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Walter Pinaya Colunistas

Mar de Concreto, Alma de Rio, A Pesca Liberada e o Preço do Silêncio / Mar de Concreto, Alma de Río, La Pesca Liberada y el Precio del Silencio

Por Redação EG News • 05/11/2026 às 14h56 (Atualizado em 05/11/2026 às 14h58) • ⏱️ 18 min de leitura
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Coluna Walter Pinaya – Portal EGNews

Fronteiras Invisíveis, Riscos Reais e Por Que o Rio Doce Ainda Nos Assombra / Fronteras Invisibles, Riesgos Reales y Por Qué el Río Doce Aún Nos Acecha

A foz do Rio Doce voltou a respirar, ou pelo menos tentou. Após onze longos anos de silêncio imposto pelas redes vazias e pelo medo, a Portaria Interministerial MPA/MMA nº 75/2026 liberou a pesca na faixa marinha entre Aracruz e Linhares, no Espírito Santo, até vinte metros de profundidade. O anúncio soa como um suspiro para centenas de famílias de pescadores artesanais que viram sua identidade ser soterrada junto com os 40 a 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos da barragem de Fundão em 2015. Mas a pergunta que ecoa mais alto que o barulho do mar é: será que a pressa em retomar a economia não está atropelando a biologia e a saúde humana?

La desembocadura del Río Doce ha vuelto a respirar, o al menos lo ha intentado. Tras once largos años de silencio impuesto por las redes vacías y el miedo, la Portaria Interministerial MPA/MMA nº 75/2026 ha liberado la pesca en la franja marina entre Aracruz y Linhares, en Espírito Santo, hasta veinte metros de profundidad. El anuncio suena como un suspiro para cientos de familias de pescadores artesanales que vieron su identidad sepultada junto con los 40 a 55 millones de metros cúbicos de residuos de la presa de Fundão en 2015. Pero la pregunta que resuena más alto que el ruido del mar es: ¿acaso la prisa por reactivar la economía no está atropellando la biología y la salud humana?

Para entender esse momento, precisamos olhar para o que acontece do outro lado do mundo. A história dos desastres de mineração não é generosa com prazos curtos. Em Baia Mare, na Romênia, o rompimento de uma barragem de rejeitos de ouro em 2000 liberou toneladas de cianeto e metais pesados que mataram mais de 1.200 toneladas de peixes na Hungria e atingiram o Danúbio. As proibições de pesca e consumo de água se estenderam por rios que cruzaram fronteiras da Romênia, Hungria, Sérvia e Bulgária, e a desconfiança sobre a segurança do pescado perdurou por muito mais tempo do que os testes imediatos de cianeto poderiam sugerir. A lição é clara, a liberação rápida, baseada em um retrato momentâneo, frequentemente ignora a persistência de contaminantes que se acumulam no sedimento e na cadeia alimentar. No Brasil, a lógica parece caminhar no sentido inverso, onde libera-se primeiro, monitora-se depois, e reza para que a dinâmica das águas não traga à tona o que a lama escondeu. A diferença é sutil, mas crucial, quando lá fora, a precaução dita o ritmo; aqui, a urgência econômica parece ditar as regras.

Para entender este momento, tenemos que mirar lo que ocurre al otro lado del mundo. La historia de los desastres mineros no es generosa con los plazos cortos. En Baia Mare, Rumanía, la rotura de una presa de residuos de oro en 2000 liberó toneladas de cianuro y metales pesados que mataron a más de 1.200 toneladas de peces en Hungría y llegaron al Danubio. Las prohibiciones de pesca y consumo de agua se extendieron por ríos que cruzaron las fronteras de Rumanía, Hungría, Serbia y Bulgaria, y la desconfianza sobre la seguridad del pescado perduró mucho más tiempo de lo que los análisis inmediatos de cianuro podían sugerir. La lección es clara: la liberación rápida, basada en una foto momentánea, a menudo ignora la persistencia de contaminantes que se acumulan en el sedimento y en la cadena alimentaria. En Brasil, la lógica parece ir en sentido contrario, donde primero se libera, luego se monitoriza, y se reza para que la dinámica de las aguas no saque a la superficie lo que el lodo escondió. La diferencia es sutil, pero crucial, fuera, la precaución marca el ritmo; aqui em Brasil, la urgencia económica parece dictar las reglas.

O que a nota técnica da ANVISA nos diz é que, no momento da análise, os níveis de chumbo e mercúrio estavam abaixo dos limites máximos tolerados. É um alívio momentâneo, um retrato estático de uma calmaria que pode ser efêmera. Pesquisa liderada pelo Dr. Evangelista da UERJ, publicado na revista Science of the Total Environment (2019) e reportado pelo Hakai Magazine comprovou que metais dissolvidos dos rejeitos da Samarco (zinco e cobre) foram incorporados pelos corais de Abrolhos, a cerca de 250 km da foz do Rio Doce, após a pluma se dispersar mais de 30 km mar adentro. Isso prova que o ambiente aquático não tem fronteiras físicas, o que está no rio chega ao mar, e o que está no mar se dispersa pela circulação costeira, atingindo áreas que nenhum mapa de proibição previu. O problema é que o Rio Doce não é uma fotografia; é um filme em constante movimento. Cientistas da UNESP, UFPR e UFC já demonstraram que, em amostragens mais amplas, metais como cádmio, cromo e chumbo ainda aparecem acima do permitido no tecido muscular de peixes locais, apresentam ainda anomalias, lesões e tumores, mesmo anos após o desastre. A liberação ignora a sazonalidade: uma chuva forte na cabeceira do rio ou uma ressaca marinha pode revolucionar o leito e liberar décadas de contaminantes em questão de dias.

