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O Grande estrago: BB, Bradesco, BTG, CEF, Itaú e Santander, ouviram do BC que, caso o BRB quebrasse, a conta para o FGC seria monumental.

Por Redação 14/06/2026 às 14h05 • Atualizado em 14/06/2026 às 11h19
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O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, hoje preso na Papudinha, e o ex-governador Ibaneis Rocha - Agência Brasília
Como a fraude do BRB arruinou as finanças do Distrito Federal, balançou o sistema financeiro e expôs a fragilidade das instituições

Algumas semanas antes de a União e o governo do Distrito Federal, no dia 28 de maio, assinarem um termo de conciliação, mediado pelo ministro do STF, Luiz Fux, para buscar uma solução que evite a quebra do Banco de Brasília (BRB), os seis maiores bancos do país receberam um alerta preocupante do Banco Central. 

Banco do Brasil, Bradesco, BTG, Caixa Econômica Federal, Itaú* e Santander, responsáveis pelo grosso do dinheiro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), ouviram o seguinte: caso o BRB, atolado até o pescoço em uma fraude bilionária com o Master, quebrasse, a conta para o FGC seria monumental. Pelos cálculos do BC, apenas para reembolsar os clientes da instituição estatal, nesse caso, não só os CDBs, mas também depósitos à vista, o FGC teria que desembolsar, no mínimo, 17 bilhões de reais.

Criado em 1995, o FGC garante o ressarcimento de valores até 250 mil reais por CPF ou CNPJ para quem tinha aplicações financeiras em instituições que acabem de quebrar. Essa rede de proteção, porém, não é infinita – e anda cada vez mais curta. O rombo estratosférico do Master custou ao fundo 60 bilhões de reais, reduzindo o saldo, que chegou a 132 bilhões, para 72 bilhões de reais. Com o BRB na corda bamba, uma nova ameaça se instaurava no horizonte.

Há atualmente 30 bilhões de reais dos Tribunais de Justiça da Bahia, do Distrito Federal, de Alagoas, da Paraíba e do Maranhão sob custódia no BRB. O problema é que os recursos não estão mais disponíveis no seu caixa. Foram investidos em diversos negócios da instituição, os quais nem o BC tem ideia – dado o histórico de fraudes do BRB – se são rentáveis e, acima de tudo, seguros.

Para completar o imbróglio, o BRB é responsável por gerir os pagamentos dos servidores e aposentados do Distrito Federal e de administrar o pagamento dos serviços públicos, como passagens de ônibus e vale transporte. Isso, afora todos os serviços de dados do Distrito Federal e mais uma batelada de operações da instituição com a administração pública, que ficariam paralisadas caso o banco não recebesse oxigênio para sobreviver e fosse liquidado pelo Banco Central. Em suma, a hecatombe era iminente. 

Parecia óbvio tanto para o BC quanto para o mercado que, pela gravidade do crime cometido e pela sua inviabilidade financeira, após queimar 21,7 bilhões de reais em operações fraudulentas com o Master, o destino do BRB não deveria ser outro que não a liquidação. Mas a luz vermelha acendeu no sistema financeiro. Por se tratar de um banco de varejo, que opera nacionalmente e tem negócios cruzados com várias outras instituições, a liquidação do BRB não apenas impactaria o patrimônio do FGC, como tinha potencial para desencadear uma crise muito maior.

“O BRB, diferente do Master, é um banco que tem depósitos grandes o suficiente para provocar um impacto no sistema”, me disse um importante agente do mercado. “E banco de varejo quebrar é sempre complicado. Gera corrida por saque.” O BRB, me disse ele, apesar do lucro insignificante, tem valor, “ao contrário do Master, cujo único negócio era roubar dinheiro dos outros”. Por essa razão, disse, salvar o BRB fazia sentido. Mas fez uma ressalva. “Esse salvamento tem que ser feito pelo estado mais rico do país, que é o Distrito Federal, que tem o maior PIB per capita da federação. Essa conta tem que ficar com o Distrito Federal, já que foram seus governantes que criaram a fraude.”

