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Moradores temem que Cavalcante vire “cidade fantasma” com mudança na BR-010

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Em março, o Dnit anunciou que a rodovia, esperada por moradores da região há 60 anos, seria desviada para passar por Monte Alegre (GO)

MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL
Inserida no planejamento de governo do presidente Juscelino Kubitschek, na campanha dos “50 anos em 5”, a criação da BR-010, que liga o Distrito Federal ao Pará, representa mais do que desenvolvimento em infraestrutura. Para municípios localizados às margens da rodovia, a pista é sinônimo de entrada de turismo e novas fontes de renda.

Há quase 60 anos, os moradores de Cavalcante aguardavam pela instalação da estrada no local. A região, com um dos índices de desenvolvimento humano mais baixos do país (0,584, em número que vai de 0 a 1), é lar de populosas comunidades kalungas – descendentes de africanos escravizados fugidos e libertos de minas de ouro da região central do país.

A expectativa era de que a construção do trecho asfaltado trouxesse investimento para uma cidade que, agora, teme o abandono.

“Se o intuito do Estado fosse o desenvolvimento da região, o combinado seria cumprido. Estamos insatisfeitos com essa mudança, não fomos comunicados. Ao que parece, o objetivo é não beneficiar o quilombo, pois, se é para desenvolver uma região, precisariam procurar beneficiar o maior número de pessoas”, explica.

Dominga acredita que a BR-010 é “o primeiro eixo para o desenvolvimento” da cidade rasgada, majoritariamente, por estradas de terra. “Sem acessibilidade, é impossível o desenvolvimento. Beneficiaria as pessoas até com recursos, desenvolvimento de modo geral. Se não tem estrada, não tem como avançar nos outros critérios”.

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“Caveira”

“O povo kalunga está há mais de 300 anos vendo as pessoas vindo aqui tirar recursos e deixando apenas a ‘caveira’ do nosso território. Não há projeto de desenvolvimento para nosso povo, que é atrasado por faltas de políticas públicas. Somos humanos, fazemos parte da sociedade, mas parece que o projeto é nos excluir do restante”, desabafou.

“Sabemos da necessidade de todos os quilombos, das dificuldades das comunidades. Estamos falando de pessoas que vivem em pleno abandono. Sempre foi esquecido e vai continuar assim. Estamos sendo ignorados”.

A fala de Dominga encontra ressonância entre outros kalungas da região. João Moreira de Oliveira discorda da mudança promovida pelo Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit).

Oliveira afirma que os moradores de Cavalcante estão se mobilizando para tentar contornar a decisão do Dnit. “Nosso quilombo é resistência, vamos continuar resistindo. A gente não vai desistir. É uma perda muito grande, porque serão quase 20 mil pessoas que vão deixar de ser beneficiadas com a presença da rodovia”, defende.

Para o comerciante Jurani Francisco Maia, 54, o novo traçado representa uma derrota para os moradores do município, que viviam a expectativa da chegada na BR-010. “Imensurável, é uma expectativa que não é só grande, como antiga. Falamos de algo que está no papel desde a criação de Brasília. Seria a garantia de algo que nós queremos há muito tempo.”

Maia defende que o crescimento do turismo no município seria ainda maior se a cidade tivesse infraestrutura adequada para receber os visitantes. “Nosso município é muito rico, mas não temos estrutura. Estamos à margem, a nossa expectativa é de que melhorasse nossa qualidade de vida, seria uma abertura de portas, uma nova página.”

“O turismo cresce, mas a infraestrutura da cidade não acompanha. As pessoas chegam aqui e se surpreendem com a falta de estrutura da cidade. Tenho medo de que Cavalcante vire uma cidade fantasma”, finalizou, ecoando avaliações de vários moradores ouvidos pela reportagem.

O que diz o Dnit?

Em nota enviada à reportagem, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Trânsito (Dnit) justificou que a mudança no percurso é resultado de estudos realizados pela área técnica do órgão.

Além disso, a instalação da rodovia na primeira cidade implicaria em menor intervenção nas áreas de preservação permanente, “devido à quantidade menor de corpos hídricos identificados”. “Monte Alegre apresenta um relevo mais favorável, o que redundará em menores volumes de terraplenagem e melhores características técnicas em planta e perfil”, defendeu.