Lo que nos dice la nota técnica de la ANVISA es que, en el momento del análisis, los niveles de plomo y mercurio estaban por debajo de los límites máximos tolerados. Es un alivio momentáneo, una foto estática de una calma que puede ser efímera. Una investigación liderada por el Dr. Evangelista, de la UERJ, publicada en la revista *Science of the Total Environment* (2019) y difundida por *Hakai Magazine*, demostró que metales disueltos de los residuos de Samarco (zinc y cobre) fueron incorporados por los corales de Abrolhos, a unos 250 km de la desembocadura del Río Doce, tras dispersarse la pluma más de 30 km mar adentro. Esto prueba que el medio acuático no tiene fronteras físicas: lo que está en el río llega al mar, y lo que está en el mar se dispersa por la circulación costera, alcanzando áreas que ningún mapa de prohibición había previsto. El problema es que el Río Doce no es una fotografía; es una película en constante movimiento. Científicos de la UNESP, UFPR y UFC ya han demostrado que, en muestreos más amplios, metales como el cadmio, el cromo y el plomo siguen apareciendo por encima de lo permitido en el tejido muscular de peces locales, que además presentan anomalías, lesiones y tumores, incluso años después del desastre. La liberación ignora la estacionalidad: una fuerte lluvia en la cabecera del río o un temporal marino puede revolucionar el lecho y liberar décadas de contaminantes en cuestión de días.

Aqui entra o agravante que ninguém pode ignorar, o cenário climático. Com um El Niño extremamente forte e o aquecimento global elevando a temperatura das águas, a química do estuário muda. Águas mais quentes aceleram a dessorção de metais que estavam inertes na lama, fazendo-os passar para a forma solúvel. Pior: o calor estimula bactérias anaeróbicas que transformam o mercúrio inorgânico em metilmercúrio, a forma mais tóxica e facilmente absorvida pelos peixes. Em um ambiente já estressado pela hipóxia, os peixes respiram mais rápido e, consequentemente, filtram mais contaminantes. A liberação da pesca, diante desse cenário de "tempestade perfeita", é como acender um fósforo em um paiol.

Aquí entra el agravante que nadie puede ignorar, el escenario climático. Con un El Niño extremadamente fuerte y el calentamiento global elevando la temperatura de las aguas, la química del estuario cambia. Las aguas más cálidas aceleran la desorción de metales que estaban inertes en el lodo, haciendo que pasen a la forma soluble. Peor aún: el calor estimula bacterias anaeróbicas que transforman el mercurio inorgánico en metilmercurio, la forma más tóxica y fácilmente absorbida por los peces. En un ambiente ya estresado por la hipoxia, los peces respiran más rápido y, en consecuencia, filtran más contaminantes. La liberación de la pesca, ante este escenario de "tormenta perfecta", es como encender una cerilla en un polvorín.

Para as comunidades pesqueiras, o dilema é cruel. De um lado, a fome e a insegurança alimentar de quem depende do peixe como base proteica diária; do outro, a exposição crônica a metais que causam desde distúrbios neurológicos até insuficiência renal e câncer. A portaria prevê mecanismos de fechamento emergencial e monitoramento contínuo, mas a realidade das águas é volátil. Um pescador que sai pela manhã com a permissão oficial no bolso pode voltar à tarde com um lote de peixes altamente contaminados, sem que ninguém o avise a tempo. A confiança no sistema de alerta é a única barreira entre a subsistência e a intoxicação.

Para las comunidades pesqueras, el dilema es cruel. Por un lado, el hambre y la inseguridad alimentaria de quienes dependen del pescado como base proteica diaria; por otro, la exposición crónica a metales que causan desde trastornos neurológicos hasta insuficiencia renal y cáncer. La portaria prevé mecanismos de cierre de emergencia y monitorización continua, pero la realidad de las aguas es volátil. Un pescador que sale por la mañana con el permiso oficial en el bolsillo puede volver por la tarde con un lote de peces altamente contaminados, sin que nadie le avise a tiempo. La confianza en el sistema de alerta es la única barrera entre la subsistencia y la intoxicación.

