Ele não entregou o passaporte, desapareceu por seis horas — e a família diz que ele foi para os EUA
Flávio descumpriu a ordem de Moraes e teve os passaportes cancelados · o Metrópoles apurou com pessoas próximas à família que ele embarcou e o avião está em voo · a Polícia Federal não tem registro de saída e a Argentina nega a entrada · 27 de outubro de 2026
1 · O que foi apurado
A informação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o país e está a caminho dos Estados Unidos foi publicada pelo portal **Metrópoles**, na coluna Grande Angular, às 13h41 desta terça-feira (27). O texto afirma que o senador "foi embora para os Estados Unidos" e que "o avião está em voo".
A reportagem atribui a informação a **pessoas próximas à família** — não a confirmação oficial.
Nenhuma autoridade brasileira havia confirmado a saída até o fechamento desta reportagem. A Polícia Federal informa que não há registro de que o senador tenha deixado o território nacional pelos pontos regulares de controle migratório. O governo argentino nega que ele tenha ingressado no país.
2 · O que se sabe da manhã
O senador não apareceu em público em nenhum momento desta terça-feira. A reconstrução do dia tem um último contato conhecido e um prazo vencido.
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Horário |
O que aconteceu |
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20h (26/10) |
Comboio sai da casa de Flávio, em Brasília. Não se sabe se ele ou a família estavam nos carros |
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23h45 (26/10) |
Aeronave LV-JQW, da Baires Fly, pousa em Puerto Iguazú, na Argentina, vinda de Buenos Aires |
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2h30 (27/10) |
Voo previsto de Puerto Iguazú para Miami, com quatro passageiros, é cancelado pela companhia |
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8h |
Última mensagem de Flávio: escreve a Rogério Marinho que está "esfriando a cabeça" e não responde se deixou o Brasil |
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11h aprox. |
Vence o prazo de 24 horas para entrega dos passaportes, que não ocorre |
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13h41 |
Metrópoles publica que ele foi para os EUA e o avião está em voo |
3 · Como surgiu a notícia
A apuração começou na madrugada, quando o site argentino **Infobae** publicou que o senador teria deixado o Brasil rumo à Argentina, para seguir aos Estados Unidos em voo privado. Segundo o relato:
● ele teria cruzado a fronteira usando apenas a carteira de identidade, documento aceito para entrada de brasileiros no país vizinho;
● a decolagem estaria prevista de Puerto Iguazú, na província de Misiones, para as 2h no horário local;
● a aeronave indicada é um **Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, número de série 1524, fabricado em 2004**, operado pela empresa argentina Baires Fly S.A.;
● a companhia teria solicitado trâmites de aduana e migrações para quatro passageiros e três tripulantes.
O rastreamento público de voos registra parte desse trajeto: a aeronave decolou de Buenos Aires às 22h14 de segunda-feira e pousou em Puerto Iguazú às 23h45, saindo dos radares depois disso.
3.1 O voo foi cancelado e o avião não decolou
O jornal argentino **Clarín** reconstruiu a madrugada no aeroporto. O voo previsto para as 2h30 rumo a **Miami**, com quatro passageiros, **foi cancelado pela companhia aérea antes da decolagem**. Quando os tripulantes chegaram ao terminal com a aeronave, encontraram o voo já cancelado.
A explicação dada por uma fonte ao jornal foi uma só: **"Um dos passageiros teve um problema"**. E há um dado decisivo: **a lista de passageiros nunca foi entregue à imigração argentina**.
Os dois pilotos e a comissária desembarcaram e passaram a noite em um hotel em Puerto Iguazú, aguardando instruções da Baires Fly. **A aeronave permanece no aeroporto.** O destino Miami é o mesmo onde vive o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Isso não fecha com a informação de que o senador está em voo: o avião que teria o plano de voo para Miami não decolou. Se ele embarcou, foi em outra aeronave.
4 · O que dizem as autoridades
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Quem |
O que sustenta |
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Polícia Federal |
Nenhum registro de saída por ponto regular de migração. Se saiu, foi por meios ilegais |
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Direção Nacional de Migrações (AR) |
"Não há registro de entrada de Flávio Nantes Bolsonaro no país" |
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Casa Rosada |
"É falso. Não houve nenhuma entrada nem dele nem da sua família" |
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Porta-voz de Milei |
Nega entrada no país, nega decolagem aos EUA e nega pedido de asilo |
A Polícia Federal checou todos os pontos de saída legal do país. Fontes da corporação registram que a ausência de registro **não confirma** que ele esteja no exterior, e que uma eventual saída teria ocorrido sem passar pelos procedimentos regulares de fiscalização migratória.
A corporação também considera **"muito estranha"** a primeira resposta argentina, que alegou não poder repassar dados sobre pessoas politicamente expostas. Vale registrar o que isso é: uma justificativa juridicamente plausível, não necessariamente obstrução — e a resposta seguinte do órgão migratório argentino foi detalhada e categórica.
