BRASÍLIA

MUNDO

Multa por não usar biquíni: veja outros exemplos de sexismo relacionados às roupas das mulheres

O caso da seleção norueguesa de handebol de praia, que recentemente foi multada em 1.500 euros (cerca de R$ 9.200) depois que as mulheres usaram shorts em vez de biquínis durante um jogo no campeonato europeu (leia mais sobre o caso no fim da matéria), reacendeu a discussão sobre o sexismo na exigência de peças de vestimenta.

Enquanto as jogadoras são obrigadas a usar biquínis “com um ajuste justo e corte em um ângulo para cima em direção ao topo da perna”, seus colegas do time masculino jogam com folgadas camisetas e bermudas.

Mas não é só no esporte – mulheres também enfrentam regras baseadas em sexismo que determinam como devem se vestir em praticamente todos os ambientes que frequentam.

No trabalho

Nos mais diferentes ramos de atuação, o que veste, como corta e penteia o cabelo e o quanto usa (ou não) de maquiagem pode render mais assunto do que o desempenho em si quando a profissional é uma mulher.

No início deste mês, chamaram atenção fotos de mulheres do exército ucraniano, obrigadas a desfilar usando sapatos de salto alto em uma parada militar – uma espécie de scarpin.

Pernas de mulheres das Forças Armadas da Ucrânia que foram obrigadas a marchar de alto alto — Foto: Ukrainian Defence ministry press-service / AFP

O sapato faz parte das roupas oficiais das militares, mas originalmente é usado apenas para ocasiões formais, e não para marchar com o uniforme de batalha. Uma cadete afirmou que é mais difícil marchar com esse tipo de sapato do que em botas.

Após uma enxurrada de críticas, o Ministério da Defesa da Ucrânia desistiu da ideia de fazer as militares usarem os scarpin em desfiles.

Em 2019, foi revelado em um artigo da Business Insider que milhares de mulheres no Japão estavam sendo solicitadas a não usarem óculos em seus locais de trabalho – porque isso não seria esteticamente agradável e daria a elas uma impressão de “frieza”.

Outra queixa bastante comum no Japão, mas em diversos outros países, inclusive no Brasil, são as de locais de trabalho que obrigam suas funcionárias a usar maquiagem e saltos altos, algumas durante longos períodos por dia.

A medida chega até a afetar ricas e famosas: em 2015, por exemplo, mulheres foram proibidas de usar sapatos de salto baixo na estreia do filme “Carol”, no Festival de Cannes, independente de sua idade ou condição física. Para protestar contra a regra do festival, três anos depois do episódio, atrizes como Julia Roberts e Kristen Stewart tiraram seus sapatos de salto no tapete vermelho.

No ambiente escolar, desde muito jovens as crianças são expostas a códigos de vestimenta. Em geral determinadas pela direção de cada unidade, eles variam e costumam proibir shorts ou saias muito curtas para meninas, mas às vezes há exageros.

Nos Estados Unidos, por exemplo, é recorrente a proibição ao uso de calças tipo legging, e é comum que garotas sejam mandadas para casa por tentar assistir às aulas usando a peça. Foi o caso da jovem Kate Wilson, que tinha 16 anos quando isso aconteceu com ela, em 2018, e foi acusada pelo diretor de “estar deixando seu professor desconfortável” (veja abaixo uma foto do que ela vestia naquele dia).

Kate Wilson mostra a roupa que usava no dia em que foi mandada para casa pela direção de sua escola — Foto: Reprodução/Facebook/Kate Wilson

Em maio deste ano, uma escola na Flórida se tornou alvo de polêmica após retocar fotos de 80 alunas de seu anuário, para cobrir seus peitos e ombros digitalmente, com roupas sendo “aumentadas”, algumas com edições muito mal-feitas. Nenhuma foto de aluno do sexo masculino foi alterada – mesmo quando eles apareciam sem camisa ou apenas de sunga.

Leia Também:  USPS: Por que a privatização dos Correios nunca avançou nos EUA

Riley é uma das alunas cuja foto foi alterada em escola nos EUA — Foto: Arquivo Pessoal

No Brasil, escolas já se tornaram notícia por tentar impôr restrições às vestimentas não apenas de suas alunas, mas até mesmo por opinar sobre o que vestem suas mães.