A tensão no sistema financeiro era grande. Além da irritação dos grandes bancos com o Banco Central, por ter deixado a fraude do Master correr solta a ponto de contaminar um banco de varejo, como o BRB, havia também um mal-estar com as plataformas responsáveis por despejar os CDBs do Master no mercado.

Em abril, numa reunião a portas fechadas na Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, houve uma lavação de roupa suja entre os dirigentes de instituições financeiras, com dedos apontados, principalmente, para o presidente-executivo do conselho da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, cuja plataforma foi a que mais distribuiu CDBs do Master, seguida do BTG. A discussão acabou se transformando em um bate-boca inflamado, com acusações de todos os lados.

O governo federal, até então, se mantinha à margem da confusão. O Ministério da Fazenda considerava que esta era uma questão para ser resolvida entre o BRB, o governo do Distrito Federal, o sistema financeiro e o Banco Central. Mas, então, a União foi repentinamente envolvida no caos, com sérios riscos de que toda a sociedade brasileira sofresse as consequências da falcatrua perpetrada pela direção do BRB, subordinada ao então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.

Tudo começou no dia 1o de abril deste ano, quando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ligou para Celina Leão que, dois dias antes, assumira a cadeira de governadora do Distrito Federal, no lugar de Ibaneis, que se desincompatibilizara para concorrer à eleição ao Senado. O ministro queria tratar de um assunto premente, afeito à sua pasta. Em razão do ataque dos Estados Unidos ao Irã, o Conselho Nacional de Política Fazendária, o Confaz, havia proposto aos estados e ao Distrito Federal que reduzissem ou até zerassem, temporariamente, o ICMS incidente sobre a importação de diesel para conter a alta do combustível. A União, por sua vez, compensaria parte da perda de arrecadação. Todos os governadores concordaram com a proposta, com exceção de Ibaneis.

Com a saída de Ibaneis do cargo, Durigan voltou a exigir a cooperação do DF. Ele informou à governadora que, inclusive, já havia recebido reclamação de secretarias do DF, entre elas a de Transporte, dizendo que o aumento do diesel afetaria muito o transporte público local.

Celina Leão concordou com a proposta do Confaz e acompanhou os outros estados no alívio ao ICMS dos combustíveis. A conversa entre os dois estava sendo encerrada quando a governadora pediu ao ministro ajuda da União para socorrer o BRB. Durigan disse que o tema era muito grave, mas que ele tinha uma posição clara a respeito: a de que não caberia à União dar qualquer ajuda ao DF, naquele caso. Explicou que não poderia colocar dinheiro para socorrer uma operação que envolvia fraude. De qualquer forma, se dispôs a conversar para ajudar na busca de uma solução.

Parecia que o assunto morreria ali, já que Leão não voltou a procurar o ministro para tratar do problema. Dias depois, porém, ela enviou um pedido para a Secretaria do Tesouro, solicitando o aval da União para socorrer o BRB. Novamente, a resposta foi negativa. A posição oficial do Ministério da Fazenda foi de que o Tesouro não faria a operação de salvamento. 

Leão, porém, não estava disposta a ceder. Surpreendentemente, sem que o ministro fosse avisado, a governadora entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal, no dia 19 de maio, uma terça-feira, para que a União fosse instada a fazer uma operação de crédito para salvar o banco do Distrito Federal. Ao tomar conhecimento da ação, três dias depois, na sexta-feira, Durigan se sobressaltou e, imediatamente, ligou para o advogado-geral da União, Jorge Messias, para entender se seria mesmo possível o STF mandar o Tesouro Nacional pagar a conta do crime financeiro cometido pelo BRB.

