Bancada do DF tem renovação com quatro parlamentares em lados opostos
Deputados federais eleitos apostam na experiência para Câmara - (crédito: DA Press)
Com metade reeleita, bancada do DF abre espaço para dois novatos — os distritais Fabio Félix (PSol) e Thiago Manzoni (PL) — e dois nomes que retornam — o senador Izalci Lucas (PL) e o ex-governador Agnelo Queiroz (PT) — à Câmara dos Deputados
Com Julia Costa*
As eleições no Distrito Federal trouxeram estreantes na Câmara dos Deputados e velhos conhecidos do Congresso Nacional. Dos oitos deputados eleitos, metade foram reeleitos, abrindo espaço para que a outra metade fosse renovada. A estreia fica por conta dos atuais distritais Fábio Felix (Psol) e Thiago Manzoni (PL), que chegam à bancada brasiliense com trajetórias construídas na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Já o ex-governador Agnelo Queiroz (PT) e o atual senador Izalci Lucas (PL) voltam ao posto que conhecem bem. Em lados opostos, Félix e Agnelo, e Manzoni e Izalci terão pela frente um cenário político ainda em definição tanto na esfera local quanto na nacional. Ao Correio, eles falaram sobre expectativas para o mandato e articulações que pretendem construir para eleger seus aliados dia 25 nos cargos majoritários do Executivo local e do nacional.
Fabio Félix (Psol)
Consagrando-se como o deputado federal que mais recebeu votos na história do DF, Fábio Felix (Psol) avaliou a eleição como “um resultado muito expressivo, proveniente de um trabalho sério e comprometido”. O parlamentar foi escolhido por 224.224 eleitores e também comentou que a atuação fiscalizadora em relação aos governos de Ibaneis Rocha e Celina Leão (PP) deram força à sua candidatura. “Defendemos os direitos humanos e isso foi fundamental para a nossa campanha, que foi muito bonita. Conversamos com a população de uma esquerda firme que tem vontade de chegar no Congresso Nacional por mais representatividade”, pontuou. Sobre a sua atuação na Câmara, Felix apostará em uma “atuação híbrida”, defendendo pautas locais e nacionais. Entretanto, ele comentou que não quer perder o pé na realidade social do DF. “Fui eleito para representar o DF e continuar fiscalizando a região e fortalecendo os projetos da região e sem abrir mão do de um olhar nacional de defesa das políticas públicas ”, acrescentou.
No atual cenário, a nova bancada do DF será composta por três deputados do PL, um do MDB, um do Republicanos, um da Federação PSOL-Rede e dois da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Para Felix, os resultados mostram “a crescente de uma onda conservadora de extrema direita”. Ele define a representação do espectro político na Câmara e Senado como “preocupante”, uma vez que, segundo o deputado, é uma ameaça à democracia. “Eles vêm com o objetivo de atrapalhar e implodir a democracia”, enfatizou.
Com o resultado para presidente ainda aberto no segundo turno, o deputado foi firme ao declarar: “não há qualquer diálogo com (um possível) governo de Flávio Bolsonaro”. O parlamentar afirmou que continuará sendo oposição à gestão de Celina e terá o mesmo empenho em um eventual mandato de Bolsonaro. "Eu lido bastante com o governo da Celina, que fez um estrago no DF. Isso tem consequências para as vidas das pessoas", disse. Sobre Flávio, o plano é derrotá-lo nas urnas, se isso não acontecer, Felix irá promover uma mobilização nacional. “Precisamos derrotar o Flávio no segundo turno, se não for possível, é necessário construir uma grande resistência nacional porque esse é um governo que vai atacar minorias, direitos das mulheres, da população LGBTQIAPN+, população negra e dos trabalhadores”, pontuou.
O cientista político Rócio Barreto, analista de Risco e sócio da Royal Politics Consultoria e Marketing Político, avaliou que a eleição de Fábio Félix (Psol) representa um dos fatos mais relevantes do primeiro turno. “Isso demonstra que sua candidatura conseguiu ultrapassar os limites tradicionais de sua legenda. Existe espaço para uma esquerda competitiva, desde que ela consiga apresentar identidade, coerência e conexão com demandas concretas da população”, explicou.