Em 2017, em Santos (SP), um colégio particular gerou revolta ao enviar uma carta proibindo o uso de shorts e saias curtas, sob a justificativa de que havia “atitude abusiva, sobretudo por parte das meninas”, que têm provocado “situações indesejáveis”. A escola ainda dizia que “o uso desses itens é sintomático de uma realidade social mais ampla, que merece ser cuidadosamente analisada e criticada”.

Bem antes, em 2014, uma escola em Santa Inês (MA), se voltou aos pais e responsáveis: proibiu a entrada daqueles que estivessem usando short, minissaia ou mini-blusa, e chegou a barrar mães.

Já em 2016, o G1 ouviu meninas que se mobilizavam para questionar normas, debater preconceito, argumentos machistas e empoderamento das mulheres já na sala de aula. E mostravam, em fotos, qual seria o traje considerado mais apropriado por elas.

No esporte

Outros esportes também lidam com situações semelhantes à do handebol, em que as atletas femininas são obrigadas a vestir uniformes mais curtos e justos do que seus colegas masculinos – é só reparar nos shorts em jogos de vôlei e basquete, entre outros.

Na ginástica, onde as competidoras costumam usar maiôs que também deixam grande parte do corpo à mostra, a alemã Sarah Voss e mais duas colegas desafiaram convenções ao aparecerem com macacões de corpo inteiro no Campeonato Europeu, em abril, e novamente agora, nas Olimpíadas de Tóquio.

Ginastas da Alemanha durante os Jogos Olímpicos de Tóquio — Foto: Reuters/Mike Blake

A federação alemã disse que elas estavam se posicionando contra a “sexualização na ginástica”, acrescentando que a questão se tornou ainda mais importante para prevenir o abuso sexual.

A ginasta Elisabeth Seitz disse que, com o traje, tinha uma coisa a menos com se preocupar, porque não havia risco de mostrar sem querer alguma parte de seu corpo.

No tênis, em que homens podem usar shorts e até bermudas de corte amplo, as mulheres continuam vestindo saias extremamente curtas. E sendo repreendidas quando ousam desafiar a tradição. Em 2018, por exemplo, Serena Williams usou calças pretas coladas ao corpo durante uma partida no French Open, que lhe renderam comparações com uma personagem do filme “Pantera Negra”.

A tenista Serena Williams usou macacão no French Open de 2018 — Foto: Reprodução/Instagram/Serena Williams

A atleta explicou que buscava evitar coágulos, já que tinha tido problemas de saúde após o recente parto de sua filha. Ainda assim, a Federação Francesa de Tênis proibiu que ela voltasse a vestir o uniforme, dizendo que era preciso “respeitar o jogo e o local”.

Mas, em 1985, outra tenista, Anne White, usou um macacão de lycra branco para disputar um jogo na primeira etapa de Wimbledon. Segundo o site da revista Vox, foi dito que: “É atraente, mas você tem que ter a forma física de Anne White. Ela foi feita para usá-lo. E o resto do mundo não”.

Cortando para 2002, Serena Williams tentou pela primeira vez escapar da ditadura da minissaia e disputou um jogo no US Open com um macaquinho curto. A mesma Vox lembra dos adjetivos usados então pela imprensa: “agarrado”, “ultra-arriscado”, “curvilíneo” e deixando “pouco para a imaginação”, de acordo com o ensaio de Jaime Schultz de 2005 Reading the Catsuit, publicado no Journal of Sport & Social Issues.

Já o crítico de moda do jornal “Washington Post”, Robin Givhan, a descreveu como “uma garota trabalhadora de um tipo diferente”, e chamou a peça de roupa de “vulgar”.

Nos últimos anos, algumas atitudes têm sido tomadas para eliminar o sexismo no código de vestimenta exigido das mulheres. Uma ação relevante foi o fim da exigência do desfile em trajes de banho em alguns concursos de beleza.

Leia Também:  'Marco sombrio' de 500 mil mortes e 'protestos contra o presidente': a tragédia brasileira na imprensa internacional

Em 2018, a prova foi eliminada do Miss America, que também anunciou que passaria a aceitar candidatas com corpos de “todas as formas e tamanhos”. Segundo a presidente do conselho de diretores do concurso, Gretchen Carlson, o conselho chegou a ouvir de potenciais candidatas que elas não queriam “estar lá em saltos altos e maiôs”.