A resposta que ouviu de Messias não foi nada confortadora. Para o advogado da União, havia um sério risco de Fux dar uma liminar para o DF, colocando a União no bolo da fraude do BRB. Inconformado, Durigan disse a Messias, segundo um integrante do governo que presenciou a conversa, que não admitiria “que a população do Brasil inteiro tivesse que dar aval a uma operação de crédito que capitalizasse o BRB. 

Naquele mesmo dia, Durigan ligou para o ministro Fux. A conversa foi firme, mas gentil. Durigan disse a Fux que não sabia como ele estava tratando aquele processo, do qual ele tinha acabado de tomar ciência. Informou que estava tomando a liberdade de ligar para explicar que um problema daquela magnitude não poderia ser resolvido na “canetada”.

De acordo com as pessoas que ouviram a conversa, Durigan expôs ao ministro do Supremo que o colapso financeiro do BRB era resultado de uma ação criminosa grave, que, inclusive, estava sendo apurada no Supremo. E pediu a Fux que não tomasse qualquer medida antes de ouvi-lo, porque obrigar o Tesouro a bancar o rombo do BRB seria uma decisão muito lesiva ao país.

Procurada pela piauí, Celina Leão preferiu não conceder entrevista até o acordo estar concluído.

O esforço da Fazenda para barrar o estrago do Master, que agora atingira o BRB, já vinha desde agosto do ano passado, quando foi deflagrada a operação Carbono Oculto, liderada pela Receita Federal, que desvendou que uma das administradoras que operavam com o Master, a Reag, também estava envolvida na lavagem de dinheiro para o crime organizado. Somente depois de o escândalo ter explodido na praça, o Banco Central, finalmente, pediu ajuda ao Ministério Público de Brasília e à Polícia Federal para deflagrar a investigação que resultou na operação Compliance Zero. A operação levou à liquidação do Master e ajudou a desvendar, junto com o BC, a venda de títulos podres do Master para o BRB, que a governadora do Distrito Federal queria empurrar para a União.

Fux ouviu o apelo de Durigan e aquiesceu. Principalmente após tomar conhecimento dos 30 bilhões em depósitos judiciais acautelados no BRB, que, se não fossem pagos, causariam um caos no Poder Judiciário. Mas disse que seria necessário fazer uma audiência de conciliação entre as partes envolvidas, que eram o Governo do Distrito Federal, o BRB e o Banco Central, para evitar a quebra do banco com a consequente paralisia do DF.

Na audiência no STF, da qual participou o diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino, o Banco Central levou a informação de que o BRB tinha feito duas operações de compra de créditos do Master. Uma no valor de 9 bilhões de reais e, outra, de 12,7 bilhões. Na de 9 bilhões parecia ainda haver algum lastro. Já na de 12,7 bilhões, estava claro que o BRB tirara o dinheiro do caixa para entregar ao Master a troco de nada. “De papel. De guardanapo”, foi dito na audiência. Foi a escandalosa operação de salvamento do Master autorizada pelo BRB, que levou, por enquanto, à prisão do então presidente do banco estatal, Paulo Henrique Costa.

Agora, a investigação da Polícia Federal está focada no ex-governador do DF, Ibaneis Rocha, no intuito de verificar se ele tem envolvimento com a fraude. A PF suspeita que houve uma determinação política no salvamento do banco de Daniel Vorcaro pelo BRB, já que seria impossível o presidente da instituição estatal tomar uma decisão tão lesiva aos interesses do BRB e da população do DF sem consultar seus superiores. No caso, o governador Ibaneis, que, inclusive, o nomeou para o cargo.

Se Ibaneis for indiciado na fraude, ele poderá ser preso e impedido de concorrer ao Senado nas eleições de outubro. Todas as informações levantadas pelo BC sobre a operação estão sendo compartilhadas com a PF.