Ele avalia que Fábio Félix enfrentará, tanto no eleitorado quanto no Congresso, a rejeição de figuras ligadas à esquerda. Isso não significa, porém, uma rejeição a todas as pautas associadas ao campo progressista. “Uma estratégia pode ser transformar sua atuação em uma espécie de esquerda de resultados, que entrega resultados. Manter suas bandeiras, demonstrar permanentemente o que está fazendo e quais problemas do DF ele está tentando resolver", explicou Barreto.
A disputa pelo GDF é estratégica para o mandato de Félix na Câmara dos Deputados. Caso Leandro Grass assuma o poder, o deputado pode se colocar como aliado do governo no Congresso e, ao mesmo tempo, manter a autonomia no mandato. Com a eleição de Celina Leão, o desafio será manter uma oposição que não seja apenas ideológica e que apoie medidas positivas para o Distrito Federal. O especialista também explica que, com uma eleição de Flávio Bolsonaro, Felix precisará mostrar alternativas de diálogo na Casa. Caso Lula seja eleito, terá cenário favorável para conseguir apoio às pautas próprias. “Nos cenários, o principal desafio é transformar essa grande votação que teve em influência parlamentar”, afirma o cientista político.
Thiago Manzoni (PL)
Do lado oposto, com 90.418 votos válidos, o deputado Thiago Manzoni (PL) disse que seu mandato será pautado pela “defesa da vida, da família, da liberdade e de um Estado que sirva ao cidadão, e não o contrário”. O parlamentar destacou que irá expandir à sua atuação na CLDF. "Muita coisa que preocupa o morador do DF no dia a dia não se resolve aqui, porque a causa está na legislação federal. Quero usar o mandato federal para enfrentar esses problemas na origem”, afirmou.
O deputado elencou as pautas que irá trabalhar no primeiro ano de mandato, colocando a anistia aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro como prioridade. “Defendo a anistia completa e a liberdade de todos, inclusive do (ex) presidente (Jair) Bolsonaro, que é vítima de perseguição política. Estamos falando de pessoas que receberam penas de 14, 17 anos de prisão e que precisam voltar para casa, para suas famílias”, disse.
Entre outras áreas de interesse, Manzoni destacou a reforma do Judiciário, reforma tributária e a obrigatoriedade do trabalho de presos. “A reconstrução inclui mandato para os ministros do Supremo, proibição de decisões monocráticas e vedação à indicação de quem já teve vínculo partidário. Na economia, quero rediscutir pontos da reforma tributária para reduzir o peso sobre o setor produtivo, principalmente o de serviços, que é a base da economia do DF”, acrescentou.
Com as veias do segundo turno abertas, Manzoni declarou apoio à Celina Leão (PP) e Flávio Bolsonaro (PL). Ele comentou que estará até o dia 25 nas ruas "para garantir que o PT saia do poder e nunca mais volte". Apesar de estar à disposição da atual governadora, o parlamentar afirmou que deixará claro se "não concorde com ela" em alguma coisa. Sobre as eleições para presidente, ele pontua que não acredita na vitória do petista. "Mas caso aconteça, serei oposição. Foi para isso que o meu eleitor me escolheu", disse. Mesmo sendo oposição, o candidato afirmou que sua postura não será um impeditivo para assuntos de interesse para o DF. "Nesses casos, vou procurar os órgãos do Executivo para resolver os problemas da cidade, sem jamais abrir mão do que defendo sobre a vida, a família, a liberdade e o respeito à Constituição", pontuou.
Para Evelyn Apolinaria, cientista política e coordenadora-geral do Observatório do Congresso, as Eleições de 2026 representam tanto uma ascensão na carreira política de Manzoni quanto a confirmação de uma tendência. O PL foi o partido com melhor desempenho na disputa pela Câmara dos Deputados, levando três das oito vagas, além de ter eleito duas candidatas para o Senado e outras cinco para a CLDF. “Isso mostra um partido organizado e com elevada capacidade de transferência de votos entre candidatos, especialmente por estarem ligados ao bolsonarismo. Inclusive, o próprio Bolsonaro tem mostrado essa capacidade de transferência de voto”, explicou.
