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‘Round 6’: a crise que assola a Coreia do Sul e inspira série da Netflix

  • Sarah A. Son
  • The Conversation*

Cena de 'Round 6'

Crédito, Netflix

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Seong Gi‑Hun e Cho Sang-Woo, dois dos protagonistas da série

Round 6 é tudo menos uma típica série de televisão água com açúcar coreana.

Numa referência mordaz à vida na Coreia do Sul hoje, os espectadores são apresentados a uma história de violência, traição e desespero.

Tudo isso se desenrola em torno de uma série de jogos macabros nos quais os jogadores literalmente lutam até a morte.

Apesar do conteúdo ultraviolento, Round 6 cativou o público no mundo todo, se tornando a série mais vista da Netflix em pelo menos 90 países.

O drama leva os espectadores a uma jornada de suspense ao longo de nove episódios, em que um grupo de pessoas atoladas em dívidas e infortúnios pessoais participam de uma série de seis jogos de sobrevivência, inspirados em jogos tradicionais infantis sul-coreanos.

Os perdedores morrerão mediante um processo implacável de eliminação, e o único vencedor levará 46,5 bilhões de wons sul-coreanos (cerca de R$ 214 milhões).

Os primeiros episódios revelam as circunstâncias que levaram os personagens centrais a colocar tudo a perder.

O espectador é apresentado a uma série de vidas muito diferentes, mas cada uma está atolada em dívidas e na miséria.

Um homem que fica desempregado e depois se endivida com empreendimentos comerciais fracassados ​​e jogos de azar se junta a um gestor de fundos mal-sucedido.

Um idoso que está morrendo de câncer joga ao lado de uma desertora norte-coreana.

Um trabalhador migrante paquistanês e um gângster, junto com centenas de outros indivíduos igualmente infelizes que caíram em desgraça com o capitalismo sul-coreano, apostam todas suas fichas.

Crédito, Netflix

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As histórias destes 456 jogadores estão repletas de dívidas e miséria

Round 6 se soma a outras produções cinematográficas sul-coreanas recentes, em particular ao filme vencedor do Oscar de 2020, Parasita, ao oferecer uma crítica contundente à desigualdade socioeconômica que assola a vida de muitos cidadãos no país.

Mais especificamente, fala do aprofundamento da crise de endividamento das famílias que atinge as classes média e baixa.

Dívida e desigualdade

O endividamento das famílias na Coreia do Sul aumentou acentuadamente nos últimos anos, chegando a superar 100% de seu Produto Interno Bruto (PIB) — o maior da Ásia.

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Os 20% mais ricos do país têm um patrimônio líquido 166 vezes maior que os 20% mais pobres, uma disparidade que aumentou em 50% desde 2017.

Tem havido um aumento da dívida em relação à renda e uma recente alta nas taxas de juros.

Isso deixou em uma posição ainda mais precária aqueles que não têm recursos para lidar com imprevistos, como uma demissão repentina ou um caso de doença na família.

O Índice de Gini, que mede a distribuição da riqueza nacional, coloca a Coreia do Sul quase no mesmo patamar do Reino Unido — e em uma posição melhor do que os EUA.

No entanto, o crescente desemprego entre os jovens, o aumento dos preços dos imóveis e a pandemia global reverteram a modesta redução da desigualdade observada nos últimos anos sob o governo progressista de Moon Jae-in.

E não são apenas as famílias que estão se endividando para pagar os custos de moradia e educação — uma despesa essencial para a classe média que espera garantir o acesso dos filhos à universidade.

Em agosto, o governo sul-coreano anunciou novas medidas de restrição a empréstimos com o objetivo de reduzir a dívida entre os jovens.

Os millennials e aqueles que estão na faixa dos 30 anos são os que mais devem em relação à sua renda.

Mas as tentativas de restringir os empréstimos levaram algumas pessoas a recorrer a credores com custos e riscos mais elevados.

Crédito, Netflix

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Na série, Seong Gi-Hun é um viciado em jogos de azar que não consegue sequer comprar um presente de aniversário para a filha

Essa escolha deixa muitos à mercê dos cobradores de dívidas, se por uma pequena mudança de circunstâncias não conseguirem honrar os pagamentos.

Embora poucos possam se ver nas mãos de gângsteres que ameaçam tirar seus órgãos para vender, como mostrado em Round 6, o fardo de uma dívida avassaladora é um problema social que se aprofunda — sem mencionar a principal causa de suicídio na Coreia do Sul.