O órgão migratório argentino acrescentou que fiscalizou a aeronave e sua tripulação diante da repercussão, constatou que a documentação da empresa está regular e registrou que **não foi apresentado nenhum plano de voo que incluísse membros da família Bolsonaro**.
5 · O descumprimento da ordem
O prazo de 24 horas para a entrega dos passaportes, fixado a partir da intimação cumprida pela Polícia Federal na segunda-feira, venceu por volta das 11h desta terça-feira. **O senador não entregou os documentos.**
A defesa havia sinalizado que a entrega seria feita na manhã de hoje — e isso não ocorreu. A Polícia Federal procedeu então ao **cancelamento do passaporte comum e do diplomático** e vai comunicar ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que o senador descumpriu a ordem.
A determinação de Moraes foi assinada na noite de domingo (25), o dia da derrota, no inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de apostas e o advogado Willer Tomaz. O ministro também **proibiu Flávio de manter contato com Tomaz**.
O fundamento da medida era precisamente este: o receio de que ele deixasse o território e não retornasse para cumprir ordens judiciais. E o senador negou esse risco em vídeo, na segunda-feira:
"Eu nunca pensei em sair do país." / "Eu nunca falei isso. Isso é motivo para tirar meu passaporte?"
6 · O silêncio
Ao longo de todo o dia, ninguém confirmou onde o senador está — nem os aliados mais próximos.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha, foi o primeiro a negar publicamente a saída, em declaração ao Metrópoles: **"Não saiu"**. Ele não deu detalhes sobre o paradeiro do correligionário. A última comunicação registrada entre Flávio e o núcleo político mais próximo foi às 8h, justamente com Marinho.
Dois interlocutores que falaram com a equipe de segurança do senador afirmaram que ele estava em casa, em Brasília — sem apresentar prova. Apoiadores próximos relatam ter sido pegos de surpresa com a possibilidade de que ele esteja fora do país, e até a segunda-feira ele discutia com aliados a liderança da oposição.
Nos Estados Unidos, o apresentador **Paulo Figueiredo**, aliado de Flávio no país, **recusou-se a informar onde o senador está** e pediu a jornalistas que não insistissem em contato. A assessoria do senador não respondeu aos questionamentos da imprensa.
O senador não faz publicações em redes sociais desde a noite de segunda-feira.
7 · O que observar
● se a Polícia Federal ou o governo americano confirmam a chegada do senador aos Estados Unidos;
● se a aeronave retida em Puerto Iguazú volta a decolar, e com qual rota;
● quais medidas o ministro Alexandre de Moraes adota diante do descumprimento da ordem;
● se a Procuradoria-Geral da República se manifesta sobre a conduta do senador;
● se há pedido de prisão ou de extradição, e qual a resposta das autoridades americanas;
● se a defesa do senador se pronunciará sobre a ordem descumprida.
8 · Nota metodológica
A informação de que Flávio Bolsonaro deixou o país e está a caminho dos Estados Unidos é do portal Metrópoles, na coluna Grande Angular, publicada às 13h41 de 27 de outubro de 2026, atribuída a pessoas próximas à família. É a única fonte consultada nesta apuração que afirma positivamente a saída — e não há, até o fechamento, confirmação oficial dela.
A informação original sobre a travessia da fronteira é do site argentino Infobae, publicada na madrugada de 27 de outubro. Os dados de rastreamento da aeronave de matrícula LV-JQW constam do serviço público Flightradar24, consultado por diversos veículos: confirmam o trecho Buenos Aires–Puerto Iguazú e não registram decolagem subsequente.
A reconstrução do voo cancelado, da explicação "um dos passageiros teve um problema", da ausência da lista de passageiros e da permanência da tripulação em Puerto Iguazú é do jornal argentino Clarín, reproduzida por O Globo.
A ausência de registro de saída pelos pontos regulares de migração brasileira é atribuída a fontes da Polícia Federal, em apurações do Metrópoles, do G1, da Folha e de O Globo. A avaliação de que a primeira resposta argentina foi "muito estranha" também é atribuída a fontes da corporação, não a comunicado oficial.
As manifestações do governo argentino foram feitas à imprensa pela Direção Nacional de Migrações, pela Casa Rosada e por seus porta-vozes. O cancelamento dos passaportes comum e diplomático e a comunicação a Moraes sobre o descumprimento são informações atribuídas à Polícia Federal.
Dados técnicos da aeronave — modelo Gulfstream G400, número de série 1524, fabricado em 2004 — constam de bases aeronáuticas especializadas e são consistentes entre si. A Baires Fly S.A. aparece como **operadora** da aeronave; o proprietário registral não foi confirmado nesta apuração, e o texto não afirma que a empresa seja sua dona.
Nenhuma das versões sobre o paradeiro do senador foi comprovada documentalmente até o fechamento desta reportagem. As afirmações de aliados e autoridades estão atribuídas a quem as fez quando constituem alegação, e não fato verificado