Com a negativa do Tesouro em colocar dinheiro no BRB, o Banco Central chegou a estudar uma “solução de mercado”. A ideia seria o FGC entrar com algum recurso para dar liquidez imediata ao banco, e em seguida, privatizá-lo. Pela proposta do BC, o banco seria dividido em dois: um com os ativos saudáveis, como as carteiras de crédito imobiliário, consignados e os depósitos dos clientes; e outro, com a parte problemática, ficaria sob a responsabilidade do governo do DF, que usaria os recursos das transferências constitucionais para, aos poucos, resolver o buraco financeiro. Os ativos a serem recuperados ao fim dos processos judiciais seriam utilizados para ajudar o DF a amenizar o rombo.

A parte boa seria vendida ao mercado pela melhor oferta e, os recursos levantados também ajudariam a cobrir o rombo do banco ruim. A dificuldade para a concretização dessa proposta era a série de operações do banco com a administração pública, além dos depósitos judiciais. Dificilmente algum banco ia se arriscar a comprar o BRB sem saber que esqueletos ainda poderiam aparecer no balanço.

Além disso, havia o risco de a venda ser questionada pelos políticos locais e por futuros governantes do DF que porventura vierem a assumir o governo. “O comprador capitalizaria o BRB e de repente entraria a oposição ou um próximo governo questionando juridicamente a operação. Que banco ia querer se meter nessa encrenca?”, me disse o representante de uma instituição financeira.

Como essa operação, pelo menos em um primeiro momento, era inviável, chegou-se à quantia de 6 bilhões de reais, que deverão ser colocados pelo FGC como empréstimo para socorrer o BRB até ele recuperar minimamente sua operação. Este valor foi estipulado por se tratar do limite constitucional que o DF pode tomar de empréstimo. Os recursos deverão ser emprestados pelo FGC com o aval dos seis grandes bancos, os S1, na nomenclatura do Banco Central, que terão, como garantia de pagamento do empréstimo, os recursos do Fundo Constitucional do Distrito Federal, que somam cerca de 28,4 bilhões de reais que a União transfere anualmente para a capital federal. Isso sem contar os 2,5 bilhões de reais do Fundo de Participação dos Estados e Municípios. Há dados importantes a serem definidos, como a taxa de juros dos empréstimos. 

Os seis bancos engoliram, por enquanto, a proposta por ser menos danosa para o sistema do que arcar com o prejuízo de 17 bilhões de reais no FGC, em caso de liquidação do BRB. Na cerimônia de assinatura do termo, a governadora Celina Leão, no entanto, era a única que estava animada. Tanto que pediu ao ministro Dario Durigan para tirar fotos ao seu lado para registrar o momento de “vitória”. O ministro se esquivou. Segundo pessoas que presenciaram a cena, Durigan disse que a ocasião não era propícia nem para fotos nem para comemorações.

Mesmo com a ajuda dos bancos -- que ainda não está totalmente garantida, já que até agora apenas o Banco do Brasil se comprometeu com o negócio -- no mercado não há muita confiança de que os recursos colocados no BRB serão suficientes para salvar o banco. O medo é de que o governo do DF não honre suas obrigações, e entre com ação no Supremo para não pagar as dívidas. Mesmo porque o STF, nos últimos anos, tem apoiado o calote das dívidas dos estados e municípios, alegando que não se pode inviabilizar um ente da federação.

Para piorar, apesar da alta arrecadação anual – 41, 6 bilhões de reais de recolhimento próprio, afora as transferências constitucionais –, a situação das contas públicas do DF é deplorável. O Tribunal de Contas do Estado estima, para este ano, um déficit de 4 bilhões de reais, o que mostra a péssima gestão das contas públicas da capital federal.

