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Master: escritório de advocacia de Ibaneis vendeu direitos de R$ 38 milhões à Reag

Por Redação 10/03/2026 às 09h03 • Atualizado em 10/03/2026 às 10h40
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Por 
Johanns Eller

O escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), fechou um contrato de R$ 38 milhões de venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag, gestora investigada pela Polícia Federal (PF) por fazer parte no esquema de desvio de recursos pelo Banco Master. O contrato foi fechado em maio de 2024, quando o BRB já vinha adquirindo carteiras da instituição de Daniel Vorcaro.

Como mostrou O GLOBO, a PF e o Ministério Público Federal (MPF) apontaram a Reag como uma estrutura central do esquema de fraudes do Master. A gestora integra a complexa teia de fundos por onde o dinheiro captado pelo banco em transações irregulares era distribuído, dificultando a rastreabilidade e o destinatário final dos valores.

Em março de 2025, o diretor do fundo que fechou o contrato com o escritório de Ibaneis é o mesmo representante do grupo que participou e votou em assembleias de acionistas do BRB como representante do Borneo, outro fundo investigado pela PF por ter sido usado em uma operação do Master e da Reag para comprar 25% do controle do BRB abaixo do preço do mercado, enquanto negociavam carteiras fraudulentas do Master.

Segundo a PF, o Borneo havia alcançado em junho participação de 4,5% do capital total do BRB e mais de 12% das ações preferenciais. As ações estão bloqueadas pela Justiça.

Em 29 de maio de 2024, o Ibaneis Advocacia e Consultoria vendeu ao fundo Reag Legal Claims os direitos creditórios sobre honorários advocatícios no valor nominal de R$ 38 milhões, com data-base de dezembro de 2021. Hoje o fundo se chama Pedra Azul.

Precatórios são ordens de pagamento determinadas pela Justiça a municípios, estados ou da União que costumam demorar anos para serem liberados, por dependerem de condenação judicial em última instância.

Nessa modalidade de negócios, o comprador adquire o direito de receber os honorários, que em geral cabe a quem ajuizou a ação e corresponde a fatias maiores do que as do mercado, já que precatórios são títulos de difícil recebimento.

No caso da Pedra Azul, a dívida total era de R$ 381,2 milhões. Não há registro de que o fundo já tenha recebido os honorários.

A equipe da coluna teve acesso ao termo de cessão dos honorários assinado entre Luzineide Getro de Carvalho, gerente administrativa do escritório do governador, e o diretor da Reag Ramon Pessoa Dantas. Também participou do negócio o escritório Engels Augusto Muniz Sociedade Individual de Advocacia, próximo do grupo político de Ibaneis.

O diretor do Reag Legal Claims é Marcos Ferreira Costa, que desde o ano passado é representante da Reag e do Borneo, que vota nas assembleias de acionistas do banco. Ele também aparece na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como responsável pela Reag DTVM, liquidada pelo Banco Central (BC).

A Reag foi liquidada pelo BC em janeiro, dois meses após o regulador tomar a mesma decisão em relação ao banco de Vorcaro. Segundo o BC, a medida foi tomada “por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes” do sistema financeiro nacional. A gestora ainda é alvo de outra frente de investigações da PF, a Operação Carbono Oculto, que apura a lavagem de dinheiro de facções criminosas no mercado de combustíveis e em instituições financeiras.

No fim de fevereiro, a Justiça Federal de Brasília determinou o bloqueio das ações do BRB controladas por investigados no caso Master, entre eles o Borneo. Tanto o banco de Vorcaro quanto a Reag e o Will Bank já haviam sido liquidados extrajudicialmente pelo BC àquela altura. O objetivo é garantir um possível ressarcimento por prejuízos ao banco de Brasília provocados pelo esquema de fraudes.

A Polícia Federal também descobriu outra conexão entre a Reag e o escândalo do Master: após a liquidação do banco em novembro passado, Vorcaro escondeu R$ 2,2 bilhões que deveriam ser preservados para o pagamento de credores pelo liquidante indicado pelo BC em uma conta em nome de seu pai, Henrique Vorcaro, na gestora.

Em nota assinada por seis advogados, a defesa de Ibaneis Rocha afirmou que o governador está afastado do escritório de 2018 e “não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento” e que ele “nunca participou de quaisquer negociações” com Costa ou com a Reag (leia a íntegra da nota ao final da matéria).

