Rapaz teria avisado que Natália estava no lago, mas todos riram dele

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Foi o que disse a advogada que representa a família da universitária encontrada morta no Paranoá, sobre depoimento de namorada do suspeito

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Matheus Garzon

Após ter acesso ao inquérito sobre a morte da universitária Natália Ribeiro dos Santos Costa, 19 anos, ocorrida em 31 de março, a advogada da família, Juliana Zappalá Porcaro Bisol, convocou nesta terça-feira (9/4) entrevista coletiva para destacar alguns pontos da investigação. Segundo ela, o depoimento da namorada do rapaz suspeito de ter envolvimento com a vítima apresentou inconsistências no caso.

“Ela disse que o garoto estava com a fala enrolada e repetia o tempo inteiro que a menina estava no lago, mas todos ficaram rindo dele”, apontou. Para a advogada, não faz sentido ele ter avisado sobre o afogamento e todos ignorarem o fato.

Juliana leu alguns trechos do inquérito, como a parte em que a namorada do rapaz disse à polícia que se ausentou da festa com uma amiga para buscar mais bebida. Nesse momento, os fatos no lago teriam acontecido. “Ela disse que, quando voltou, ele já estava deitado em um parquinho.”

A advogada ainda abordou outros depoimentos colhidos pela Polícia Civil (PCDF). “Uma testemunha diz que Natália estava bêbada e outro, que não. Mas aí entra a questão do que é estar bêbado, pois seria normal estar num churrasco e beber”, alegou. Em outro ponto, uma das amigas da universitária afirmou que a vítima não sabia nadar. “Ela disse isso, mas não tem consistência. Já separamos vídeos para provar que Natália sabia.”

Críticas
Juliana também reclamou da investigação. Há problemas de organização no inquérito, segundo ela, que disse não entender o motivo de falhas como falta de numeração, assinaturas e de termos de depoimento. Ela reclamou, ainda, da demora em se avançar nas hipóteses da causa da morte. “Por enquanto, só se sabe que foi afogamento. Só que ela estava com corte no lábio, nariz quebrado, olho roxo e arranhão no rosto. Acho muito difícil ter sido algo natural”, pondera.

A advogada disse que vai entrar com uma reclamação na Corregedoria pelo o que considerou ser “descaso” no processo. Ainda questionou os rumos da investigação. “Pediram para ir à casa da Natália hoje e não vejo motivo. Enquanto olham isso, não se sabe nem se o rapaz está no DF”, concluiu.

Metrópoles procurou a defesa do rapaz, mas ele afirmou que falará sobre o assunto em entrevista coletiva nesta quarta (10).

Inquérito
Por volta das 17h desta segunda-feira (8/4), a advogada foi à 5ª Delegacia de Polícia (área central) para ter acesso ao inquérito. Na ocasião, entregou o que chamou de “celular principal” de Natália. O aparelho pode conter informações importantes, como se a menina realmente conhecia o rapaz. “Entreguei o iPhone que era o de principal uso. Mas ele é bloqueado por senha, nem eu nem a família conseguimos acessar”, contou ao Metrópoles. Segundo ela, a Polícia Federal irá se encarregar do desbloqueio.

De acordo com Juliana, o inquérito tem o depoimento da maioria das pessoas que estavam no churrasco. No entanto, não foram liberadas as imagens que mostram Natália e o suspeito juntos. “Tanto o laudo do corpo de Natália como o da mordida que ela deu, e também o dos vídeos, não saíram”, afirmou. O material ainda está no Instituto Médico Legal (IML). “Devem sair só entre sete e 10 dias.”

A conversa com o delegado foi bastante inconclusiva, segundo Juliana. “Sabemos que foi afogamento porque água entrou no pulmão, mas há outras coisas que precisam ser esclarecidas. Só que o delegado diz que ainda não há elementos para avançar em algo”, explicou a advogada.

Veja fotos de Natália:

Horas antes de submergir no Lago Paranoá e desaparecer, a universitária enviou um áudio para o celular da mãe, Edivânia Ribeiro, e disse que iria encontrá-la tão logo deixasse a festa: “Eu estou aqui, no clube; mas, saindo daqui, eu passo aí”.

Na avaliação da família, a mensagem indica que Natália não estava embriagada, ao contrário do que apontam uma das linhas da investigação e a defesa do suspeito. O corpo dela foi encontrado boiando no Lago Paranoá no dia 1º de abril.

No áudio, de duração de oito segundos, ela se mostra preocupada com a mãe: “Mãe, que foi? A senhora está passando mal?”.

Ouça o áudio:

“Ela não bebeu. Sabia nadar e, inclusive, mergulhava fazendo uso de equipamentos próprios. Além do fato de a água no local ser rasa e o ponto mais fundo atingir o pescoço dela”, disse a advogada contratada por parentes de Natália, Juliana Zappalá Porcaro Bisol.

De acordo com a advogada, a universitária tinha dois aparelhos celulares: “A família descobriu esse segundo celular agora. O primeiro já está sendo periciado e vamos encaminhar o outro para a perícia”.

Para Juliana, há indícios de luta corporal: “Pelo estado do corpo, acredito que não tenha sido um simples afogamento. Marca de socos nos olhos, lábio superior cortado, arranhões no sentido vertical, da bochecha para baixo, e nariz quebrado”.