A encrenca em que o BRB meteu o Distrito Federal é superlativa. Os 6 bilhões de reais a serem emprestados ao banco pelo FGC na tentativa de capitalizá-lo representam cerca de 15% da arrecadação anual do próprio governo. A maior parte da arrecadação do DF vem de ICMS, ISS e IPVA, mas também há transferências constitucionais ligadas à condição de capital federal, em torno de 28 bilhões de reais ao ano.  Por isso, agentes do mercado não esconderam sua irritação com o fato de ser o FGC a ter que socorrer o BRB, e não o próprio governo do DF, que foi quem cometeu a fraude. Principalmente pelo fato de o PIB per capita do Distrito Federal ser 2,4 vezes maior do que a média nacional.

Para fazer frente ao pagamento dos 6 bilhões que poderão ser emprestados pelos bancos, o governo do DF se comprometeu a fazer uma profunda reforma fiscal, que implica, entre outras obrigações, em não conceder aumento para o funcionalismo e não fazer novas contratações, além de uma série de outros cortes para mostrar o compromisso de pagar essa operação. Pelo acerto feito com a mediação do ministro Fux, se a dívida não for honrada, os recursos das transferências constitucionais serão bloqueados para pagamento dos bancos credores.

Além disso, o ministro da Fazenda fez constar no termo de conciliação que qualquer dinheiro ou ativo que for recuperado na delação premiada dos dirigentes do Master terá que ser usado no pagamento dos empréstimos dos bancos.

Uma outra questão que está sendo agora investigada pelo Banco Central são os depósitos judiciais feitos no BRB. Por que razão os Tribunais de Justiça de alguns estados retiraram os recursos do Banco do Brasil para colocá-los no BRB? Antes das fraudes virem à tona, a explicação era de que o banco oferecia rendimentos mais altos pelos depósitos.

A expansão dos depósitos judiciais começou há cinco anos, durante a estratégia de nacionalização do BRB, sob gestão de Paulo Henrique Costa. O banco é o operador exclusivo dos depósitos judiciais do DF, da Bahia (o primeiro a retirar os recursos do BB e colocar no BRB, em 2021), de Alagoas, da Paraíba e do Maranhão. Os dois últimos estados, inexplicavelmente, transferiram seus recursos para o BRB quando todo o mercado já sabia que a instituição estava nas cordas.

Os depósitos judiciais se tornaram uma das maiores fontes de captação institucional do BRB. No começo deste ano, contudo, advogados da Bahia me disseram que estavam tendo dificuldades para recuperar esses recursos. O BRB oferecia um valor muito menor do que o que havia sido depositado na instituição. Hoje, os depósitos judiciais desses cinco estados correspondem a cerca de 8% do PIB anual do Distrito Federal.

Agora, após a crise, outro compromisso do BRB é o de voltar a ser um banco regional, atendendo basicamente o Distrito Federal. A nacionalização do banco foi, na visão do Banco Central, um erro estratégico. O banco chegou a ser patrocinador do Flamengo para se posicionar como uma instituição nacional.

Na semana passada, perguntei ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, como ele avaliava a negociação do acordo. Segundo ele, o primeiro ponto a destacar foi que a posição do Ministério da Fazenda foi respeitada: não haverá aval da União para a operação. “A União não vai se envolver com nenhum centavo de recurso público federal nessa operação.” De modo geral, o ministro considerou o termo de compromisso positivo. “A operação é dos males o menor, porque ela mitiga o prejuízo dos bancos, que também viria em razão do FGC garantir uma série de operações que somariam 17 bilhões de reais”, disse. “Além disso, também evitou que os serviços públicos do DF entrassem em colapso imediato, pelo menos até ver o que vai acontecer com  o banco no futuro.”

Na visão do ministro, um terceiro aspecto positivo da negociação foi a proteção dos depósitos judiciais. “Imagina o Tribunal de Justiça mandar pagar, por exemplo, um precatório e não ter dinheiro?”, disse. “Então, agora, terá que haver um esforço do próprio BRB e do governo do Distrito Federal para resolver o problema. Me parece a solução correta.” E enfatizou: “É preciso identificar os responsáveis por esse desastre. As investigações têm que ser feitas com rigor e todo mundo que está na cadeia de responsabilidade, inclusive o ex-governador, se for o caso, têm que responder pelo que fizeram.” 

