O mercado apostou em Flávio. Em um pregão, devolveu a aposta
A pior queda diária do Ibovespa desde 1998, o dólar batendo o teto de oscilação ainda na abertura e o CDS subindo 26% · mas o pico do dia ficou para trás, e a moeda já recuava ao meio-dia · 26 de outubro de 2026
Nota: os valores de Ibovespa, dólar e CDS neste texto são intradiários — mínimas e máximas registradas durante o pregão de 26 de outubro de 2026. O fechamento oficial da B3 não havia sido consolidado até a redação final.
1 · O que aconteceu
O primeiro pregão depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno foi o mais turbulento da bolsa brasileira em quase três décadas. Na madrugada, no pós-mercado internacional, o EWZ — fundo negociado em Nova York que acompanha ações brasileiras — chegou a recuar 26%, e papéis de bancos brasileiros caíam mais de 25% no pré-mercado. Às 9h57, ainda no leilão de abertura, a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020, interrompendo as negociações por 30 minutos. Na retomada, às 10h38, a maioria dos papéis permanecia em leilão.
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Indicador |
Fechamento de 23/10 |
Intradiário em 26/10 |
Variação |
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Ibovespa |
205.082 pts |
Mínima de 169.516 |
até -17,34% |
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Dólar comercial |
R$ 4,99 |
Máxima de R$ 5,6048 |
até +12,25% |
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PTAX (1º boletim) |
R$ 5,0377 |
R$ 5,6052 |
+11,27% |
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DI jan/2031 |
12,64% |
15,485% |
+2,85 pontos |
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CDS 5 anos |
120,2 pts |
151,67 pts |
+26% |
Se confirmado no fechamento, é o pior desempenho percentual diário do Ibovespa desde 10 de setembro de 1998. A B3 precisou ampliar os limites de oscilação dos contratos futuros em três ocasiões ao longo do dia — para índice, dólar e juros.
2 · A explicação central: o mercado tinha apostado em Flávio
A reação não foi apenas uma avaliação sobre o futuro governo. Boa parte dela é a devolução de um prêmio que havia sido incorporado aos preços brasileiros nas semanas anteriores.
O ponto de partida foi o primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou a votação à frente, e a partir daí o mercado passou a precificar a alternância de poder — com uma agenda de política fiscal mais restritiva, maior controle de despesas e menos participação do Estado na economia. Em 23 de outubro, o dólar havia recuado 4,11% e fechado a R$ 5,001, no maior recuo de fechamento desde 2018; a bolsa subiu 7,70% no pregão seguinte ao primeiro turno, aos 206.911 pontos, recorde em termos nominais e reais.
As pesquisas eleitorais reforçavam essa leitura. O mercado trabalhava com probabilidades de vitória de Flávio entre 70% e 90%, e casas internacionais recomendaram compra de ações brasileiras e apostas na valorização do real.
Uma vitória de Bolsonaro realmente aumenta a perspectiva de um ajuste fiscal significativo.
A estratégia ganhou nome nos relatórios: o "rali Flávio". Alguns gestores, como a Legacy Capital, reduziram exposição a risco antes do segundo turno mesmo esperando a vitória do senador.
2.1 O que significa devolver a aposta
A explicação mais direta para a intensidade do movimento veio de uma estrategista que acompanhava o posicionamento dos investidores.
Boa parte do movimento é a aposta eleitoral: a alta após o primeiro turno está sendo praticamente toda devolvida de uma só vez.
O cálculo não é vago. Como o mercado havia comprado expectativa de governo Flávio e de cortes de juros, a derrota obrigou o desmonte simultâneo dessas posições — e a venda foi concentrada numa única sessão.
3 · O que o mercado vai cobrar agora
Passado o choque inicial, o foco migrou para o fiscal. E o diagnóstico é duro.
O Goldman Sachs afirmou, em relatório divulgado nesta segunda-feira, que um prêmio fiscal maior deve ser incorporado aos ativos brasileiros, e que a configuração política pode elevar atritos com o governo e piorar a governabilidade — especialmente na aprovação de medidas econômicas.
O Morgan Stanley projetou queda de 20% a 30% no valor das ações brasileiras nas próximas semanas, com a bolsa podendo negociar a 6,2 vezes o lucro até meados de 2027, o equivalente a cerca de 130 mil pontos. No cenário mais pessimista, o banco vê dólar a R$ 6 e juros futuros de 2029 a 16,5%.