Feminicídio
A família e os amigos insistem que a jovem foi assassinada pelo rapaz de 19 anos filmado dentro do lago com ela, momentos antes de a modelo submergir e desaparecer. “Ele assassinou a minha filha. Tenho certeza disso. Tramou essa ida para o lago, pois lá iria ficar indefesa”, disse Edivânia Ribeiro nessa sexta-feira (5/4).

A família e a advogada contaram que Natália falou para parentes e colegas que estava namorando um rapaz da Asa Norte. Porém, dias antes de desaparecer, afirmou que a relação havia terminado.

“Ela me disse que ia na casa da mãe dele e que era uma pessoa muito boa. Na semana do caso, voltei a falar com ela e me disse que havia terminado”, reforçou Edivânia. “Creio que ela terminou e ele a matou por vingança. Foi premeditado, planejado”, completou.

Ele não tem para onde correr. Temos provas de que ele a conhecia. Ela me disse que estava namorando um rapaz alto que morava na Asa Norte e estudava para entrar na polícia, mas pouco tempo depois acabou o relacionamento, dias antes do crime

Edivânia Ribeiro, mãe de Natália

Para a advogada, a informação desmente, mais uma vez, a versão do jovem investigado. Ele informou em depoimento à polícia que não conhecia Natália e a viu pela primeira vez na festa no Clube Almirante Alexandrino naquele domingo (31/3).

O suspeito já havia mudado o primeiro depoimento, quando imagens de câmeras de segurança da Marinha mostraram que os dois entraram juntos no lago, mergulharam algumas vezes e, ao final, ele emergiu e saiu da água, deixando a jovem submersa no local.

Em seu primeiro depoimento, o rapaz disse que tinha ficado em terra, apenas observando a universitária. O conteúdo das imagens foi divulgado em primeira mão pelo Metrópoles.

“A família só me pediu uma coisa: justiça. E isso significa descobrir o que realmente ocorreu com a Natália. São muitas contradições, comportamentos fora do normal. Está tudo muito estranho. Como ela foi embora deixando as chaves, celular e a bolsa no clube? Os relatos são muito esquisitos”, pontuou a advogada. “É fato que eles tinham esse relacionamento. Outras pessoas nos confirmaram”, acrescentou.

Outra versão
As informações levantadas pela defesa contratada pela família de Natália são rebatidas pelo defensor público André Praxedes, que acompanha o caso a pedido de parentes do rapaz de 19 anos em questão, a última pessoa a ser vista por testemunhas no Lago Paranoá com a modelo. “Foi com a namorada para o churrasco e, em determinado momento, saiu para tomar uma ducha sozinho. E encontrou com a Natália”, ressaltou.

Praxedes contou ainda que, logo após deixar Natália no Lago Paranoá, o suspeito voltou para a festa e informou o que estava ocorrendo. “Falou com as pessoas do grupo dele que a menina tinha ficado lá”, assinalou. Mas Praxedes não soube explicar por que o rapaz não voltou para buscá-la. “Talvez, pela inexperiência. Eram meninos jovens que podem não ter percebido a gravidade da situação na hora, por conta da embriaguez”, disse.

Apenas no dia seguinte, conta André Praxedes, o rapaz foi atrás de notícias da garota. “Ele voltou ao clube na segunda [1º/4] pela manhã para buscar informações da menina. Lá, ficou sabendo que a polícia estava atrás dele”, disse.

O defensor chegou a afirmar que o suspeito supostamente haveria se desesperado ao ver que a universitária teria desaparecido, mas diz que foi mal interpretado. “O sentido de desespero é o de que ele ficou sem saber o que fazer. Chegou a sair do lago e tentou procurar a Natália”, garantiu.

Cautela
Investigadores da 5ª Delegacia de Polícia (área central) analisam outras imagens de câmeras de segurança que podem ajudar a esclarecer a morte de Natália Ribeiro dos Santos Costa.

Os policiais tiveram acesso a mais um vídeo. Segundo o Metrópoles apurou, ele indica que o rapaz que estava com a vítima também teria se afogado, mas conseguiu sair do espelho-d’água.

Em um determinado momento, é possível ver que os dois ficam submersos. Logo depois, o suspeito, também de 19 anos, morador da Asa Norte, volta para a margem, observa e vai embora. As gravações foram feitas entre as 18h e 18h30 daquele domingo (31/3). Todas mostram os dois dentro do lago. Ele disse não ter entrado no espelho-d’água, mas foi desmentido pelas imagens. Os investigadores têm convicção de que ambos estavam completamente embriagados.

A Polícia Civil trata o caso com cautela e não afirma oficialmente se já é possível apontar algum crime. O Metrópoles, no entanto, apurou que a possibilidade de ter ocorrido um feminicídio é praticamente descartada pelos investigadores. Eles esperam concluir o caso após receberem o laudo preliminar cadavérico que vai apontar as causas da morte e se houve algum tipo de agressão ou violação à vítima.

De acordo com a defesa do rapaz, as inconsistências nos dois depoimentos prestados por ele são porque, no primeiro, na 6ª DP (Paranoá), ele estava sob “muita pressão”. O jovem foi levado ao IML na quarta-feira (3/4) para exame da arcada dentária. “Isso porque ele não consegue afirmar categoricamente que foi ela quem o mordeu”, justificou Praxedes.

Fonte: Metropoles

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