Correntes falsas de WhatsApp provocam linchamentos e mortes na Índia

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Empresa estuda marcar graficamente mensagens que foram apenas reencaminhadas

Há cerca de um ano, uma mensagem anônima chegou a centenas de grupos de WhatsApp no estado indiano de Jharkhand, na região leste do país, com a seguinte informação: “Suspeitos de sequestrar crianças estão [na região] usando sedativos, injeções, sprays, algodão e pequenas toalhas. Eles falam hindi, bengalês e malaiala. Se você vir algum estranho perto de sua casa, informe imediatamente a polícia local. Pode ser um membro dessa gangue de sequestradores”.

A existência de tal grupo jamais se comprovou. “Nenhum caso de sequestro infantil foi reportado por aqui nos últimos tempos”, disse um porta-voz da polícia local ao jornal The New York Times na época. Mas a mensagem disparada e compartilhada por celular à enésima potência levou à morte de nada menos do que sete pessoas na Índia. Todas elas foram linchadas em plena rua por cidadãos descontrolados e incapazes de distinguir entre fatos e rumores.

Nos últimos dias, o horror voltou. Um vídeo com conteúdo semelhante – também sobre sequestro infantil – ganhou força no WhatsApp no sul da Índia, na cidade de Bangalore. Na gravação, feita em preto e branco, com baixa qualidade, por uma câmera de segurança, dois homens montados numa moto se aproximam de quatro crianças pequenas que brincam numa rua residencial tranquila e, em questão de segundos, sequestram uma delas (frame abaixo).

Lupa_India1 (Foto: Reprodução)

Kalu Ram Bachanram, de 26 anos, nascido no Rajastão, no norte do país, vivia em Bangalore e pareceu suspeito aos olhos da multidão. Foi linchado por mais de 14 pessoas – entre elas quatro mulheres e dois menores de idade – que chutaram seu corpo sem parar por vários minutos. Morreu a caminho do hospital.

Luoa_India2 (Foto: Reprodução)

Levantamento feito pelo jornal The Washington Post mostra que, neste ano, pelo menos nove pessoas morreram de forma violenta na Índia em decorrência de notícias falsas. O dado alarmou tanto o mundo que, no último sábado (30), a BBC resolveu fazer uma reportagem extensa sobre o assunto. Durante a produção, encontrou a íntegra da gravação que levou ao linchamento de Kalu Ram e a colocou no ar.

Tratava-se, na verdade, de uma propaganda feita no Paquistão – e não na Índia – em favor da proteção das crianças de Karachi. No vídeo completo, o telespectador vê que os “sequestradores” da moto devolvem o menino a seu grupo de amigos poucos segundos depois de levá-lo e, em seguida, abrem um cartaz de protesto na direção da câmera de segurança que os filmava. No texto, lia-se a frase: “Bastam alguns segundos para sequestrar uma criança em Karachi”.

Lupa_India2 (Foto: Reprodução)

Cientes da dificuldade que enfrentam para conter esse tipo de ataque mortal e descontrolado e do silêncio ensurdecedor do WhatsApp em relação a esses eventos violentos, a polícia indiana decidiu adotar táticas pouco usuais para fazer frente às fake news.

Instalou alto-falantes em veículos oficiais e os colocou para circular pelas cidades, divulgando um alerta sonoro bem claro sobre o perigo das notícias falsas. Também deslocou policiais para fazer aparições públicas em eventos sócio-culturais e dizer que as pessoas precisam pensar duas vezes, checar dados e consultar as autoridades antes de fazer justiça com as próprias mãos. É a polícia apostando em news literacy – educação digital – num país em que quase 20% da população é analfabeta e 200 milhões usam diariamente o WhatsApp.

No fim de junho, o sistema de mensagens por celular – que foi comprado pelo Facebook em 2014 – mandou um porta-voz ao Global Fact V, o maior evento de fact-checking do planeta. Em Roma, o americano Carl Woog, que traz no currículo uma passagem pela comunicação do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, foi questionado sobre as mortes na Índia e usou alguns números para se defender.

Na reunião anual da International Fact-checking Network (IFCN), disse que 90% das mensagens de WhatsApp são trocadas entre duas pessoas e que, em média, os grupos têm seis integrantes – o que representaria, em sua opinião, baixo potencial ofensivo. Depois destacou que se trata de uma plataforma criptografada, criada para conectar amigos e famílias, mas reconheceu que a empresa também tem pela frente o desafio de lidar com a desinformação.

Adiantou que o WhatsApp trabalha com a possibilidade de criar uma marcação gráfica para mostrar que uma mensagem não foi necessariamente criada pela pessoa que acaba de encaminhá-la. Para ele, isso poderia fazer com que os usuários do sistema refletissem antes de compartilhar um dado novamente. E mais: ressaltou que sua empresa aposta fortemente nas denúncias dos próprios usuários para pôr fim a spams vindos de números desconhecidos.

Na última sexta-feira (29/6) procurei Woog para saber se o WhatsApp havia avançado nesses pontos e como se preparava para enfrentar a eleição brasileira. Por e-mail, ele confirmou o que já havia dito: “Estamos trabalhando para deixar claro quando uma pessoa recebe uma informação que foi apenas repassada por outra”. Não disse quando isso poderá começar a valer.

Com relação ao período eleitoral, até segunda ordem, o caminho é o da denúncia: “Encorajamos os usuários a reportar [conteúdo não desejado, vindo de números desconhecidos] para que possamos tomar medidas”. Bloquear contas, avisa Woog, está na lista. Mas, por enquanto, a empresa segue sem um escritório próprio no Brasil. Exatamente como ocorre do outro lado do mundo: lá na Índia.

Fonte: Revista Epoca

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