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O passado no presente: A construção histórica da violência de gênero 

Por Redação EG News • 14/10/2026 às 17h20 (Atualizado em 14/10/2026 às 17h33) • ⏱️ 6 min de leitura
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A recente declaração da deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL-SP), afirmando que o “feminicídio não existe” e classificando o termo como uma "armadilha semântica", trouxe de volta ao debate público uma tentativa antiga de invisibilizar a violência de gênero. Ao argumentar que mulheres não são mortas pelo fato de serem mulheres, a parlamentar ignora não apenas as estatísticas atuais, mas séculos de uma engrenagem cultural e jurídica estruturada para anular a existência feminina.

O feminicídio não nasceu ontem. Ele é a linha de chegada de um processo histórico de submissão.

 

A "justificativa científica" da antiguidade

A ideia de que o homem possui controle absoluto sobre a mulher foi alimentada por teorias que moldaram o pensamento ocidental. Pesquisas dos historiadores Campos e Corrêa (2007) revelam que há 2.500 anos, pensadores como Filon de Alexandria, baseando-se em Platão, já difundiam a tese de que a mulher tinha uma capacidade de raciocínio limitada e uma "alma inferior".

Logo depois, Aristóteles consolidou esse preconceito ao colocar o homem em um patamar de divindade e superioridade, definindo a mulher como um ser puramente emocional e "desviado do tipo humano". Para a filosofia da época, a razão deveria dominar a emoção assim como o masculino deveria dominar o feminino. Essa visão deturpada tirou o status de humanidade das mulheres e as transformou em propriedade.

Da Grécia ao Império Romano: Mulher como objeto

Essa herança teórica virou lei na prática. Conforme aponta a pesquisadora Pinafi (2007), na Grécia Antiga a mulher era privada de educação, direitos jurídicos e até de andar em público sem companhia. O parceiro detinha o direito de posse, inclusive sobre a sua vida.


No Império Romano, o cenário era ainda mais drástico: juridicamente, a mulher recebia o título de "rés", que significa, literalmente, coisa. Usar a violência contra a esposa para demonstrar autoridade era uma prática comum e aceita socialmente. A estrutura legal e religiosa existia para garantir que ela dependesse inteiramente da autorização do pai ou do marido para existir na sociedade.

O silenciamento no Brasil Colônia

Essa cultura desembarcou no Brasil junto com os colonizadores. O historiador Chakorowski (2013) destaca que no Brasil Colônia, o sistema educacional gerido pela Igreja Católica excluía as mulheres de forma deliberada. O analfabetismo era imposto como uma ferramenta de controle para garantir a obediência cega e evitar que elas pensassem em igualdade.


Para piorar, interpretações literais e equivocadas das escrituras bíblicas passaram a culpar o gênero feminino pela "queda do paraíso", transformando a mulher na figura da pecadora que só deveria carregar deveres e submissão.

A virada histórica: A dor e a urgência da lei

Foi contra essa opressão milenar que as mulheres começaram a marchar. No final do século XIX, os primeiros jornais femininos nasceram para anunciar a ignorância jurídica a que eram submetidas e exigir emancipação. A transição para o mercado de trabalho nas indústrias têxteis abriu portas, embora sob salários miseráveis.


A mudança política ganhou força em 1932, liderada pela bióloga Bertha Lutz, que garantiu o direito ao voto feminino no Código Eleitoral. Em 1934, a igualdade entre os sexos foi finalmente cravada na Constituição Federal e, nas décadas seguintes, movimentos como a Federação de Mulheres do Brasil ocuparam o debate público.

A dura realidade dos números contra a retórica de ódio

Mesmo com tantas conquistas, os resquícios dessa cultura colonial de posse ainda matam. E a retórica de negação cai por terra diante dos dados do próprio estado que a deputada foi eleita para representar. Enquanto a parlamentar usa microfones para fazer barulho ideológico nas redes, o estado de São Paulo registrou um recorde histórico de 142 feminicídios apenas no primeiro semestre de 2026. Isso representa uma alta de 10% em relação ao ano anterior, impulsionada assustadoramente pelos números do interior paulista, região vizinha à Baixada Santista onde a parlamentar construiu sua base eleitoral.

Dizer que o feminicídio não existe diante de uma mulher assassinada a cada seis horas no país não é apenas uma opinião política; é um deboche cruel com a dor alheia. É fechar os olhos para as mais de cinco mil paulistas que sofreram lesão corporal dolosa só no último mês de junho e para as centenas de crianças que vão dormir hoje sem o colo de suas mães.

O feminicídio existe na lei penal desde 2015 e se tornou um crime autônomo e severo em 2024. Mas, acima de tudo, ele existe no sangue derramado, no medo trancado dentro de casa e nas ameaças que silenciam milhares de brasileiras todos os dias.

Desprezar esse conceito em um palanque ou em um podcast não apaga o crime. Pelo contrário: apenas prova que a mentalidade dos filósofos que nos viam como "objetos" há dois mil anos continua viva, engravatada e ocupando cadeiras no poder.