Jogadores, ganhadores e perdedores

A inclusão em Round 6 de outros personagens que representam minorias desfavorecidas da Coreia do Sul destaca as consequências da desigualdade socioeconômica para esses grupos também.

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A exploração cruel por parte do empregador de uma fábrica de um trabalhador migrante que se vê obrigado a entrar no jogo é representativa das barreiras à mobilidade ascendente para aqueles do sul e sudeste da Ásia.

Os desertores norte-coreanos também aparecem como indivíduos que devem lutar em várias frentes para alcançar tanto a estabilidade financeira, quanto a inclusão social.

A série zomba do cristianismo, expressando repetidamente a crescente mudança de opinião pública sobre o rápido desenvolvimento da Coreia do Sul durante as décadas de 1970 e 1980 e sua conexão com o crescimento da igreja na época.

A suposta ética de trabalho protestante foi a pedra angular do “milagre” econômico da era autoritária da Coreia do Sul, em que três décadas de planos econômicos ambiciosos transformaram o país em uma economia de alta renda.

Ao longo deste período, o sucesso mundial foi visto como um sinal de bênção e as megaigrejas estavam no auge.

No entanto, a corrupção era abundante entre os políticos e famílias chaebol (enormes grupos empresariais dominados por famílias) que serviam como presbíteros da igreja enquanto desviavam fundos e construíam seus impérios privados.

Como era de se esperar, a desilusão com alguns membros da elite política e da igreja levou muitas pessoas em um país cada vez mais laico a contestar a veracidade da alegação do cristianismo de servir aos pobres e oprimidos na Coreia do Sul.

É claro que esta não é uma história exclusiva da Coreia do Sul.

Pessoas de diferentes sociedades no mundo todo podem se identificar com os personagens de Round 6, seus problemas e sua humanidade.

Economias semelhantes à Coreia do Sul estão enfrentando vários dos mesmos desafios, exacerbados pela pandemia em curso.

Crédito, Netflix

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‘Round 6’ é a série mais vista da Netflix em pelo menos 90 países

Round 6 lembra brutalmente aos vencedores de cada fase, e à audiência global da série, que aqueles que são bem-sucedidos geralmente têm êxito às custas daqueles que fracassaram por fraqueza, discriminação, uma má decisão ou simplesmente falta de sorte.

O último episódio sugere a possibilidade de uma segunda temporada, mas mesmo que não continue, Round 6 deixa claro que a história maior que a série representa está longe de terminar.

* Sarah A. Son é professora de Estudos Coreanos na Universidade de Sheffield, no Reino Unido.

Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).

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CPI da Covid aprova relatório que pede indiciamento de Bolsonaro e outros 79; o que acontece agora

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  • Mariana Schreiber – @marischreiber
  • Da BBC News Brasil em Brasília

Sessão da CPI nesta terça, com a votação de relatório final

Crédito, Reuters

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Sessão da CPI nesta terça, com a votação de relatório que pede indiciamento de presidente e outras 77 pessoas e 2 empresas

O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, apresentado na semana passada pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), foi aprovado por 7 votos a 4 em sessão nesta terça-feira (26/10).

O texto, votado pelos membros titulares da comissão, recomenda que o presidente Jair Bolsonaro seja investigado e, eventualmente, responsabilizado em três frentes devido à gestão do seu governo na pandemia de coronavírus: por crimes comuns, por crimes de responsabilidade e por crimes contra a humanidade.

Com o resultado, essas acusações contra o presidente serão analisadas em três órgãos.

Além do presidente, o relatório pede o indiciamento de 77 pessoas – incluindo ex-ministros, ministros, políticos, servidores públicos, empresários, membros do chamado “gabinete paralelo” – e duas empresas, a Precisa Medicamentos e a VTCLog.

Entre os que tiveram o pedido de indiciamento mencionado no relatório estão o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, o atual titular da Pasta Marcelo Queiroga, Ernesto Araújo (ex-chanceler), Walter Braga Netto, ministro da Defesa, Onyx Lorenzoni (ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência), Mayra Pinheiro (secretária do Ministério da Saúde conhecida como “capitã cloroquina”), Roberto Dias (ex-diretor de Logística do ministério), Francisco Maximiano (sócio da Precisa), Flavio, Eduardo e Carlos Bolsonaro (filhos do presidente e respectivamente senador, deputado e vereador), Bia Kicis e Carla Zambelli (deputadas governistas), os empresários Carlos Wizard, Luciano Hang e Otávio Fakhoury e os médicos Nise Yamaguchi, Paolo Zanotto e Rodrigo Esper, entre outros (veja o relatório completo da CPI aqui; o nome do senador Luis Carlos Heinze, do PP gaúcho, foi retirado na reta final das discussões).