Embora o ministro Fux tenha pedido urgência na capitalização do BRB, até o momento nada foi apresentado ao FGC. Além de não haver taxa de juros definida, a direção do BRB ainda não apresentou um cronograma de como os recursos emprestados serão aplicados. 

Para o mercado, o BRB continuará sendo uma preocupação. “Aquilo lá é uma caixa preta”, disse um integrante do mercado que participou das negociações. “Eu temo que eles deixem para apresentar um plano no último momento e acabem dizendo que a solução não será suficiente.”

Além de tudo, existe a questão política, que não é pequena. A desconfiança dos bancos é muito grande. O temor é o que pode ocorrer depois das eleições, principalmente se o vencedor for Flávio Bolsonaro, muito próximo do ex-governador Ibaneis Rocha.

“Todo mundo desconfia de que esse dinheiro emprestado não será suficiente”, me disse essa fonte bancária que acompanha as negociações. “Quem é que vai fazer uma auditoria no BRB?”, questionou. “Além do mais, tem essa bagunça dos depósitos judiciais, dos serviços públicos. Então, realmente, o BRB é um pepino e tanto.”

Enquanto os bancos tentam salvar o BRB, o FGC ganhou mais um problema para resolver: o banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal e do partido Republicanos, cujo principal nome é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Segundo fontes do mercado, o Digimais pede um socorro de 7 bilhões de reais ao FGC para cobrir suas operações a descoberto com os investidores em CDBs. Valor que o mercado estima já estar em 8,5 bilhões de reais. A proposta do Digimais para o FGC é indecente, na opinião do diretor de uma instituição financeira que acompanha o caso. O bispo Edir Macedo quer que o Digimais seja colocado em leilão e vendido pelo maior valor, que seria repassado ao FGC. Se a oferta não chegar aos 7 bilhões que o banco estima ser seu rombo, a diferença seria bancada pelo próprio fundo. Até agora, o único a se interessar pelo leilão foi o BTG. Mas a proposta do banco, por enquanto, é apenas ficar com o Digimais depois que o FGC cobrir o prejuízo. Ou seja, nada de desembolso de dinheiro para fechar o negócio. Procurado, o Digimais informou que não irá se manifestar pelo fato de o banco estar em processo de venda. Inclusive, de acordo com o mercado, o FGC alterou seu estatuto social em janeiro para permitir essa operação de leilão. "A regra parece ter sido feita por encomenda do Digi", me disse, inconformado, o diretor de um banco. "Vão se fazendo puxadinhos no FGC", ironizou.

Eis uma nova razão para a irritação do mercado com o Banco Central, embora o controle total do Digimais pelo bispo Edir Macedo tenha ocorrido ainda na gestão de Roberto Campos Neto na instituição. “Como o Banco Central admite, no sistema financeiro, um banco ligado a um partido político e a uma igreja?”, interpelou este diretor de banco. “É aquela história: Você põe uma instituição dessas para dentro do sistema e depois não consegue expulsar.”

É claro que todo o mercado sabe que Edir Macedo tem recursos para cobrir o buraco nas contas da sua instituição. O problema é que, para colocar o dinheiro no banco, ele teria que justificar a origem dos recursos. “E como o Banco Central vai explicar que não monitorou a movimentação deste dinheiro dentro e fora do Brasil? Então… O Banco Central põe para dentro do sistema um cara cujos bens os credores não conseguem alcançar”, diz este diretor de banco.