Ação semelhante já havia sido adotada dois anos antes, também nos Estados Unidos, pelo Miss Teen, que trocou os biquínis por trajes esportivos. Em 2016, o concurso, aberto para mulheres de 14 a 19 anos e administrado pela organização do Miss Universo, informou em seu site que “em uma sociedade que aumenta a prioridade do feminismo e da igualdade, ver mulheres desfilando em um palco de biquíni pode ser antiquado”.

Participantes do Miss América se apresentam com biquini, na edição de 2016 — Foto: Mel Evans/ AP

Ainda em 2014, um apresentador de TV na Austrália conduziu um experimento para provar que também em seu ambiente de trabalho as colegas mulheres eram vítimas do sexismo por sua forma de se vestir.

Karl Stefanovic usou o mesmo terno azul ininterruptamente durante um ano, e disse que ninguém sequer reparou. “Mas quando as mulheres usam a cor errada são duramente criticadas. Elas dizem uma coisa errada e há milhares de tuítes sobre o erro”, afirmou.

Em entrevista ao jornal “The Age”, na época, Stefanovic afirmou que sua colega na bancada, a jornalista Lisa Wilkinson, recebe regularmente mensagens de telespectadores e comentários na imprensa sobre as roupas que escolhe para usar em frente às câmeras.

“Sou julgado pelas minhas entrevistas, pelo meu senso de humor – ou seja, pela maneira como eu desempenho minhas funções, basicamente. Enquanto isso, as mulheres são normalmente julgadas pelo que estão vestindo ou por seu cabelo”, acrescentou.

Seleção norueguesa de handebol

O caso da seleção norueguesa feminina de handebol aconteceu durante a disputa pela medalha de bronze do campeonato europeu, na Bulgária, e a multa foi aplicada pela Federação Europeia de Handebol (EHF, na sigla em inglês), que disse em um comunicado que sua comissão disciplinar havia lidado com “um caso de vestimenta imprópria”.

De acordo com o comunicado, na partida que definiria o terceiro lugar, em 18 de julho, contra a Espanha, as norueguesas usaram shorts que “não estavam de acordo com os Regulamentos de Uniforme de Atletas definidos nas Regras de Jogo do Handebol de Praia da EHF”.

Equipe feminina de handebol de praia da Noruega, com os shorts que usaram no lugar de biquínis — Foto: Reprodução/Twitter

A multa, calculada em 150 euros por jogadora, foi criticada pela federação norueguesa, enquanto o ministro dos esportes do país, Abid Raja, disse que era “completamente ridícula” e que as atitudes precisavam mudar, segundo a agência Reuters.

A federação norueguesa disse no Twitter que estava orgulhosa das mulheres por se levantarem e dizer já era o suficiente.

“Nós, da NHF, apoiamos vocês. Juntos, continuaremos a lutar para mudar as regras do vestuário, para que as jogadoras possam jogar com as roupas com as quais se sentem confortáveis”, acrescentou.

Após a grande repercussão do caso, a cantora pop Pink se ofereceu para pagar a multa para a seleção norueguesa.

“Estou muito orgulhosa da equipe feminina de handebol da Noruega por protestar contra as regras muitos sexistas sobre seu ‘uniforme’…A Federação Europeia de Handebol deveria ser multada por sexismo. Muito bem, garotas. Ficarei feliz em pagar a multa para vocês. Continuem assim”, escreveu a artista em seu perfil no Twitter.

Vídeos: Os mais assistidos do G1 nos últimos 7 dias

G1

COMENTE ABAIXO:
Clique para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

MUNDO

Os quatro mandatos de Angela Merkel, premiê da Alemanha, em FOTOS

Publicados

em

Por

A primeira-ministra alemã Angela Merkel ao longo de sua carreira política, entre os anos de 1991 a 2016 — Foto: DPA via AFP/Arquivo

O ex-primeiro-ministro alemão Gerhard Schroeder transmite o cargo à recém-eleita premiê Angela Merkel, em foto de 22 de novembro de 2005 — Foto: Michael Hanschke/DPA via AFP

Chanceler alemã, Angela Merkel encara o presidente dos EUA, Donald Trump, durante cúpula do G7 em junho de 2018 — Foto: Jesco Denzel/Bundesregierung/cortesia via Reuters

A chanceler alemã, Angela Merkel, gesticula enquanto conversa com o presidente dos EUA, Barack Obama, do lado de fora do castelo Elmau em Kruen, Alemanha. Líderes do G7, os sete países mais ricos se comprometeram com agenda climática em cúpula na Bavária em junho de 2015 — Foto: Michael Kappeler/pool via Reuters