Os pedidos de indiciamento serão encaminhados a outros órgãos.

No caso de Bolsonaro, as suspeitas de crime comum serão encaminhadas à Procuradoria-Geral da República (PGR), que avaliará uma possível denúncia criminal contra Bolsonaro. Já as de crime de responsabilidade vão para análise da Câmara dos Deputados, para possível abertura de processo de impeachment.

Por fim, as acusações de crimes contra a humanidade serão enviadas ao Tribunal Penal Internacional (TPI), onde o presidente poderia sofrer um processo.

No entanto, juristas ouvidos pela BBC News Brasil consideram que os três caminhos oferecem obstáculos hoje para que o presidente de fato venha a ser punido por possíveis crimes durante a pandemia de coronavírus, doença que já matou mais de 606 mil pessoas no Brasil desde março de 2020.

Durante viagem ao Ceará, enquanto Calheiros lia seu relatório na CPI, na semana passada, Bolsonaro negou qualquer responsabilidade nas mortes.

Crédito, Agência Senado

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Relatório de Renan Calheiros ainda precisa ser aprovado por maioria da CPI; votação ocorre na próxima semana

“Como seria bom se aquela CPI tivesse fazendo algo de produtivo para nosso Brasil. Tomaram tempo de nosso ministro da Saúde, de servidores, de pessoas humildes e de empresários”, criticou o presidente.

“Nada produziram, a não ser o ódio e o rancor entre alguns de nós. Mas sabemos que não temos culpa de absolutamente nada, fizemos a coisa certa desde o primeiro momento”, disse ainda.

Entenda a seguir o que pode acontecer concretamente contra o presidente nos três tipos de crimes que Bolsonaro é citado no texto de Calheiros.

1) Acusações de crimes de responsabilidade

Calheiros ressalta em seu relatório que, entre os crimes de responsabilidade previstos na legislação brasileira, está o ato de atentar contra o exercício dos direitos sociais e contra a probidade na administração.

Além disso, ele destaca que o direito à saúde é previsto como um dos direitos sociais no artigo 6º da Constituição, enquanto o artigo 196 estabelece que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Na avaliação de Calheiros, porém, a investigação da CPI mostrou que a gestão de Bolsonaro agiu em sentido contrário: ao invés de proteger a vida dos brasileiros da covid-19, o presidente teria contribuído para o agravamento da pandemia ao demorar a comprar vacinas, incentivar o uso de medicamentos sem comprovação científica, promover aglomerações, entre outros comportamentos.

“A minimização constante da gravidade da covid-19, a criação de mecanismos ineficazes de controle e tratamento da doença, com ênfase em protocolo de tratamento precoce sem o aval das autoridades sanitárias, o déficit de coordenação política, a falta de campanhas educativas sobre a importância de medidas não farmacológicas, o comportamento pessoal contra essas medidas, e, por fim, a omissão e o atraso na aquisição de vacinas e a contratação de cobertura populacional baixa do consórcio da OMS foram algumas das condutas do chefe do Poder Executivo Federal que incontestavelmente atentaram contra a saúde pública e a probidade administrativa”, diz trecho do relatório.

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Apesar das duras acusações do relator, porém, hoje parece pouco provável que elas gerem abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro. O único que pode iniciar esse procedimento é o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que atualmente mantém boa relação com presidente.

E, a partir dessa aliança com Lira, o Palácio do Planalto construiu uma base de apoio entre os deputados do chamado Centrão (siglas de centro-direita de comportamento mais fisiológico), sustentada pela distribuição de cargos para indicados desses parlamentares e pelo envio de verbas federais para investimentos em seus redutos eleitorais. Com isso, hoje o presidente parece reunir o mínimo de 172 votos na Câmara necessários para barrar a aprovação de um processo de impeachment.

Crédito, Reuters

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CPI investigou atos e omissões do governo Bolsonaro durante a pandemia

Outro elemento que reduz as chances desse processo ser iniciado é o fato de os protestos de rua realizados ao longo desse ano pedindo a cassação do presidente não terem reunidos um público tão grande quantos os atos que pressionaram pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.

Já as pesquisas de opinião têm indicado que o governo Bolsonaro é reprovado pela maioria da população, mas ainda é bem avaliado por cerca de um terço dos brasileiros — patamar de aprovação superior ao que Dilma tinha quando foi cassada.

