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Eles precificaram Flávio — e agora pagam a conta

Por Redação EG News • 26/10/2026 às 13h29 (Atualizado em 26/10/2026 às 13h31) • ⏱️ 10 min de leitura
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Ibovespa com a maior queda diária desde 1998, dólar a R$ 5,60 e três circuit breakers · a reação em boa parte devolve o prêmio construído sobre a expectativa de troca de governo · 26 de outubro de 2026

 

Nota: os valores deste texto são intradiários — mínimas e máximas registradas ao longo do pregão, que se encerra às 17h. Os números de fechamento serão publicados em reportagem separada.

1 · O que aconteceu

O primeiro pregão depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno foi o mais turbulento da bolsa brasileira em quase três décadas. Às 10h05, a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020, interrompendo as negociações por 30 minutos. Na reabertura, houve um segundo acionamento — e a Bolsa precisou ampliar os limites de oscilação duas vezes, de 6% para 8,4% e depois para 12%.

Indicador

Antes da eleição (23/10)

Intradiário em 26/10

Variação

Ibovespa

205.082 pontos

Mínima de 169.516

até -17,34%

Dólar comercial

R$ 4,993

Máxima de R$ 5,60

até +12,2%

DI jan/2031

12,575%

15,485%

+2,91 pontos

DI jan/2027

—

13,97%

+52 pontos-base

Se mantido o ritmo até o fechamento, seria o pior desempenho percentual diário do Ibovespa desde 10 de setembro de 1998. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e indexados a índices de preços previstos para 27 e 29 de outubro.

O movimento começou antes da abertura, e fora do país: no pós-mercado de domingo, o EWZ, fundo negociado em Nova York que acompanha ações brasileiras, chegou a recuar 26% no pré-mercado. Em Chicago, o dólar futuro bateu o equivalente a R$ 5,55.

2 · A explicação central: o mercado tinha apostado em Flávio

A reação não foi apenas uma avaliação sobre o futuro governo. Boa parte dela é a devolução de um prêmio que havia sido incorporado aos preços brasileiros nas semanas anteriores.

O ponto de partida foi o primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou a votação à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A partir daí, o mercado passou a precificar a alternância de poder — com uma agenda de política fiscal mais restritiva, maior controle de despesas e menos participação do Estado na economia.

O efeito apareceu nos números: em agosto, o dólar recuou cerca de 2%, e, em outubro, o Ibovespa subiu 10,06%, fechando a sexta-feira antes do pleito perto da máxima histórica.

As pesquisas eleitorais reforçavam essa leitura. Segundo levantamento citado pelo InfoMoney, das 13 pesquisas consideradas em uma análise de mercado, todas apontavam Flávio à frente, com vantagem média de 2,4 pontos percentuais. O Estadão registra que o mercado atribuía cerca de 80% de chance de vitória ao senador, embora as pesquisas indicassem empate técnico.

Das 13 pesquisas consideradas na nossa análise, todas apontavam Flávio Bolsonaro à frente, com vantagem média de 2,4 pontos percentuais.

2.1 Por que a conta foi tão alta

Dois fatores explicam a intensidade. O primeiro é a distância entre o preço e a urna: em 2022, Lula já era favorito e o dia seguinte teve alta da bolsa. Em 2026, o mesmo resultado chegou como surpresa contra um posicionamento extremo. O choque é função dessa distância.

O segundo é a assimetria. Como a vitória de Flávio já estava parcialmente nos preços, a melhora esperada com ele era menor do que a piora provocada pela frustração da aposta.

Minha leitura é que a piora com Lula tende a ser mais intensa do que a melhora que viria com Flávio, justamente porque a vitória do senador já estava parcialmente no preço.

Há muito dinheiro posicionado nessa direção, o que torna a reação a uma reeleição de Lula mais abrupta.

O economista Bruno Corano, da Corano Capital, projeta o dólar entre R$ 5,40 e R$ 5,80 nas primeiras semanas, ante R$ 5,02 às vésperas da eleição, e acima de R$ 5,50 em 2027 enquanto não houver um plano fiscal considerado crível.

