Caso Leandro Bossi: entenda técnica que permitiu identificação de ossada 30 anos após desaparecimento

Um laudo que pôs fim a uma dúvida que pairou por 30 anos. No dia 10 de junho, o governo do Paraná anunciou que identificou uma ossada correspondente ao material genético do menino Leandro Bossi, desaparecido aos 7 anos de idade, em 1992, na cidade de Guaratuba, litoral do estado.

A identificação foi possível graças a um teste de DNA mitocondrial realizado pela Polícia Federal. O responsável pelo laudo é o perito Carlos Eduardo Martinez de Medeiros, que atua na sede da corporação, em Brasília.

Ao g1, ele explica o funcionamento desse tipo de teste e conta que a técnica é usada, principalmente, com ossadas antigas, degradadas ou que ficaram expostas a condições ambientais ruins.

DNA tradicional x mitocondrial

 

DNA tradicional identifica uma pessoa, enquanto o mitocondrial aponta a linhagem materna — Foto: Getty Images via BBC

Segundo o especialista, uma célula tem várias cópias de mitocôndrias e apenas um núcleo, usado para identificação em testes de DNA tradicionais. Pela maior quantidade, é mais provável que haja recuperação do material, mesmo anos após a morte ou diante de situações adversas.

Diferente do teste de DNA realizado a partir do núcleo da célula, o mitocondrial não resulta na identificação de um indivíduo específico. “Não é um identificador diretamente. Me indica uma linhagem materna, diz que aquele material é idêntico a de outras mulheres”, explica Martinez.

O perito explica que as mitocôndrias são heranças passadas de mãe para filhos. Quando transmitido de avó, para mãe e para filho, o material permanece igual. Por isso, não é possível identificar uma pessoa, apenas sua árvore genealógica feminina, a partir da comparação com outros materiais.

No caso de Leandro Bossi, a PF recebeu um pedido para que a análise da ossada fosse feita levando em consideração os materiais genético de três mães que tinham filhos desaparecidos. O resultado foi compatível apenas com o da mãe de Leandro, Paulina Bossi.

Usos da técnica

 

Martinez conta que, além de ser usada com ossadas antigas e degradadas, a técnica é aconselhada para casos em que é preciso alcançar parentes além do núcleo familiar mais próximo.

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“Em um acidente de avião, por exemplo, onde morrem pai, mãe e irmãos, é possível fazer [o teste de DNA mitocondrial] para identificar uma tia, que tem a mesma linhagem materna daquelas pessoas”, explica o perito federal.

 

Ele explica que a técnica não é novidade e não é exclusiva da Polícia Federal. “Só que é [uma técnica] mais trabalhosa, tem uma análise estatística um pouco mais complexa, então não são todos os laboratórios forenses que fazem”, afirma.

Apesar de não exigir equipamentos diferentes do teste de DNA feito por meio da análise do núcleo, o perito precisa dominar as técnicas da identificação com o uso das mitocôndrias. “É preciso expertise e entender as limitações, já que não é, de cara, um identificador”, completa Martinez.

Caso Leandro Bossi

 

Confira a linha do tempo dos acontecimentos que envolvem o desaparecimento de Leandro Bossi:

  • 1992

 

Leandro Bossi tinha sete anos quando desapareceu em Guaratuba, no litoral do Paraná, em 15 de fevereiro de 1992. O menino foi visto pela última vez no show do cantor Moraes Moreira, em uma praia da cidade.

A mãe de Leandro trabalhava em um hotel da cidade, o pai era pescador. Ambos estavam trabalhando no momento do desaparecimento e quando notaram o sumiço da criança, acionaram a polícia local. À época, Leandro Bossi entrou na lista do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (SICRIDE).

Evandro Ramos Caetano, na época com seis anos, desapareceu no trajeto entre a casa e a escola, em Guaratuba — Foto: Reprodução/RPC

Dois meses depois do desaparecimento de Leandro, o menino Evandro Ramos Caetano, de seis anos, desapareceu em Guaratuba. Os dois meninos e os desaparecimentos tinham características semelhantes.

No dia 11 de abril, um corpo foi encontrado em um matagal. O pai de Evandro, Ademir Caetano, afirmou à época no Instituto Médico-Legal (IML) de Paranaguá ter reconhecido o filho, por meio de uma pequena marca de nascença nas costas.

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  • 1993

 

Em fevereiro de 1993, crianças encontram uma ossada no mesmo matagal onde o corpo de Evandro Ramos Caetano havia sido encontrado. Entre a ossada estavam roupas que foram reconhecidas como sendo de Leandro Bossi. O material foi encaminhado para um exame de DNA.

Um mês depois, os exames de DNA feitos em laboratório privado de Minas Gerais, com a tecnologia que era disponível até então, e afirmam que a ossada encontrada não era de Leandro Bossi, mas sim de uma menina.

  • 1996

 

Encontrado em Manaus, menino é reconhecido como Leandro Bossi e convive por um tempo com a família. Exame de DNA dá resultado negativo e criança volta com a mãe biológica. — Foto: Reprodução/RPC

Em 1996, em Manaus, uma criança chegou a ser identificada como Leandro e conviveu com a família Bossi por duas semanas. No entanto, um exame de DNA provou que o menino era, na verdade, Diogo Moreira Alves. Ele foi devolvido à mãe biológica.

Por anos, não houve qualquer nova informação para a família Bossi, e Leandro era considerado pela autoridades policiais uma criança desaparecida.

  • 2021

 

No ano passado, oito fragmentos de ossada foram enviados para comparação com o material genético de oito mães de crianças desaparecidas, entre elas Paulina Bossi, mãe de Leandro.

A decisão de refazer os testes atendeu a diretrizes de um programa do Governo Federal que tem como objetivo formar um banco de dados capaz de auxiliar na identificação de pessoas desaparecidas em todo o país.

  • Junho de 2022

 

Após o exame de DNA mitocondrial realizado pela Polícia Federal, o governo do Estado do Paraná pode afirmar que a ossada analisada corresponde ao material genético do menino. Com as conclusões do novo exame, o nome de Leandro Bossi foi retirado da lista de crianças desaparecidas no estado.
Fonte: G1
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