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‘Vai ser encontrado morto em cela’: As ameaças a preso que divulgou vídeos de supostas torturas em cadeias russas

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  • Olga Prosvirova
  • BBC News Russia

Sergey Savelyev
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Sergey Savelyev está buscando asilo na França depois que ele vazou vídeos de suposta tortura em prisões russas

À primeira vista, Sergey Savelyev não parece alguém que passou oito anos em uma prisão russa e secretamente reuniu vídeos de torturas e espancamentos de presidiários.

De estatura mediana, o bielorrusso de 31 anos diz que agora pode dormir um pouco melhor, pela primeira vez em semanas. Ele pediu asilo na França, tendo fugido da Rússia temendo por sua segurança.

Ele agora admite livremente que foi o denunciante que entregou mais de mil vídeos ao grupo russo de direitos humanos Gulagu.net.

Os vídeos, que Savelyev obteve enquanto trabalhava em uma prisão durante sua pena, causaram protestos na Rússia quando circularam nas redes sociais no início deste mês.

Desde então, as autoridades russas disseram que abriram investigações criminais sobre supostas torturas e agressões sexuais nas prisões e demitiram vários funcionários penitenciários do alto escalão.

O Gulagu.net disse que os vídeos não apenas documentavam espancamentos, estupros e humilhações de presidiários, mas também provavam a natureza endêmica dos abusos no sistema prisional.

A BBC entrou em contato com o serviço penitenciário da Rússia, mas não obteve resposta até a conclusão desta reportagem.

Legenda da foto,

Savelyev diz que foi condenado por um crime relacionado com drogas em 2013

Escolha entre a vida e a morte

Savelyev começou a compartilhar os vídeos com ativistas de direitos humanos após sua libertação em fevereiro deste ano. Ao longo de vários meses, ele divulgou centenas de arquivos.

No mês passado, foi parado no aeroporto de São Petersburgo enquanto viajava para Novosibirsk. No balcão do check-in, homens em roupas civis começaram a questioná-lo.

Eles disseram que sabiam tudo sobre sua correspondência com Vladimir Osechkin, chefe do Gulagu.net.

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“Me disseram que estavam me observando há seis meses”, disse Savelyev. “Eles ameaçaram me prender por traição por 20 anos.”

Savelyev disse que os homens o avisaram que ele “morreria muito rapidamente” na prisão. “Primeiro, você vai confessar tudo, e então você será encontrado morto em uma cela”, eles lhe teriam dito.

A alternativa, segundo Savelyev, era que ele cooperasse com a investigação e admitisse que havia sido encarregado de reunir provas “desacreditando o serviço penitenciário russo” pelo Gulagu.net “financiado por estrangeiros”.

Nesse caso, ele seria libertado após quatro anos de prisão.

“A verdadeira escolha era entre a vida e a morte. E escolhi a vida”, disse Savelyev.

O bielorrusso disse que assinou alguns papéis concordando em cooperar com as autoridades e foi liberado.

“Eles provavelmente pensaram que eu não ousaria fugir”, disse ele. Mas Savelyev escapou.

Ele pegou um micro-ônibus da Rússia para Belarus e depois viajou pela Tunísia para a França. Uma vez na zona de trânsito do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, ele procurou a ajuda da polícia.

Legenda da foto,

Savelyev foi enviado para uma prisão na cidade russa de Saratov, famosa por acusações de abuso de prisioneiros

‘Eles só precisam quebrar você’

Em 2013, Savelyev foi condenado por um delito relacionado com drogas e sentenciado a nove anos de prisão. Ele evita dar detalhes, mas diz que seu caso foi “triste e comum”. Savelyev foi enviado para uma prisão na cidade russa de Saratov, famosa por acusações de abuso de prisioneiros.

Ele alega que foi severamente espancado assim que chegou. “Eles só precisam quebrar você, para mostrar quem manda”, disse ele.

Mais tarde, teve a sorte de ser identificado como alguém que sabia usar computadores e foi levado ao escritório da prisão para trabalhar em uma função administrativa.

“Foi muito melhor do que ficar matando tempo entre as refeições, tentando me manter de cabeça baixa”, disse.

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Uma de suas tarefas era examinar gravações de vídeo das câmeras corporais dos guardas prisionais. Ele logo percebeu que, embora muitas das gravações fossem benignas e simplesmente documentassem as rondas dos guardas, algumas pareciam mostrar abusos violentos de presidiários e eram profundamente perturbadoras.