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“​Portanto, após os dados levantados e analisados, a recomendação técnica da melhor opção de traçado seria a Alternativa 1 [Monte Alegre], pois representaria um desempenho operacional satisfatório após a conclusão dos melhoramentos previstos. Diante dos resultados da análise econômica, a alternativa que se demonstrou mais viável, conforme premissas do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA), foi a Alternativa 1”, completou.

A reportagem procurou a Prefeitura de Cavalcante (GO) para comentar a mudança do traçado da rodovia e aguarda retorno. O espaço está aberto para manifestações.

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A ética da responsabilidade como atributo do estadista

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Salin Siddartha

Cabe aos governantes do Distrito Federal ser a voz da razão para afirmar Brasília como espaço de liberdade responsável pelo seu desenvolvimento econômico e social. O grau de racionalidade das políticas sociais deve ser adaptável às vocações das Regiões Administrativas do DF como um todo, bem como precisa estar sintonizado com certos aspectos irracionais do comportamento dos agentes políticos a fim de compensá-los com ajustes de previsão, percepção e resolução, já que nem tudo é sempre racional e a forma como as escolhas são estruturadas se torna importante para a tomada de decisões políticas.

Uma coisa é certa: a defasagem entre aquilo que os quadros políticos do governo sabem e aquilo que pensam que sabem é sempre perigosamente elevada. Dessa forma, aquilo que não se sabe é mais relevante do que aquilo que se sabe. Todavia o governante tem mais responsabilidade pelos resultados dos seus atos do que os outros cidadãos, pois a ética da responsabilidade é um atributo do estadista.

É claro que muitos problemas são imperceptíveis, principalmente quando os governantes se mantêm a distância das comunidades, sem observar in loco o que está acontecendo. Sendo assim, é de bom alvitre o contato permanente com a comunidade e o funcionamento deveras participativo da população no poder local.

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A tendência lenta, embora gradual, com que um problema começa a manifestar-se pode ser assaz imperceptível para que se possa prever o desastre que ele possa causar – como no caso da formação de ilhas de calor em nossas áreas urbanas e diversos problemas ambientais que, devagar, mas constantemente, foram espraiando-se pelo Distrito Federal e continuam a ameaçar, cada vez mais, nossa sustentabilidade ambiental. São normalidades deslizantes ocultas por trás de flutuações confusas que não só foram mas também vão deteriorando, aos poucos, a cidade, tornando difícil perceber um futuro que pode ser dramático para a sociedade brasiliense.

A incapacidade de resolver um problema, mesmo após ter sido previsto e percebido dá-se, em muitas ocasiões, pela atitude egoísta, em benefício próprio das oligarquias locais, mesmo que por intermédio de um comportamento nocivo à sociedade. É um sintoma imoral motivado pela perspectiva gananciosa de auferir maiores ganhos financeiros e patrimoniais à custa de perdas irreparáveis à Capital da República.

Note-se o mal que a especulação imobiliária fez em Águas Claras com relação à sustentabilidade do DF em questões como caos urbano, atravancamento do sistema de transporte, congestionamentos, falta de mobilidade e acessibilidade, prejuízos ao meio ambiente. A falta de comedimento leva a própria população a invadir áreas públicas sob o pretexto de que “o vizinho o fez, então eu também irei fazê-lo!”; o pior é que objetivos eleitoreiros conduzem maus políticos a regularizarem tais invasões, para prejuízo e destruição do bem comum das gerações futuras.

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É comum não se tentar resolver problemas já percebidos pelo simples fato de que a manutenção de tais problemas é boa para uma parte das elites poderosas desta cidade. É preciso que se abandonem valores arraigados na cultura e na história da população quando eles passam a ser incompatíveis com a sobrevivência coletiva. Os problemas que aqui apontamos devem servir de alerta também para outras cidades do País. São posturas assim que fazem com que certas sociedades sejam bem sucedidas e sobrevivam felizes pela história adentro, enquanto outras, por efetuarem escolhas erradas, fracassam e deixam de existir.

Fonte: http://temporarioegnews.com.br

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