2) Acusações de crimes comuns

Para Calheiros, as condutas de Bolsonaro também podem ser enquadradas em sete crimes comuns, previstos no Código Penal.

São eles: epidemia com resultado de morte (por suspeita de propagar o vírus); infração de medida sanitária preventiva (por realizar aglomerações e não usar máscara); charlatanismo (devido ao incentivo de uso de medicamentos sem eficácia), incitação ao crime (por incentivar aglomeração e o não uso de máscara); falsificação de documento particular (por ter apresentado uma falsificação como sendo um documento oficial do Tribunal de Contas da União que provaria haver um excesso na contabilização de mortes por covid-19); emprego irregular de verbas públicas (por uso de recursos públicos na compra de medicamentos ineficazes); e prevaricação (por supostamente não ter mandado investigar denúncias de corrupção na compra de vacinas).

Caso o relatório seja aprovado, os elementos que baseiam essas acusações serão encaminhadas à PGR, pois o procurador-geral da República, Augusto Aras, é a única autoridade que pode apresentar uma denúncia criminal contra o presidente no Supremo Tribunal Federal (STF).

Aras é visto como aliado de Bolsonaro e hoje parece improvável que o denuncie, já que a PGR tem arquivado diversas queixas-crimes que já foram apresentadas solicitando a investigação criminal de Bolsonaro por sua conduta na pandemia.

A PGR, por exemplo, já arquivou pedido de investigação devido ao não uso de máscara por entender que isso configura infração administrativa, sujeita a multa, e não um crime.

O órgão também recusou pedido de investigação por causa das aglomerações provocadas pelo presidente. Segundo a PGR, Bolsonaro só poderia ser processado por disseminar coronavírus se estivesse contaminado com a doença e contrariasse ordem médica para se isolar.

Crédito, Reuters

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Protesto em Brasília contra as mais de 600 mil mortes por covid

Por outra lado, a PGR já abriu inquérito para investigar se Bolsonaro prevaricou ao não tomar providências após ser informado pelo deputado Luiz Miranda (DEM-DF) de supostas ilegalidades no contrato para compra da vacina indiana Covaxin. A investigação está em andamento.

Quanto a suspeitas de crimes pelo incentivo de Bolsonaro ao chamado “tratamento precoce” (uso de medicamentos sem eficácia contra covid-19), Aras informou ao STF em junho que havia iniciado uma apuração preliminar para avaliar a abertura de investigação. Críticos de Aras, porém, o acusam de usar esse tipo de procedimento para responder a pressões para investigar Bolsonaro sem de fato adotar medidas concretas contra o presidente.

Para o criminalista Pierpaolo Bottini, professor da Universidade de São Paulo (USP), é difícil cravar que Aras não dará qualquer encaminhamento as acusações do relatório da CPI.

“Não é só uma avaliação política, tem uma avaliação jurídica que ele terá que fazer. Ele vai ter que motivar (justificar juridicamente) seja qual for a decisão dele. Se tiver muito subsídio (sustentando as acusações), também é difícil ele deixar de dar qualquer encaminhamento”, acredita.

Segundo Bottini, há um outro caminho jurídico para Bolsonaro ser denunciado no STF. Em caso de omissão da PGR, ou seja, se o órgão demorar para dar alguma resposta ao relatório da CPI, as próprias vítimas da pandemia poderiam processar o presidente por meio de uma ação penal privada subsidiária da pública.

A Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico) disse à BBC News Brasil que de fato analisa essa possibilidade. A organização apresentou em junho à PGR um pedido de investigação contra Bolsonaro, mas a análise desse pedido tem transcorrido em sigilo e a própria Avico enfrenta dificuldades para obter informações sobre seu andamento.

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Eventual apresentação de uma ação contra Bolsonaro pelas vítimas da pandemia seria algo inédito. Segundo Bottini, provavelmente o STF faria uma primeira avaliação de admissibilidade (decidir se a ação está dentro dos requisitos jurídicos necessários) e depois encaminharia a denúncia para análise da Câmara dos Deputados.

O professor ressalta que a Constituição só permite que o Presidente da República seja processado após aval de 342 deputados (mesmo número necessário para abertura de um processo de impeachment).

3) Acusações de crimes contra a humanidade

Calheiros também defende em seu relatório que Bolsonaro seja investigado no Tribunal Penal Internacional (TPI), Corte sediada em Haia, na Holanda, que julga graves violações de direitos humanos, como genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

No entanto, são poucas as denúncias recebidas pelo Tribunal que de fato geram investigações – e, quando isso ocorre, os casos se alongam por muitos anos, explicou à BBC News Brasil o juiz criminal e professor da USP Marcos Zilli, estudioso do funcionamento do Tribunal Penal Internacional.