De qualquer forma, o Digimais é outro que pode vir a ser beneficiado em caso de vitória de Flávio Bolsonaro. O Digimais teve, entre os integrantes do conselho, a executiva Daniella Marques, que hoje trabalha na empresa de consultoria Legend. Ocorre que Marques já foi citada por Flávio Bolsonaro como provável ministra da Fazenda de seu governo, caso vença a eleição. Segundo o jornalista Luís Costa Pinto, em uma análise para a Revista Liberta e para o site ICL Notícias, Marques é “a voz e o cérebro econômico de Flávio Bolsonaro.”

Independentemente de quem seja o novo governante do país, os riscos do mercado podem aumentar significativamente por causa do Congresso. Circula na Câmara dos Deputados o projeto de lei complementar de número 281 de 2019, do deputado Marcelo Queiroz, que dispõe sobre “os regimes de resolução das instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central, pela CVM e pela Susep (Superintendência de Seguros Privados). O projeto já recebeu uma emenda do deputado Mauro Benevides, prevendo que o dono do banco somente será obrigado a colocar seus recursos para cobrir o rombo de sua instituição caso tenha havido fraude. Ou seja, trata-se de uma proposta que, se aprovada, impedirá que o BC alcance o patrimônio dos banqueiros. “Isso vai incentivar ainda mais que novos picaretas entrem no sistema”, me disse um diretor de banco.

O advogado Marcelo Trindade, que já foi presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), é um dos que se dizem bastante preocupados com o afrouxamento da fiscalização sobre o mercado. Uma das suas maiores críticas é como o FGC foi utilizado por instituições financeiras para vender CDBs sem lastro, contando com o salvamento do fundo. O Master, evidentemente, é a maior prova disso.

Por essa razão, Trindade considera que é preciso mudar as regras de salvamento de clientes em caso de quebra da instituição. Sua opinião é de que o investidor não deveria receber o valor de seus recursos corrigido pela taxa oferecida pelo banco fraudador. No caso Master, a taxa dos CDBs chegou a 140% do CDI. Já a do Digimais chegou a 125% do CDI. O investidor, na sua opinião, deveria receber, no máximo, a taxa de variação dos demais bancos. Seria uma forma, também, de envolver quem aplica dinheiro em bancos com rentabilidades milagrosas.

Trindade também defende uma maior fiscalização sobre as fintechs, responsáveis por vender produtos de outros bancos, principalmente os digitais. “Se o Banco Central quer que haja maior competição no sistema financeiro, ele precisa estar preparado para isso”, me disse ele. “Ou seja, você quer autorização para vender CDB na sua plataforma? Então eu, Banco Central, vou triplicar minha fiscalização sobre você. Vou te olhar com a maior rigidez possível.” E continuou: “Dessa forma, o Banco Central terá condições de saber se o banco está aplicando em ativos que são capazes de dar esse retorno que ele está prometendo.”

Uma questão que chama particularmente a sua atenção foi o envolvimento de funcionários do Banco Central na fraude do Master. “Por que se chegou ao ponto de funcionários do topo da carreira do Banco Central se corromperem?”, questiona ele. E opinou: “Porque as instituições no Brasil estão malcuidadas. Porque estamos cada vez mais tolerantes com a corrupção. Porque estamos perdoando todo mundo. Veja, o ministro Dias Toffoli, do STF, perdoou um gerente da Petrobras que desviou [quase] 100 milhões de dólares da companhia [por meio de delação premiada, que inclui a devolução da propina]. Como é que esse cara poderia ser perdoado em algum momento?”, me disse, inconformado.

Virar o jogo, evidentemente, não é fácil. Mas Trindade tem algumas sugestões para, pelo menos no mercado financeiro, proteger o sistema e os investidores. “Só a fiscalização não é capaz de deter a fraude. Só a mudança das regras do FGC não é capaz de conter a fraude, porque a regra pode ser explorada. Mas se você ajusta todas essas partes, você diminui muito as chances de que possa acontecer de novo. Que é, na verdade, o que a gente faz na vida.”


Consuelo Dieguez
Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)
 
Fonte: PIAUÍ/UOL