Mesmo com a ampla vantagem do partido, a cientista ressalta um cenário de oposição. “A eleição de Fábio Felix indica um eleitorado polarizado, com um campo progressista também mobilizado e concentrado em poucos nomes. A direita cresce, mas num cenário competitivo”, afirmou. Evelyn considera que a rejeição a candidatos de esquerda no Distrito Federal, em especial o antipetismo, beneficia os candidatos que se colocam como de oposição, mas não explica o sucesso totalmente obtido por partidos de direita, pesando também a estrutura partidária, a rede de apoio e a comunicação do candidato.
Sobre o segundo turno, tanto no âmbito nacional como no local, Evelyn avalia que a função de Manzoni pode mudar a depender dos resultados. "Caso Lula ele passa a fazer parte do maior partido de oposição ao presidente. “A questão é se essa oposição será apenas de enfrentamento ou também de construção de pautas. No cenário oposto, o deputado terá acesso facilitado a cargos do governo, emendas e pautas prioritárias – mas, com o compromisso com as pautas do governo, perde autonomia. Um possível governo de Leandro Grass colocaria Manzoni com um papel fiscalizador. Pode ser eleitoralmente vantajoso se bem explorado, mas com menos acesso a recursos e espaços institucionais no GDF. Com a vitória de Celina Leão, a relação de proximidade com o governo pode simplificar o diálogo com o DF, tendo como desafio disputar espaço com outros aliados da candidata", explicou,
Izalci Lucas (PL)
Retornando ao cargo após sete anos, Izalci Lucas (PL) definiu a experiência como sua melhor amiga nesta nova fase. "Isso ajuda muito. Afinal de contas, são 513 deputados ao todo e no DF apenas oito. A experiência e a capacidade de articulação é muito importante", o deputado federal eleito com 88.056 votos. O atual senador comentou que Flávio Bolsonaro (PL) pediu que ele se candidatasse justamente por suas passagens anteriores na Câmara e no Senado. "Ele me disse que precisava de pessoas experiências para liderar a Câmara", acrescentou.
O mandato do parlamentar, segundo ele, será focado na aprovação de leis que foram aprovados no Senado, mas que não foram para frente. "Há vários projetos que estão parados lá, como a questão da dosimetria, as decisões monocráticas e outras que estão na gaveta da Câmara. Além disso, também vou defender as minhas bandeiras de educação tecnologia, inovação e educação profissional", pontuou. Izalci. Entre as pautas também está a PEC 01, de própria autoria, que corrige uma distorção no Fundo Constitucional
O deputado avaliou que é importante "ganhar o segundo turno no âmbito local e nacional". Izalci também comentou que está trabalhando para garantir a vitória para Flávio Bolsonaro e Celina Leão. "Não podemos admitir o PT no governo. Eu sempre fui oposição e não voto no PT sob hipótese nenhuma", decretou. Perguntado sobre uma possível vitória petista em ambos os âmbitos, Izalci afirmou que acredita que o cenário não vai ser esse, entretanto, se Lula for eleito, irá continuar sendo oposição, mas "se for sobre o Brasil e Brasília, eu vou conversar", pontuou.
Agnelo Queiroz (PT)
A experiência após diversos mandatos também é arma escolhida por Agnelo Queiroz (PT), que retorna à Casa após 20 anos, depois de três mandatos consecutivos. Acreditando na reeleição de Lula (PT), o ex-governador — que recebeu 43.542 votos — afirma que sua atuação será importante para um eventual novo mandato do atual presidente. "Mesmo sendo minoria (na Câmara), é muito importante ter pessoas com experiência e que conheçam o funcionamento da Casa", afirmou.
A saúde pública do DF foi pontuada como uma das prioridades de seu mandato. "Vou ter um mandato para ajudar Brasília, que passa por uma crise de extrema profundidade. A gestão da saúde pública é um absoluto desrespeito com o ser humano", disse Agnelo. O deputado também afirmou que está acontecendo uma "entrega progressiva do sistema de saúde" para empresas fora do sistema público.
Sobre os resultados do segundo turno, Agnelo pontuou: "não consigo enxergar a possibilidade do Flávio ganhar a eleição" e que, por causa disso, não consegue estabelecer um cenário de diálogo com um possível governo do sucessor de Jair Messias. Em âmbito local, o deputado petista reforçou seu apoio a candidatura de Leandro Grass. "A população de Brasília vai dar oportunidade a esse jovem preparado para tirar Brasília da crise. Não será o governo que colocou a cidade na crise que irá salvá-la", acrescentou.
*Estagiária sob a supervisão de Patrick Selvatti