Keisha Lance Bottoms vence na Geórgia e será a primeira governadora negra dos EUA
Ex-prefeita de Atlanta e ex-assessora de Biden derrota o bilionário Rick Jackson, que gastou mais de US$ 200 milhões do próprio bolso, e devolve aos democratas o governo de um estado que o partido não conquistava desde 1998.
A democrata Keisha Lance Bottoms venceu nesta terça-feira (3) a disputa pelo governo da Geórgia e se tornará a primeira mulher negra eleita governadora na história dos Estados Unidos. É também a primeira democrata a vencer a eleição para governador da Geórgia desde 1998.
A vitória foi projetada pela Associated Press por volta das 21h24 (horário local). Com 99% das urnas apuradas, o resultado era:
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Candidato |
Partido |
Votos |
Percentual |
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Keisha Lance Bottoms |
Democrata |
2.271.388 |
54,34% |
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Rick Jackson |
Republicano |
1.908.837 |
45,66% |
A vantagem é de 362.551 votos. O anúncio da AP foi feito com 75% dos votos contados; os percentuais acima já refletem a apuração praticamente concluída e ainda podem sofrer pequenas alterações até a certificação do resultado.
1 · O que a vitória quebra
A Geórgia é um estado moldado pelas heranças da escravidão, da segregação e da luta pelos direitos civis — como registrou o *The New York Times* — e se tornou o primeiro estado da história americana a eleger uma mulher negra como sua chefe do Executivo.
A conquista tem três camadas distintas, e vale separá-las:
· A barreira de gênero e raça: primeira mulher negra governadora na história dos EUA.
· A barreira partidária: primeira democrata a governar a Geórgia desde 1998 — mais de duas décadas de controle republicano do Executivo estadual.
· A transformação do mapa: a Geórgia deixou de ser um estado de voto consistentemente republicano e virou um estado-pêndulo, com dois senadores democratas. O governo e a legislatura, no entanto, seguiam solidamente republicanos — e é isso que a vitória de terça começa a reverter.
2 · Quem é Keisha Lance Bottoms
Bottoms tem 56 anos e é ex-prefeita de Atlanta, cargo que ocupou de 2018 a 2022. Depois de deixar a prefeitura, foi assessora sênior da Casa Branca no governo de Joe Biden.
A campanha dela foi marcada por uma referência pessoal que ela mesma repetiu: o avô dela migrou do interior da Geórgia para Atlanta e precisava entrar pela porta de trás dos prédios do centro da cidade — prédios que ela, mais tarde, entraria pela porta da frente como prefeita.
Antes da eleição, ela resumiu o peso do momento numa frase:
3 · O que ela disse
"O que fizermos neste momento ecoará pela história."
Bottoms venceu sem o apoio de bilionários e contra um adversário que financiou a própria campanha. Na leitura de Carol Anderson, professora de estudos afro-americanos da Universidade Emory, o resultado também foi uma resposta dos eleitores negros do estado: apesar dos esforços do governo Trump para restringir o voto negro no Sul e do esvaziamento da Lei de Direitos Eleitorais (Voting Rights Act) pela Suprema Corte, houve comparecimento massivo — o que impulsionou os democratas na Geórgia.
4 · O adversário e a diferença de recursos
O republicano Rick Jackson é um bilionário do setor de saúde com endosso declarado de Donald Trump, que venceu a Geórgia em 2024 — e havia perdido o estado em 2020. Jackson dizia querer ser "o governador favorito de Trump".
Ele era o favorito até a reta final, sustentado por uma campanha que ele financiou com mais de US$ 200 milhões da própria fortuna — um déficit de gastos que Bottoms não tinha como compensar em dinheiro.
O que virou o jogo foi a campanha de rua: Bottoms percorreu o estado ao lado de Barack Obama e do senador Jon Ossoff, que também foi reeleito com folga na mesma eleição. A máquina de mobilização supriu a desvantagem financeira — e o resultado mostra que, neste ciclo, gasto próprio não comprou votos na Geórgia.
5 · As prioridades do primeiro dia
A campanha anunciou três compromissos como prioridades imediatas de governo:
· Expansão integral do Medicaid no estado — uma das bandeiras históricas dos democratas na Geórgia.
· Restauração do acesso ao aborto.
· Cortes direcionados de impostos ao consumidor.
6 · Um ciclo que elegeu quatro governadores negros
A vitória de Bottoms não é um caso isolado: as midterms de 2026 elegeram governadores negros em quatro estados pela primeira vez, um total que supera o número acumulado de toda a história anterior do país.
Na Flórida, o republicano Byron Donalds se tornou a primeira pessoa negra eleita para um cargo estadual no estado e o primeiro governador negro republicano da história dos EUA. Segundo o Stateline, pela primeira vez pelo menos três governadores negros servirão simultaneamente nos Estados Unidos — Bottoms e Donalds se juntam ao governador de Maryland, Wes Moore.
E os marcos de representatividade deste ciclo se leem melhor em conjunto:
· Keisha Lance Bottoms (Geórgia) — primeira mulher negra governadora na história dos EUA.
· Deb Haaland (Novo México) — primeira mulher indígena governadora de um estado.
· Peggy Flanagan (Minnesota) — primeira mulher indígena no Senado.
· Abdul El-Sayed (Michigan) — primeiro senador muçulmano e primeiro egípcio-americano no Senado.
· Chris Pappas (New Hampshire) — primeiro homem abertamente gay no Senado.
· Gina Hinojosa (Texas) — primeira latina a governar o Texas.
Todos se somam à onda que devolveu ao Partido Democrata o controle das duas casas do Congresso, com Jon Ossoff reeleito senador pela Geórgia no mesmo dia.
7 · A vaga que ela herda
Bottoms substitui o governador republicano que deixa o cargo depois de oito anos por causa do limite de mandatos previsto na legislação estadual. Ela deve ser empossada em janeiro.
8 · Nota metodológica
A projeção da vitória é da Associated Press, feita às 21h24 (horário local) de 3 de novembro de 2026. Os percentuais e o total de votos consolidados da disputa para governador da Geórgia não estavam disponíveis até o fechamento desta edição — a corrida foi projetada durante a apuração, e esta reportagem não estima números que não tenha apurado. Os valores definitivos devem ser incorporados quando a contagem e a certificação forem concluídas.
O perfil, a trajetória, as prioridades de governo e a leitura do resultado foram apurados em reportagens da NPR (com material da Georgia Public Broadcasting), The New York Times, The Wall Street Journal, NBC News, Al Jazeera, Stateline, Democracy Now!, The Guardian, USA Today, FOX 5 Atlanta e The Reporter (com material da AP), todas de 3 e 4 de novembro de 2026.