3 · O que o mercado vai cobrar agora

Passado o choque inicial, o foco migrou para o fiscal. E o diagnóstico é duro.

O Goldman Sachs afirmou, em relatório divulgado nesta segunda-feira, que um prêmio fiscal maior deve ser incorporado aos ativos brasileiros, e que a configuração política pode elevar atritos com o governo e piorar a governabilidade — especialmente na aprovação de medidas econômicas.

O Morgan Stanley projetou queda de 20% a 30% no valor das ações brasileiras nas próximas semanas, com a bolsa podendo negociar a 6,2 vezes o lucro até meados de 2027, o equivalente a cerca de 130 mil pontos. No cenário mais pessimista, o banco vê dólar a R$ 6 e juros futuros de 2029 a 16,5%.

O Citi avaliou que o resultado contrariou as expectativas do mercado e reforçou preocupações com a política fiscal, as empresas estatais e a agenda de reformas.

3.1 O que encareceu o ajuste

Um dado é recorrente nas análises: a campanha incluiu um pacote de medidas com impacto bilionário nas contas públicas — entre elas, um cheque de R$ 5 mil para microempreendedores individuais —, o que aumentou o custo fiscal pouco antes da eleição.

O sarrafo subiu depois que as medidas tomadas para ganhar a eleição aumentaram o custo fiscal, e não se sabe se Lula vai querer pagar o preço.

A dívida pública brasileira atingiu 82,9% do PIB, e o custo com juros equivale a quase 9% do PIB ao ano. Em cenário de ajuste considerado crível, com corte inicial de 1,5 ponto do PIB, a dívida pararia de subir em 2029, em 89,5%.

4 · A reação já mostrou sinais de absorção

Nem tudo no dia apontou para o pânico. A PTAX, taxa de câmbio de referência calculada pelo Banco Central, saiu a R$ 5,6052 na primeira parcial — alta de 11,27% sobre sexta-feira. Na terceira parcial, às 12h09, já recuava a R$ 5,4503.

Analistas também esperam recuperação gradual do real depois do estresse inicial, e o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira foi na direção oposta ao pessimismo do pregão: a projeção para o dólar no fim de 2026 caiu de R$ 5,13 para R$ 5,05, e a estimativa para a Selic foi mantida em 13,25% ao ano.

A leitura predominante entre economistas é que o movimento se divide em duas etapas: primeiro, a correção que desfaz o rali construído sobre a aposta em Flávio; depois, a trajetória que dependerá das sinalizações do novo governo.

Teremos duas etapas: a volta à estaca zero e, depois, o novo governo, a vida nova, que pode ser melhor ou pior no âmbito fiscal. Será preciso ver para que lado o governo vai.

5 · O que observar nas próximas semanas

●        a definição do ministro da Fazenda e da equipe econômica;

●        o Orçamento de 2027, enviado ao Congresso no fim de agosto e que precisa ser aprovado até dezembro;

●        sinalizações concretas de compromisso com o arcabouço fiscal, em atos e não em discurso;

●        a próxima reunião do Copom, com a Selic em 13,25% ao ano;

●        a relação do governo com um Congresso mais à direita, que pode dificultar mudanças fiscais.

Um gestor resumiu o tom predominante: "Não teremos o benefício da dúvida como foi a vitória passada."

6 · Nota metodológica

Os valores citados neste texto são intradiários — mínimas e máximas registradas durante o pregão de 26 de outubro de 2026, que se encerra às 17h. Não representam, portanto, o resultado de fechamento, que será objeto de reportagem separada.

As cotações de referência anteriores à eleição são as do fechamento de sexta-feira, 23 de outubro: Ibovespa a 205.082 pontos, dólar a R$ 4,993 e DI para janeiro de 2031 a 12,575%.

As avaliações de instituições financeiras citadas — Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citi — vêm de relatórios distribuídos a clientes nesta segunda-feira. As declarações de economistas e gestores estão atribuídas a quem as fez e foram veiculadas pela imprensa econômica.

O resultado eleitoral foi confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral: Lula obteve 51,79% dos votos válidos, e Flávio Bolsonaro, 48,21%.

 

 

 

 

 

 

foto: divulgação 

AFP via Getty Images