Em tese, diz ele, o TPI pode condenar criminosos a penas de 30 anos de prisão e até a prisão perpétua, mas essas punições máximas nunca foram aplicadas pela Corte.

A intenção inicial de Calheiros era acusar o presidente de crime de genocídio contra populações indígenas, mas essa ideia foi abandonada devido à oposição de outros membros da CPI. Com isso, a proposta do relator é enviar ao TPI duas acusações de crimes contra a humanidade por parte do presidente.

Esses crimes estão previstos no Tratado de Roma, incorporado ao direito brasileiro desde setembro de 2002.

Crédito, EPA

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Senador Flavio Bolsonaro e seus irmãos Carlos e Eduardo estão entre os políticos com pedido de indiciamento pela CPI

Uma das acusações propostas por Calheiros sustenta que Bolsonaro cometeu crime contra a humanidade a praticar “ato desumano que afete gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental”. Isso teria ocorrido, segundo o senador, quando vidas humanas foram usadas como “cobaias” em estudos fraudulentos para aplicação de tratamentos sem eficácia contra covid-19.

Ele cita, por exemplo, a promoção do “tratamento precoce” pelo Ministério da Saúde durante a crise de falta de oxigênio em Manaus, no início de 2021. Outro argumento usado pelo senador foi o uso em massa de hidroxicloroquina pelo plano de saúde Prevent Senior. Resultados de um suposta pesquisa da empresa atestando a eficácia do remédio contra covid foram divulgados por Bolsonaro – no entanto, o estudo não havia sido autorizado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e ex-médicos da Prevent Senior acusaram o plano de fraudar os resultados.

A outra acusação é de crime contra a humanidade devido à postura do governo Bolsonaro em relação aos povos indígenas. O relatório destaca a decisão do STF de determinar em julho de 2020 a adoção de um plano emergencial pelo governo de apoio a essas populações durante a pandemia “diante das muitas falhas na política de enfrentamento à pandemia junto aos povos indígenas e da preocupação com a rápida interiorização da doença, que prenunciavam um desastre”.

Ainda segundo o parecer de Calheiros, “esta CPI identifica o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro como o responsável máximo por atos e omissões intencionais que submeteram os indígenas a condições de vida, tais como a privação do acesso a alimentos ou medicamentos, com vista a causar a destruição dessa parte da população, que configuram atos de extermínio, além de privação intencional e grave de direitos fundamentais em violação do direito internacional, por motivos relacionados com a identidade do grupo ou da coletividade em causa, que configura atos de perseguição”.

Crédito, Agência Senado

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O relatório final da CPI da covid foi lido no Senado nesta quarta-feira

Segundo o professor Marcos Zilli, essas acusações, caso sejam realmente apresentadas pela CPI ao TPI, passarão por um longo processo de análise e não necessariamente vão gerar investigações internacionais contra o presidente brasileiro.

Todas as representações criminais feitas ao TPI são analisadas pela Procuradoria da Corte, órgão responsável por realizar investigações de forma independente. Um filtro inicial da procuradoria descarta casos em que os crimes denunciados claramente não são de competência do Tribunal.

Se a representação passar dessa etapa, ela é submetida a um exame preliminar, em que a Procuradoria avalia a presença dos elementos necessários à instauração de uma investigação formal. Nesse momento, é analisado, por exemplo, a gravidade dos crimes apontados na representação e se há omissão da Justiça nacional em apurar esses delitos.

“A experiência que nós temos no Tribunal Penal Internacional revelam que os casos demandam muitos anos de investigação, caso uma investigação seja instaurada, e muitos anos de processo também, caso o processo seja aberto”, explica Zilli.

Na sua avaliação, a acusação envolvendo populações indígenas é a que teria mais potencial de prosperar no TPI, devido ao contexto mais amplo de ações da gestão Bolsonaro relacionadas a esses povos, como a redução da proteção aos seus territórios e falas recorrentes do presidente defendendo a exploração econômica das terras indígenas.

O TPI, inclusive, já recebeu algumas acusações contra Bolsonaro, envolvendo tanto os povos indígenas como a conduta na pandemia. Por enquanto, apenas uma relacionada aos indígenas, apresentada em 2019, avançou para a etapa de análise preliminar pela procuradoria.

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