Crédito, Gulagu.net/YouTube

Legenda da foto,

Mais de mil vídeos vazaram no site Gulagu.net

‘Você não pode imaginar como é’

Savelyev alega que a tortura geralmente era praticada por outros presos “especialmente treinados” e filmada por câmeras distribuídas pelos guardas. Parte de seu trabalho era deletar alguns dos vídeos, enquanto alguns, alega, “eram enviados para outro lugar, talvez para níveis mais altos”.

Ele diz que nunca viu esse tipo de abuso violento pessoalmente, mas os vídeos o chocaram profundamente.

“Todos nós sabemos que há espancamentos e estupros lá dentro, mas você não pode imaginar como é até ver com seus próprios olhos”, disse ele.

Savelyev levou algum tempo para processar o que estava acontecendo e descobrir como reagir.

“Vi um vídeo, depois outro, depois um terceiro e um quarto, um quinto. Então decidi que iria começar a copiá-los.”

Inicialmente, ele não tinha uma ideia clara do que fazer com os vídeos, mas sabia que precisava salvá-los. Em 2019, decidiu reunir os registros e depois entregá-los a uma organização de direitos humanos.

Crédito, Gulagu.net/YouTube

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Um vídeo parece mostrar um homem nu sendo segurado por um guarda

Enquanto trabalhava no escritório da prisão, Savelyev também alega ter visto as inúmeras queixas que surgiram sobre os maus-tratos a prisioneiros, o que, segundo ele, o fez perceber como o abuso era generalizado.

No início de 2021, Savelyev tomou conhecimento do Gulagu.net e ouviu o ativista Vladimir Osechkin falar em seu canal no YouTube sobre violência em presídios, inclusive no que ele estava.

Isso fez com que ele percebesse que haveria outras pessoas, possivelmente presidiários, vazando informações para a ONG. Ele sabia que a prova em vídeo também serviria a um propósito.

Refletindo sobre o furor gerado por seus vazamentos e a investigação do serviço penitenciário russo, Savelyev disse que não era suficiente demitir alguns guardas ou transferi-los para outras prisões.

Ele queria que as autoridades “explicassem por que fizeram o que fizeram”.

“Só então me sentiria melhor”, conclui.

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Ômicron: brasileiros no Marrocos relatam medo e incerteza diante de fronteiras fechadas após variante

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Por

  • Priscila Carvalho
  • Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil

Mariana e Felipe fazem selfie em frente a prédio típico no Marrocos

Crédito, Arquivo pessoal

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Mariana e Felipe pensaram em voltar para o deserto para tentar sair do Marrocos

Diversos países como o Brasil decidiram suspender voos e tomar medidas rigorosas em relação a viagens e pessoas vindas do sul da África, onde foram registrados os primeiros casos de infecção pela variante ômicron.

No próprio continente africano, há países que também decidiram adotar medidas drásticas, como o Marrocos, que anunciou no dia 29 de novembro o fechamento de fronteiras para barrar a nova variante.

Com isso, muitos turistas enfrentam dificuldades em voltar para casa e seguem “presos” no local. Os brasileiros estão entre eles: de acordo com a embaixada brasileira no Marrocos, ao menos 32 pessoas solicitaram apoio consular para deixar o país africano.

O casal brasileiro Mariana Neubra, 34, e Felipe Santiago, 35, está enfrentando essa situação no momento. O que era para ser uma estadia de apenas cinco dias, agora, não há previsão para acabar.

Eles estavam no deserto, quase na divisa com a Argélia, quando ouviram as primeiras notícias sobre a descoberta da nova cepa.

“A gente não acreditava que o fechamento das fronteiras por causa da pandemia fosse voltar com força. Meu maior receio é que isso cresça muito, não tenha mais nenhum tipo de voo e fiquemos presos como alguns brasileiros ficaram na Tailândia lá no início. Tenho fé que não chegue nesse ponto”, diz Felipe à BBC.

Por estarem mais próximos da Europa do que do sul da África, eles pensaram que não teriam nenhum problema em retornar para Portugal, onde moram há quase quatro anos. Os brasileiros trabalham com produção de conteúdo pelas redes sociais, e na semana passada chegaram a tranquilizar seus seguidores por meio de um vídeo dizendo que estavam seguros e que dificilmente o Marrocos sofreria com ações mais severas.

