Sua campanha deste ano já arrecadou mais de 800 mil reais, sendo 91% desse valor vindo do fundo partidário, um contraste enorme com a realidade da maioria das candidaturas trans, que costumam não ter verba nenhuma.

Já Esteffany Rodrigues de Sousa é cristã evangélica, mulher trans, candidata a deputada distrital pelo Democratas. Tem 47 anos, nasceu em Mata Roma, no Maranhão, e chegou a Brasília aos 17 anos. Mora em Candangolândia há mais de três décadas. Já trabalhou como atendente de padaria, auxiliar de limpeza, funcionária de refeitório, porteira e supervisora de limpeza. Tem apenas o ensino médio completo e declarou um patrimônio de R$20 mil reais, com um Ford Ka de 2011, que ainda está financiado. Sua campanha arrecadou 2.200 reais, todos vindos de uma única doadora pessoa física, e até o fim de agosto não havia registrado nenhuma despesa.

Juntas, essas duas candidaturas formam um retrato da participação política LGBTQIAPN+ no Distrito Federal. Segundo o levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o Brasil tem 115 candidaturas trans em 2026, o maior número desde 2014 e um crescimento de 45,6% em relação a 2022. Mas no DF os números continuam mínimos. Das 657 candidaturas registrados, apenas 413 declararam orientação sexual, sendo apenas 11 gays, 10 bissexuais, 8 lésbicas e somente duas candidatas se identificaram como transgêneros. Com mais de 2,2 milhões de eleitores, a presença política trans na capital é quase invisível.

A diferença de recursos entre as duas campanhas define estratégias completamente distintas. Ruth tem R$800 mil reais, sendo 731 mil do fundo do PT, e usa o dinheiro para alugar espaços e impulsionar conteúdo nas redes. É uma campanha estruturada, com partido por trás. Esteffany tem R$2.200 reais, o que não paga nem a impressão de panfletos. Essa distância não é só entre duas pessoas, ela mostra como a esquerda e a centro-direita tratam candidaturas trans de formas diferentes. Segundo um levantamento nacional, 107 candidaturas trans foram registradas em 2024, sendo 20 delas em partidos de centro-direita, mas a maioria está concentrada na esquerda, com 39 no PSOL, 16 no PT e 15 no PDT. A esquerda pelo menos destina recursos; a direita, mesmo quando lança candidaturas trans, costuma deixá-las na margem.

O eleitorado do DF não torna a tarefa fácil para nenhuma das duas. Pesquisas mostram a governadora Celina Leão (PP) com 53% das intenções de voto, contra 26% de Leandro Grass (PT). O cientista político Jorge Mizael explica que o DF faz parte do chamado "cinturão do agro", uma região de perfil conservador, com forte rejeição ao PT, onde o eleitor "quer votar em alguém que se pareça com ele". Nesse cenário, a sigla do PT e a identidade de drag queen de Ruth são uma faca de dois gumes, enquanto a postura conservadora e a história de trabalhadora de Esteffany também correm o risco de não ser levadas a sério.

Mas 2026 traz uma variável importante, a Câmara Legislativa do DF pode ter mais de 65% de renovação, o que significa até 16 das 24 cadeiras ocupadas por gente nova. Historicamente, a renovação fica entre 50% e 60%. O cenário para 2026 aponta para uma disputa proporcional altamente competitiva, com retorno de ex-deputados, ex-senadores e até ex-governadores ao páreo. A renovação recorde, paradoxalmente, pode não significar diversificação. Se os novos nomes que ocuparem as cadeiras vierem de perfis políticos tradicionais, veteranos reciclados, herdeiros políticos, lideranças religiosas, a diversidade continuará sendo exceção. Esse vácuo, em teoria, abre espaço para candidaturas fora do padrão. Ruth já provou em 2022 que consegue mobilizar mais de 30 mil votos. Esteffany aposta naquilo que conhece por dentro com trinta anos de Candangolândia, uma cidade formada por migrantes, onde ser "do lugar" pode valer mais do que qualquer rótulo ideológico.

Aos mais de 2 milhões de eleitores e eleitoras do Distrito Federal, fica o convite para a escuta atenta e o voto consciente. Que as urnas de 2026 não sejam apenas um retrato da tradição, mas um esboço do futuro que se ousa construir. Que cada voto depositado seja um gesto de abertura para quem sempre esteve à margem, para quem nunca teve voz, para quem constrói políticas públicas na pele e na resistência. Mas, independentemente do resultado, a presença dessas duas mulheres já muda a forma como a política do DF se expressa. Ruth diz "Ruth Venceremos é um convite: venha, seja você mesma." Esteffany diz: "Não venho de família política, venho do povo." Dois caminhos, um ponto em comum, transformar a identidade trans, tantas vezes empurrada para a margem, em algo que pode ser votado, discutido e respeitado. O eleitor do DF vai escolher não apenas quem entra na Câmara, mas quem tem o direito de representar os "brasilienses". Quando uma drag queen do MST e uma ex-faxineira da Candangolândia aparecem na mesma cédula, a cidade ganha a chance de mostrar que a democracia pode ser mais larga do que seu rosto tradicional. E cada pessoa que se permite para e ouvir essas histórias torna essa largura um pouco mais real.