Abdul El-Sayed vence em Michigan e será o primeiro senador muçulmano dos EUA
Médico epidemiologista, filho de imigrantes egípcios e ex-diretor de saúde de Detroit, ele derrota o ex-deputado Mike Rogers por 52,4% a 45,6%, devolve a Michigan uma cadeira que os democratas não ganhavam para o Senado em mais de 30 anos e resiste a uma campanha marcada por ataques à sua fé.
O democrata Abdul El-Sayed venceu nesta terça-feira (3) a disputa pelo Senado dos Estados Unidos por Michigan e se tornará o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado americano. Será também o primeiro senador de origem egípcia do país.
Com mais de 95% das urnas apuradas, segundo a Associated Press:
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Candidato |
Partido |
Votos |
Percentual |
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Abdul El-Sayed |
Democrata |
2.480.577 |
52,4% |
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Mike Rogers |
Republicano |
2.154.946 |
45,6% |
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Total apurado |
— |
4.730.161 |
— |
A vantagem é de 325.631 votos. Os percentuais variam conforme a contagem avança: o g1 registrava 51,8% a 46,2%, e o The Business Standard, citando o *The Guardian*, trazia 52% a 46% com 2.207.507 votos para El-Sayed. Todos são parciais — o resultado só se torna definitivo após a certificação.
1 · Uma vitória que o partido não via em Michigan há mais de 30 anos
O marco não é só religioso. Segundo o g1, esta foi a primeira vitória democrata para o Senado em Michigan em mais de 30 anos — e The Thursday Times aponta que os democratas ocupavam a cadeira desde 1979. A leitura mais consistente com ambas as referências é que 1979 marca a origem da sequência democrata na cadeira e que a vitória de 2026 é a primeira do partido no estado em mais de três décadas, o que exige a ressalva de que as fontes contam o período de formas diferentes.
A vaga era de Gary Peters, que não disputou a reeleição.
2 · Quem é Abdul El-Sayed
El-Sayed tem 42 anos, nasceu nos arredores de Detroit e é filho de imigrantes egípcios — a campanha dele o apresentou como o que seria o primeiro senador egípcio-americano da história. Integra a ala mais progressista do partido e virou uma das grandes estrelas democratas destas midterms.
A formação dele é de saúde pública, não de política. Estudou biologia e ciência política, migrou para a faculdade de medicina em Columbia, fez doutorado em saúde pública na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e voltou aos EUA como professor de epidemiologia em Columbia. Em 2015, aos 30 anos, assumiu a direção do Departamento de Saúde de Detroit — e depois dirigiu o Departamento de Saúde do condado de Wayne, de 2023 a 2025.
É casado com a psiquiatra Sarah Jukaku, de origem indiana e também muçulmana, com quem tem duas filhas. Na reta final da campanha, lançou um anúncio em que se apresenta como pai amoroso de duas filhas.
3 · A primeira tentativa, oito anos antes
A carreira eleitoral dele começou com uma derrota. Em 2018, tentou ser pré-candidato ao governo de Michigan nas primárias democratas e perdeu para Gretchen Whitmer, ficando com cerca de 30% dos votos.
Depois disso, nunca havia ocupado cargo eletivo — o que fez dele um "outsider" no próprio partido, como o g1 o descreve. A candidatura ao Senado foi lançada em abril de 2025, já com o perfil progressista que o caracteriza: Medicare for All, recusa de dinheiro de PACs e crítica ao peso do dinheiro corporativo na política.
4 · A primária e os dois rachas
Para chegar à eleição geral, El-Sayed derrotou na primária democrata de agosto de 2026 a favorita do establishment do partido, Haley Stevens — um resultado que expôs a divisão interna dos democratas em Michigan.
Na eleição geral, o racha se repetiu: uma deputada federal democrata apoiou o rival republicano, e a disputa ficou entre as mais acirradas do ciclo. Mike Rogers é ex-deputado federal e ex-agente do FBI.
5 · A religião no centro — sem estar no centro
El-Sayed não colocou a religião na pauta da campanha, mas ela acabou sendo o eixo dos ataques que ele sofreu. Ele foi alvo de críticas racistas e islamofóbicas de lideranças republicanas, com Trump chegando a chamá-lo de "jihadista" e a zombar do nome e da fé dele.
A resposta dele a um desses questionamentos, durante um comício, virou a frase-síntese da candidatura:
"Sou apenas um candidato ao Senado que, por acaso, é muçulmano."
Rogers tentou explorar dúvidas entre eleitores negros e, principalmente, judeus, depois das críticas duras de El-Sayed ao apoio dos EUA a Israel — retratando-o como um candidato de pauta única, "mais focado em Gaza do que em Michigan".
A aposta não se confirmou nas urnas. Uma pesquisa de boca de urna com eleitores judeus que votaram antecipadamente apontou 60% para El-Sayed contra 36% para Rogers nesse grupo, segundo a i24NEWS. O dado é de intenção declarada no voto antecipado, e não substitui a contagem oficial.
6 · O que ele promete
· Saúde universal — uma proposta de Medicare for All financiada pelo governo para todos os cidadãos americanos.
· Eliminação das dívidas médicas.
· Custo de vida, com foco em eleitores jovens e de voto esporádico.
· Fim do dinheiro corporativo na política.
· Redução da ajuda militar dos EUA a Israel, com o argumento de que os impostos dos moradores de Michigan seriam melhor gastos em casa.
7 · O discurso e o conjunto das barreiras rompidas
A vitória foi anunciada com um grito simples, segundo a Gulf News:
"Michigan, nós conseguimos!"
El-Sayed dedicou parte do discurso ao AIPAC, o lobby pró-Israel que apoiou seus adversários tanto na primária quanto na eleição geral. E as midterms de 2026 acumulam marcos de representatividade que se leem melhor em conjunto:
· Abdul El-Sayed (Michigan) — primeiro senador muçulmano e primeiro egípcio-americano no Senado.
· Peggy Flanagan (Minnesota) — primeira mulher indígena no Senado.
· Deb Haaland (Novo México) — primeira mulher indígena governadora de um estado.
· Chris Pappas (New Hampshire) — primeiro homem abertamente gay no Senado.
· Gina Hinojosa (Texas) — primeira latina a governar o Texas.
Todos se somam à onda que devolveu ao Partido Democrata o controle das duas casas do Congresso. A eleição de El-Sayed, em particular, dá à ala progressista do partido uma vitória de peso num dos estados-pêndulo mais importantes do país.
8 · Nota metodológica
Os resultados eleitorais são da Associated Press, com mais de 95% das urnas apuradas, segundo os painéis do The New York Times. A reportagem usa 52,4% a 45,6% (2.480.577 a 2.154.946 votos) e registra as divergências dos demais painéis no corpo do texto, porque elas são pequenas e refletem o andamento da contagem — nenhum desses números é definitivo.
O perfil, a trajetória, as propostas e os ataques sofridos foram apurados em reportagens do g1, NPR, CBS News, Reuters, CBC News, The Independent, Democracy Now!, i24NEWS, Gulf News, The Business Standard e The Thursday Times, de 4 de novembro de 2026.
A apuração ainda não estava encerrada no momento do fechamento desta edição, e os números podem sofrer alterações até a certificação do resultado.