O Citi avaliou que o resultado contrariou as expectativas do mercado e reforçou preocupações com a política fiscal, as empresas estatais e a agenda de reformas.
A lógica é a da dívida: o CDS de 5 anos, que mede o custo de proteção contra o calote na dívida brasileira, subiu 26% entre o fechamento de sexta e a manhã desta segunda, de 120,2 para 151,67 pontos-base. O temor apontado por analistas é o de que a manutenção de uma política fiscal expansionista aumente o risco de novo rebaixamento da nota do país.
4 · Os juros futuros e a intervenção da B3
O movimento mais extremo do dia foi no mercado de juros, não no câmbio. Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) abriram em alta generalizada, e a B3 precisou ampliar os limites de oscilação três vezes.
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Vencimento |
Ajuste de 23/10 |
Em 26/10 |
Variação |
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DI jan/2027 |
13,465% |
13,983% |
+52 pontos-base |
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DI jan/2028 |
12,855% |
14,89% |
+204 pontos-base |
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DI jan/2029 |
12,64% |
15,32% |
+268 pontos-base |
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DI jan/2031 |
12,64% |
15,485% |
+285 pontos-base |
O Valor registrou o salto de quase três pontos percentuais nos vencimentos longos e a inclinação da curva a termo. No auge do estresse, o limite superior de oscilação do DI jan/2031 foi elevado de 14,46% para 15,25%, e a taxa negociada chegou a 15,485%.
Houve sinalização pública de contenção: o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e indexados a índices de preços previstos para 27 e 29 de outubro.
5 · A reação já mostrou sinais de absorção
Nem tudo no dia apontou para o pânico. A PTAX, taxa de câmbio de referência calculada pelo Banco Central, saiu a R$ 5,6052 no primeiro boletim, às 10h11 — alta de 11,27% sobre sexta-feira. Na terceira parcial, às 12h09, já recuava a R$ 5,4503.
O dólar comercial, que havia disparado 11,71% perto das 9h40 e batido o teto de oscilação nos contratos futuros ainda nos primeiros minutos, chegou a ser negociado a R$ 5,43 às 14h23, alta de 8,55%. A máxima do dia, de R$ 5,6048, ficou na abertura.
A leitura predominante entre economistas é que o movimento se divide em duas etapas: primeiro, a correção que desfaz o rali construído sobre a aposta em Flávio; depois, a trajetória que dependerá das sinalizações do novo governo.
Teremos duas etapas: a volta à estaca zero e, depois, o novo governo, a vida nova, que pode ser melhor ou pior no âmbito fiscal. Será preciso ver para que lado o governo vai.
Um gestor resumiu o tom predominante em outra frase: "Não teremos o benefício da dúvida como foi a vitória passada."
6 · O que observar nas próximas semanas
● a definição do ministro da Fazenda e da equipe econômica;
● o Orçamento de 2027, enviado ao Congresso no fim de agosto e que precisa ser aprovado até dezembro;
● sinalizações concretas de compromisso com o arcabouço fiscal, em atos e não em discurso;
● a próxima reunião do Copom, com a Selic em 13,25% ao ano, e o efeito do câmbio sobre a inflação;
● a relação do governo com um Congresso mais à direita, que pode dificultar mudanças fiscais;
● se a devolução do prêmio eleitoral se completa ou se abre espaço para reprecificação de baixa nos ativos.
7 · Nota metodológica
Os valores de Ibovespa, dólar e CDS citados neste texto são intradiários — mínimas e máximas registradas ao longo do pregão de 26 de outubro de 2026. O fechamento oficial da B3 e a PTAX de fechamento não haviam sido consolidados até a redação final, e serão objeto de atualização.
As cotações de referência anteriores à eleição são as do fechamento de sexta-feira, 23 de outubro: Ibovespa a 205.082 pontos, dólar a R$ 4,99 e DI para janeiro de 2031 a 12,64%.
As avaliações de instituições financeiras citadas — Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citi — vêm de relatórios distribuídos a clientes nesta segunda-feira. As declarações de economistas e gestores estão atribuídas a quem as fez e foram veiculadas pela imprensa econômica.