Exemplos internacionais mostram que o controle da pesca em ambientes contaminados é muito mais complicado do que uma canetada ministerial. No Canadá, o desastre da mina Mount Polley em 2014 liberou 25 bilhões de litros de rejeitos no lago Quesnel, berçário crítico do salmão-vermelho. O Departamento de Pesca e Oceanos baniu imediatamente a pesca de salmão nos rios Cariboo e Quesnel. Anos depois, as populações de salmão ainda enfrentavam incertezas, e as Primeiras Nações locais relataram que muitos pescadores simplesmente abandonaram a atividade por medo da contaminação, mesmo quando a proibição formal foi flexibilizada. A fronteira entre o "seguro" e o "arriscado" não é geográfica; é biológica, e os peixes migram, cruzam jurisdições e levam consigo a carga tóxica que acumularam. Onze anos se passaram desde o rompimento, completados em novembro de 2026. Diante disso, será que liberar a atividade pesqueira na região costeira próxima à foz do Rio Doce não é, ainda, um ato temerário?

Ejemplos internacionales muestran que el control de la pesca en ambientes contaminados es mucho más complicado que un simple decreto ministerial. En Canadá, el desastre de la mina Mount Polley en 2014 liberó 25 billones de litros de residuos en el lago Quesnel, criadero crítico del salmón rojo. El Departamento de Pesca y Océanos prohibió inmediatamente la pesca de salmón en los ríos Cariboo y Quesnel. Años después, las poblaciones de salmón seguían enfrentándose a incertidumbres, y las Primeras Naciones locales relataron que muchos pescadores simplemente abandonaron la actividad por miedo a la contaminación, incluso cuando la prohibición formal se flexibilizó. La frontera entre lo "seguro" y lo "arriesgado" no es geográfica; es biológica, y los peces migran, cruzan jurisdicciones y llevan consigo la carga tóxica que han acumulado. Once años han pasado desde la rotura, cumplidos en noviembre de 2026. Ante esto, ¿liberar la actividad pesquera en la región costera próxima a la desembocadura del Río Doce no es, todavía, un acto temerario?

As espécies mais vulneráveis são justamente as que mais dependem do fundo do mar e as que estão no topo da cadeia alimentar. Bagres, cascudos e camarões, que vivem em contato direto com o sedimento, acumulam metais de forma mais intensa. Já os predadores como o dourado e o cação sofrem com a biomagnificação: a cada nível trófico, a concentração de mercúrio e cádmio aumenta. A recomendação da Anvisa de limitar o consumo a 200 gramas por dia para adultos e 50 gramas para crianças e gestantes é um teto de segurança, mas quem fiscaliza a dieta de uma família ribeirinha que depende do peixe para sobreviver?

Las especies más vulnerables son precisamente las que más dependen del fondo del mar y las que están en la cima de la cadena alimentaria. Bagres, cascudos y camarones, que viven en contacto directo con el sedimento, acumulan metales de forma más intensa. Ya los depredadores como el dorado y el cazón sufren la biomagnificación: a cada nivel trófico, la concentración de mercurio y cadmio aumenta. La recomendación de la Anvisa de limitar el consumo a 200 gramos al día para adultos y 50 gramos para niños y embarazadas es un techo de seguridad, pero ¿quién fiscaliza la dieta de una familia ribereña que depende del pescado para sobrevivir?

O monitoramento contínuo do PMQQS e o Plano de Ação Integrado são ferramentas valiosas, mas precisam ser mais do que burocracia. A ciência já provou que os efeitos ecotoxicológicos persistem por anos, afetando desde o zooplâncton até os grandes mamíferos marinhos. A liberação da pesca não pode ser um ponto final, mas uma vírgula em uma frase que ainda está longe de terminar. O Rio Doce não esqueceu. A lama está lá, assentada no fundo, esperando a próxima cheia.

El monitoreo continuo del PMQQS y el Plan de Acción Integrado son herramientas valiosas, pero deben ser más que burocracia. La ciencia ya ha probado que los efectos ecotoxicológicos persisten durante años, afectando desde el zooplancton hasta los grandes mamíferos marinos. La liberación de la pesca no puede ser un punto final, sino una coma en una frase que aún está lejos de terminar. El Río Doce no ha olvidado. El lodo está ahí, asentado en el fondo, esperando la próxima crecida.

Cautela e vigilância não são palavras vazias quando se trata de vidas. A pesca liberada é, sim, um avanço social inegável para quem vive da renda do mar — mas seria uma inconsequência ambiental imperdoável se não caminhasse lado a lado com cientistas independentes e uma comunicação honesta com a população. Que o peixe no prato não seja apenas um símbolo de superação, mas de segurança real. Que a alma do Rio Doce, tão ferida, possa um dia fluir livre de metais e de mentiras. E que a liberdade vigiada de hoje não se transforme no arrependimento silencioso de amanhã.

Cautela y vigilancia no son palabras vacías cuando se trata de vidas. La pesca liberada es, sí, un avance social innegable para quienes viven de la renta del mar — pero sería una inconsecuencia ambiental imperdonable si no caminara de la mano de científicos independientes y una comunicación honesta con la población. Que el pescado en el plato no sea solo un símbolo de superación, sino de seguridad real. Que el alma del Río Doce, tan herida, pueda algún día fluir libre de metales y de mentiras. Y que la libertad vigilada de hoy no se convierta en el arrepentimiento silencioso de mañana.

 

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**¿Pesca liberada en la desembocadura del Río Doce: avance o inconsecuencia?**

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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