Os dois, inclusive, já pretendiam estender a viagem e ficar mais dias na região.

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“Não pensei em alterar meus planos e seguimos dormindo e turistando no deserto”, diz Mariana.

Porém, quando chegaram em Marrakech, viram que o cenário era muito pior do que imaginavam.

Crédito, Arquivo pessoal

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Casal estava no deserto quando vieram as primeiras notícias da variante ômicron

Voos cancelados e preços muito altos

Desde o anúncio do fechamento de todas as fronteiras por parte do governo marroquino, sair do país tornou-se impossível. Mariana e o marido tentaram comprar dois voos em uma companhia low cost (conhecida por ser de baixo custo), mas todos foram cancelados.

A primeira tentativa era embarcar no dia 2 de dezembro, mas poucas horas depois a empresa aérea cancelou a compra. Já a segunda oportunidade, prevista para o dia 9 do mesmo mês, também foi recusada.

Por conta disso, eles até cogitaram atravessar a fronteira e chegar na divisa com a Espanha por meio de um ferry boat. No entanto, todas as saídas do país seguem bloqueadas. No desespero, o casal também pensou em voltar para o deserto e pegar um voo na Argélia de volta a Lisboa.

Por causa da alta demanda, muitas companhias aéreas estão elevando os preços das passagens, chegando a valores exorbitantes. O cancelamento de voos também está ocorrendo de maneira frequente.

“Íamos pagar 10 euros no voo de volta e agora está em torno de 500, sendo que somente uma única companhia aérea está fazendo o trajeto e com direção à França. Não temos esse valor. É muito dinheiro e ainda temos que pagar pelo (teste) PCR”, ressalta Mariana.

Eles temem ainda que o valor continue aumentando, sem possibilitar a compra.

“Estamos monitorando os valores. A Mariana é influenciadora de viagens e entende de compras de passagens. Espero achar uma em conta”, diz Felipe.

A produtora de conteúdo ressalta que permanecer no Marrocos só aumenta a ansiedade, já que não é uma certeza que o país seguirá com as fronteiras fechadas por apenas duas semanas.

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“Temos um imóvel alugado, então, é muita coisa em jogo. A cada minuto a gente pensa algo diferente. Já pensei em alugar algo para morar aqui, já fiquei nervosa. É tudo muito louco”, conta.

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto,

Os brasileiros pretendiam ficar no Marrocos por apenas cinco dias

Ela e o marido seguem hospedados em um hotel com outros viajantes e tentam, na medida do possível, seguir com uma rotina normal.

“Quem mora aqui está tranquilo. Não vejo nenhum tipo de apreensão e poucas pessoas usam máscara. Fomos em um restaurante ontem e pediram um comprovante de vacinação, mas foi só nesse. Nós seguimos trabalhando e saindo quando dá.”

Ajuda da embaixada

Como residem em Lisboa, o casal recorreu à embaixada portuguesa para tentar sair do país. Segundo eles, o órgão consular está dando suporte e informou que disponibilizará um voo com destino a Portugal, mas ainda sem data definida.

A agência de turismo contratada pelos brasileiros também está auxiliando na estadia, mantendo-os em um hotel próximo ao centro de Marrakech.

O casal conta que se não tivesse nenhum tipo de auxílio de Portugal, também entraria em contato com a embaixada brasileira no Marrocos para um possível voo de repatriação.

“Pensamos até em voltar para o Brasil em um desses voos. Seria mais uma saída também”, afirma Mariana.

Procurada pela reportagem, o Itamaraty informou, por meio de nota, que está “acompanhando atentamente a situação dos brasileiros impossibilitados de viajar, prestando-lhes toda a assistência consular cabível.”

Já a embaixada do Brasil no Marrocos informou que em função da propagação rápida da nova variante ômicron, o órgão tem mantido contato por telefone, plantão consular e e-mail com turistas brasileiros retidos neste país.

“Nas últimas 48 horas, 32 nacionais solicitaram apoio consular para retorno ao Brasil”, informou a embaixada em comunicado.

O órgão informou ainda que algumas companhias, como Royal Air Maroc, Air France, Transavia, Iberia, TUI e Air Arabia, anunciaram a realização de voos especiais de retorno a diversos países, sobretudo da Europa. Os brasileiros que procuram a embaixada têm sido orientados a remarcar seus bilhetes ou comprar assentos para os voos especiais dessas companhias.

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