Koni, o cão labrador do presidente russo Vladimir Putin, entra na sala onde seu dono se reúne com a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, em foto de 21 de janeiro de 2007. O gesto de Putin foi criticado por ser notório que Merkel tem fobia a cães — Foto: Dmitry Astakhov/Itar-Tass/Presidência da Rússia via AFP/Arquivo

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em foto de maio de 2018 — Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP

O ex-chanceler alemão Helmut Kohl ao lado de Angela Merkel, em foto de 3 de outubro de 2010 — Foto: Markus Schreiber/AP/Arquivo

A premiê alemã, Angela Merkel, fala durante coletiva de imprensa sobre o coronavírus antes de se isolar por ter tido contato com médico infectado, em março de 2020 — Foto: Michael Kappeler/AP

Leia Também:  Mulher usa mira a laser de arma para brincar com gato e acerta tiro em amigo nos EUA

Líderes do G7 posam para ‘foto de família’ da cúpula em Cornwall, na Inglaterra, em junho de 2021. Da esquerda para a direita: Justin Trudeau (primeiro-ministro do Canadá), Charles Michel (presidente do Conselho Europeu), Joe Biden (presidente dos EUA), Yoshihide Suga (primeiro-ministro do Japão), Boris Johnson (primeiro-ministro do Reino Unido), Mario Draghi (primeiro-ministro da Itália), Emmanuel Macron (presidente da França), Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) e Angela Merkel (chanceler da Alemanha) — Foto: Phil Noble/pool via AP

Angela Merkel, chanceler da Alemanha, ajusta máscara após conferência em Berlim em outubro de 2020 — Foto: Fabrizio Bensch/Pool/Reuters

A chanceler alemã Angela Merkel é vista com uma máscara facial durante visita à Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha, em Duesseldorf, em agosto de 2020 — Foto: Martin Meissner/AP

A chanceler alemã, Angela Merkel, visita o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, em Oswiecim, na Polônia, ao lado do premiê polonês, Mateusz Morawiecki (2º à direita), e pelo diretor do Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, Piotr Cywinski (à esquerda), em dezembro de 2019 — Foto: Janek Skarzynski/AFP

Chanceler alemã, Angela Merkel, ao lado do marido, Joachim Sauer, em evento dos 30 anos da queda do Muro de Berlim em novembro de 2019 — Foto: Michele Tantussi/AFP

Angela Merkel e Eberhard Zorn , general das Forças Armadas, durante homenagem ao homem que organizou uma conspiração contra Hitler, em julho de 2019 — Foto: John MacDougall/AFP

Leia Também:  Governo Trump forçou Apple a entregar dados de democratas

O presidente Jair Bolsonaro, a chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi em encontro do G20 em junho de 2019 — Foto: Brendan Smialowski/AFP

Angela Merkel no momento em que teve um tremor ao lado do presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, durante cerimônia em Berlim em junho de 2019 — Foto: Michael Sohn/AP

Detalhe das mãos da primeira-ministra Angela Merkel, da Alemanha, durante seu segundo episódio registrado de tremedeira, em cerimônia oficial em Berlim, em junho de 2019 — Foto: Reprodução/Reuters TV

O presidente americano, Donald Trump, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, participam das celebrações pelo ‘Dia D’ em Portsmouth, na Inglaterra, em junho de 2019 — Foto: Carlos Barria/Reuters

A chanceler alemã Angela Merkel bebe um coquetel com gelo seco criado por jovens estudantes da Universidade Junior em Wuppertal, na Alemanha, em maio de 2019 — Foto: Wolfgang Rattay/Reuters

Chanceler da Alemanha, Angela Merkel e o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, entre outras autoridades, participam de cerimônia que marca o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, no memorial Neue Wache, em Berlim, em outubro de 2020 — Foto: Hannibal Hanschke/AFP

Bonecos de madeira representam a primeira-ministra alemã Angela Merkel fazendo seu tradicional gesto com as mãos, em uma fábrica de artesanato em Seiffen, na Alemanha, em foto de 20 de agosto — Foto: Christof Stache/AFP

G1

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

Nos siga no Facebook

DISTRITO FEDERAL

ECONOMIA

ENTRETENIMENTO

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA

Gostou da notícia? Quer mais?

Nos Siga no Facebook 

para mais Notícias

Gostou da notícia? Nos Siga para Mais.