Hezbollah lucra na Tríplice Fronteira

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Rota segura para o crime transnacional, a divisa entre Brasil, Argentina e Paraguai abriga grupos terroristas que lavam dinheiro e vendem armas para facções, cartéis e paramilitares

Crédito: Divulgação

CRIMES PCC metralhou o traficante Jorge Rafaat, em 2016, após aumento de taxas. Radicais islâmicos criaram operações de fachada para limpar lucros com drogas e cigarros (Crédito: Divulgação)

André Vargas

Na região da Tríplice Fronteira, que reúne Brasil, Paraguai e Argentina, operações financeiras de fachada em um ambiente de suborno institucionalizado permitiram a criação de uma rede internacional criminosa. Para autoridades americanas, argentinas, paraguaias e israelenses, o poder dos produtores de drogas e das facções criminosas não seria tão grande sem a presença de filiados a grupos radicais islâmicos, que lavam dinheiro e mantêm rotas clandestinas para EUA, Europa, China e Oriente Médio. Apesar dos alertas desde os ataques de 11 de Setembro de 2001, para o governo brasileiro o problema ainda não é prioritário.

A existência dos grupos sunitas Estado Islâmico, AlQaeda e Hamas é certa, mas o principal seria o Hezbollah, movimento xiita que controla o sul do Líbano e atua nas guerras civis da Síria e do Iêmen. Com mais de 10 mil soldados, são considerados terroristas pelos EUA. “Há 15 anos eles movimentavam US$ 300 milhões anuais. Hoje atingem US$ 1 bilhão”, disse Gadi Hirsch, analista do governo israelense. Hirsch participou de um debate sobre lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo na Tríplice Fronteira. O encontro reuniu diplomatas, promotores e procuradores de justiça do Cone Sul em Buenos Aires, onde o grupo terrorista matou 115 pessoas, em atentados contra a embaixada israelense e a associação judaica Amia, em 1992 e 1994, respectivamente.

Jurada de morte

A presença constante do Hezbollah na América do Sul foi comprovada em 2005, quando interceptações telefônicas da polícia colombiana captaram conversas em árabe entre suspeitos de ligações com cartéis. Mais de 120 horas de gravações foram traduzidas pela DEA, a agência antidrogas americana. Assim, foi descoberto que o grupo limpava lucros escusos em troca de comissões de até 15%. A sofisticação e as conexões com as comunidades libanesas no continente tornam difícil prender os responsáveis sem ações internacionais conjuntas. “É um sindicato global do crime que fez da Tríplice Fronteira um centro de distribuição”, afirmou Emanuele Ottolenghi, da Fundação para Defesa da Democracia (FDD), entidade dos EUA que estuda segurança e política internacionais.

A aproximação com líderes do Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho e Terceiro Comando foi inevitável, conforme denunciou a analista de risco americana Vanessa Neumann, no livro “Lucros de sangue”. Em busca de poder, as facções passaram a lutar por espaço na região. Em 2016, o PCC assassinou com uma arma antiaérea o traficante paraguaio de origem libanesa Jorge Rafaat, conhecido como o Rei da Fronteira. No ano seguinte, participou do assalto que levou US$ 12 milhões de uma transportadora em Ciudad del Este. No final de 2018, o Comando Vermelho ameaçou a procuradora-geral paraguaia, Sandra Quiñonez, em vídeo: “Pode abandonar seu cargo que a gente vai atrás de você”.

“É um sindicato global do crime que fez da fronteira um centro de distribuição” Emanuele Ottolenghi, da Fundação para Defesa da Democracia

Além das drogas e armas, há o lucrativo contrabando de cigarros. As marcas paraguaias dominam 54% do mercado brasileiro. Em 2018, a evasão fiscal estimada (R$ 11,5 bilhões) superou a arrecadação da indústria (R$ 11,4 bilhões), apontou uma pesquisa do Ibope. Boa parte da produção é da Tabesa, controlada por Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio considerado para lá de suspeito. Por aqui, o negócio bilionário caiu nas mãos de facções e milícias. Tanto que em algumas favelas e periferias do Rio, a venda de cigarros legais é proibida. “As suspeitas todas fazem sentido. Só que o governo brasileiro, mesmo com Bolsonaro, acha que há muita especulação”, diz Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria. A postura oficial seria justificada pela ausência de ataques terroristas, porém é míope, já que essa dinheirama ilegal abastece criminosos que promovem assassinatos diários no Brasil e nos países vizinhos.

Narcos em versão argentina

Até o início da década, os argentinos supunham que para viver em um lugar dominado pelo tráfico de drogas seria preciso mudar para o Brasil ou Colômbia. Hoje, essa é a rotina em Rosário, a terceira maior cidade do país, com um milhão de habitantes.

Terra de Lionel Messi e Che Guevara, ali os sobrenomes mais temidos e respeitados são Cantero e Bassi, as famílias rivais que comandam o crime com o poder de fogo próximo ao das facções Comando Vermelho, ADA e PCC. Considerada a gangue local mais violenta, Los Monos teve 19 integrantes importantes condenados em 2018. Nem por isso eles perderam a força. Assim como os líderes de facções brasileiras antes do isolamento em presídios federais, seu chefe Ariel “Guille” Cantero teria ordenado da prisão a execução de treze juízes e promotores de justiça.

Desde 2013 ocorreram 1.300 assassinatos e 2.400 pessoas foram feridas por disparos de armas de fogo em Rosário. A média de homicídios na cidade em 2018 foi de 20 mortos para cada grupo de 100 mil habitantes, considerada elevada pelas Nações Unidas. Já a taxa anual argentina é baixa, com 6 casos por 100 mil. No Brasil a situação é pior, com taxa de 30 mortes violentas por 100 mil. As autoridades argentinas não sabem como lidar com o problema de modo efetivo, mas são unânimes em afirmar que reduzir a entrada de drogas e armas pelo Paraguai e sufocar os lavadores internacionais de dinheiro seria decisivo.

Fonte: IstoÉ

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