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Aliados veem Flávio à frente no debate — e apontam duas derrapadas

Por Redação EG News • 24/10/2026 às 09h29 (Atualizado em 24/10/2026 às 09h30) • ⏱️ 11 min de leitura
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O "nove dedos", o caso Ana Clara e as críticas ao adversário: o que as duas campanhas disseram no dia seguinte · 24 de outubro de 2026

 

1 · O saldo que os aliados de Flávio fizeram

Interlocutores do senador Flávio Bolsonaro (PL) avaliaram positivamente o desempenho dele no debate da TV Globo, na noite de sexta-feira 23 de outubro, mas apontaram duas derrapadas específicas. A avaliação foi relatada por aliados ao jornal O Globo, e é a leitura de bastidor de quem trabalha pela campanha — não um resultado verificável.

Na visão desses interlocutores, o saldo geral foi favorável apesar dos episódios. Dois momentos apareceram como problemas: a provocação com a expressão "nove dedos" e a forma como o senador tratou o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um disparo de policial militar em Niterói, em 2021.

Um terceiro elemento foi citado como ponto positivo: Flávio reconheceu, ao ser questionado por Lula, ter votado contra o aumento da licença-maternidade de servidoras do Rio quando era deputado estadual. Aliados avaliaram que a admissão reforçou o argumento de que o senador não foge de perguntas — leitura que, no mesmo debate, também foi apontada como sinal de que ele mudou de posição.

2 · As duas derrapadas

O "nove dedos"

Depois de ser questionado por Lula sobre sua posição a respeito da tarifa zero nos ônibus, Flávio passou a criticar o adversário dizendo que não adiantava o presidente "dar com uma mão e tirar com os nove dedos", referência à perda do dedo mínimo da mão esquerda de Lula, em acidente de trabalho quando ele era metalúrgico, aos 17 anos.

Lula respondeu no mesmo bloco, e a resposta é o que ficou registrado: "Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de nove dedos. E eu quero que ele saiba de uma coisa: se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando à noite. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos".

Entre aliados, o episódio foi classificado como derrapada. O pedido de desculpas que veio depois, porém, foi interpretado no próprio campo como gesto positivo e demonstração de "grandeza" — a leitura de que admitir o erro também comunica algo ao eleitor.

O caso Ana Clara

O segundo ponto de crítica foi mais delicado. Ao responder a Lula sobre sua atuação como advogado de defesa do policial militar acusado pelo disparo que matou Ana Clara, Flávio se dirigiu à mãe da criança, Cristiane Gomes, chamando-a pelo nome da filha.

A troca de nomes foi registrada como gafe por veículos que cobriram o programa. Neste caso, os aliados não citaram um gesto de reparação equivalente ao pedido de desculpas do episódio anterior.

3 · O que os aliados de Flávio disseram sobre Lula

A mesma avaliação de bastidor trouxe críticas ao desempenho do presidente. Interlocutores de Flávio disseram que Lula pareceu nervoso durante o confronto e que recorreu à ironia para desqualificar o adversário, chamando-o repetidamente de "mentiroso" e "miliciano".

O argumento que usaram é interessante por ser simétrico: segundo esses aliados, esse mesmo comportamento havia sido criticado em Flávio no debate anterior, na Band. Ou seja, a campanha apontou no adversário o que a própria equipe havia sido orientada a corrigir no seu candidato — de fato, Flávio recebeu orientação para reduzir o confronto direto e evitar ataques que soassem desrespeitosos.

Os aliados avaliaram ainda que a tentativa de Lula de adotar uma aparência mais jovem, inclusive sem gravata, não funcionou como esperado. Esta é uma avaliação estética, de bastidor, sem qualquer elemento verificável — e registrada aqui como o que é: opinião de campo.

4 · Como cada campanha se preparou

A preparação para este debate foi, ela mesma, objeto de disputa interna, e as mudanças aparecem nas duas campanhas.

Item

Campanha de Flávio

Campanha de Lula

Quem conduziu o treinamento

Duda Lima, marqueteiro da campanha, responsável pela postura e comunicação

Equipe própria, com foco em administrar tempo de resposta

Quem participou

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que contribuiu com informações sobre infraestrutura e fez as vezes de Lula nos treinos

Sem participação externa registrada

Quem ficou de fora

Pablo Marçal, que havia participado da preparação para o debate da Band e defendeu atuação mais contundente

—

Orientação central

Reduzir o confronto direto, focar em propostas e evitar gestos que soassem desrespeitosos

Evitar provocações, reduzir improvisos e melhorar a gestão do tempo

O que motivou a mudança

Avaliação interna de que, na Band, o senador não aproveitou bem as oportunidades e soou repetitivo por não dominar o próprio repertório

Conclusão de que era preciso corrigir a comunicação das propostas

Duração da preparação

Dois dias, quinta e sexta-feira, em Brasília e no Rio

Dois dias na reta final

A saída de Pablo Marçal do entorno da preparação foi avaliada positivamente por integrantes da campanha de Flávio, com o argumento de que isso permitiria ao senador se expressar de maneira mais espontânea. Antes do debate, aliados já haviam defendido publicamente que Flávio fosse "menos Pablo Marçal".

O histórico por trás disso é menos sobre estratégia e mais sobre convivência. A participação de Marçal na preparação para o debate da Band havia provocado desconforto na equipe de comunicação, em razão de um histórico de confronto entre o influenciador e o marqueteiro Duda Lima durante a eleição municipal de São Paulo, em 2024. Aliados que se opunham à presença de Marçal argumentavam que o senador já contava com interlocutores políticos mais próximos e experientes.

5 · Sobre Lula, a leitura dos aliados do senador

Um segundo fio de avaliação publicado por O Globo amplia a leitura sobre o desempenho do presidente. Segundo a análise, o confronto direto com Flávio levou Lula a defender o próprio legado — e isso teria prejudicado uma estratégia definida internamente depois do primeiro turno.

Quando Flávio terminou à frente na etapa inicial da eleição e a organização da campanha foi reformulada, a nova coordenação acentuou a orientação de evitar referências ao legado e focar em propostas para o futuro. A conclusão interna havia sido que falar do passado não rende votos.

No debate de sexta, Lula voltou a falar de legado em pelo menos um momento em que o tema sorteado era outro — escolas em tempo integral.

Vale registrar uma crítica feita por aliados de Lula ao próprio candidato, registrada antes do debate: a avaliação de que ele foi melhor quando foi "mais Lula e menos marketing", e que pode ter subestimado o peso da preparação por conta da experiência acumulada em embates televisados.

6 · Como ler as avaliações de bastidor

Três observações ajudam a usar este material sem transformá-lo em resultado eleitoral.

A primeira é de origem. Todas as avaliações aqui reunidas são de aliados — de Flávio e de Lula. Quem trabalha em campanha tem interesse no desfecho, e a leitura que faz do próprio desempenho entra na disputa narrativa dos dias finais. Isso não as desqualifica como informação: elas existem, foram ditas, e revelam como cada campo decidiu apresentar a noite. Mas não são medição de efeito.

A segunda é que a avaliação de aliados não coincide com a de analistas. Enquanto interlocutores de Flávio viram saldo favorável, análises publicadas por jornalistas no mesmo dia apontaram vantagem de Lula, com graus diferentes — a Folha falou em vitória "por pontos", e o cientista político Antonio Lavareda, em margem "clara, mas não esmagadora". Os dois conjuntos de leitura podem ser verdadeiros ao mesmo tempo, porque medem coisas distintas: um mede a percepção dos próprios campos, o outro, a avaliação de terceiros.

A terceira é que o efeito de um debate sobre voto não se mede no dia seguinte. Pesquisas divulgadas depois da votação podem indicar movimento, mas atribuí-lo a um programa específico exige um desenho de pesquisa que não existe aqui. O que se pode afirmar com segurança é mais modesto: houve duas frases que grudaram, "nove dedos" e "miliciano"; houve uma gafe com o nome de uma mãe; e houve uma campanha que se preparou para um debate menos agressivo — nos dois lados.

A votação é neste domingo, 25 de outubro.

 

Nota metodológica

Este texto se baseia em reportagens publicadas por O Globo entre 21 e 24 de outubro de 2026, assinadas por Letícia Pille, Luísa Marzullo e Sérgio Roxo, sobre a avaliação de bastidor das duas campanhas e a preparação para o debate da TV Globo, e em reportagens da Folha de S.Paulo, da CNN Brasil, da Gazeta do Povo e do UOL sobre a mesma preparação. As avaliações estão atribuídas a aliados das campanhas, conforme relatadas pelas fontes, e são apresentadas como percepção de campo, não como apuração de resultado. As citações reproduzem os trechos como publicados. As informações sobre a saída de Pablo Marçal da preparação e sobre a participação de Tarcísio de Freitas foram divulgadas por mais de um veículo e estão registradas de forma convergente.