Procurada, a Reag não se manifestará. Já o BRB não retornou o contado da equipe da coluna até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.

Pressão sobre Ibaneis

A operação milionária entre seu escritório de advocacia e a Reag, formalizada durante o período em que o Master e pouco antes da aquisição de 25% do BRB pelas duas instituições, é mais um episódio nebuloso que demanda explicações do governador do Distrito Federal.

Eleito pela primeira vez para um cargo político em 2018 e reeleito em 2022, Ibaneis Rocha é um advogado conhecido pelo seu bom trânsito no Judiciário em Brasília. Ele chegou a presidir a seção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no DF.

Após ser afastado por quase três meses do governo por decisão de Alexandre de Moraes por suposta negligência durante os ataques do 8 de janeiro, Ibaneis retomou o cargo e escapou de ser indiciado no inquérito da trama golpista. Mas o escândalo do Master voltou a pressionar o emedebista jurídica e politicamente, levando em conta sua autoridade sobre o BRB e a indicação de Paulo Henrique Costa, afastado da presidência do banco pela Justiça em novembro.

Ibaneis é alvo de pedidos de impeachment na Assembleia do DF e sua pré-candidatura ao Senado Federal tem sido colocada em dúvida até por aliados na direita.

A compra do Banco Master pelo BRB, descrita posteriormente pela Justiça como “pura camaradagem”, foi defendida publicamente pelo governador em diferentes ocasiões sob o argumento de que o negócio, uma vez confirmado, renderia dividendos bilionários e nacionalizaria o BRB. Para ele, o negócio não era um risco, e sim uma “oportunidade”.

“O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”, declarou o governador em agosto de 2025 ao sancionar a aprovação da Câmara Distrital para a compra da instituição privada.

Após a deflagração da Operação Compliance Zero da Polícia Federal e a liquidação do Master, Ibaneis alegou que problemas podem ter existido nas negociações por conta de um “excesso de confiança” no então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que comandou as negociações.

Em depoimento à PF no fim de dezembro, Vorcaro disse ter mantido “conversas institucionais” com o governador do DF na presença de outras pessoas a respeito das negociações com o BRB em diferentes ocasiões. Ibaneis, por sua vez, afirmou que só esteve com o banqueiro uma vez e disse que não discutiram detalhes do negócio.

Ligação umbilical entre Master e Reag

O controlador da Reag, João Carlos Mansur, é conhecido no mercado como parceiro de negócios de Daniel Vorcaro. A proximidade é verificada inclusive pelas redes sociais: no LinkedIN, Mansur já publicou selfies sorridentes com o dono do Master. “Dia de comemorar com os amigos”, dizia a legenda de uma publicação feita em 2022.

Um dos negócios que os dois fizeram juntos foi a compra do Will Bank, em 2024. No mesmo ano, Reag e o Master adquiriram, junto com Nelson Tanure, papeis do grupo GPA, dono da rede Pão de Açúcar, de olho na potencial venda das operações no Brasil pelo grupo Casino.

Tanure é apontado pela PF e pelo Ministério Público Federal como o sócio oculto do Master, o que o empresário nega.Rombo bilionário

Sob pressão do Banco Central para recompor a liquidez e o patrimônio após o rombo deixado pela fraude do Master, o BRB adotou uma força-tarefa em busca de compradores para ativos próprios e outros oriundos do Master para tentar compensar o rombo provocado pela carteira de crédito fraudada de R$ 12,2 bilhões.

A corrida contra o relógio ocorre em função do temor no governo do DF e no próprio BRB de uma eventual intervenção do Banco Central ou mesmo uma federalização da instituição para evitar sua falência.

Embora tenha conseguido vender algumas das carteiras de crédito originais do banco para recompor a liquidez, arrecadando R$ 5 bilhões, as ofertas do BRB foram recebidas com ceticismo e desconfiança na Faria Lima, em especial no que diz respeito à precificação dos ativos.

Na última semana, a Câmara Legislativa do DF aprovou um projeto para capitalizar o banco estatal e evitar que ele quebre. Além de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões bancado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), está prevista a cessão de nove imóveis públicos. A pauta recebeu 14 votos favoráveis e 10 contrários, mas ainda não foi sancionada pelo governador.

Como mostramos no blog, Ibaneis buscava empurrar uma decisão definitiva para a vice-governadora, Celina Leão (PP), após sua desincompatibilização para concorrer ao Senado – o que pode ocorrer até o início de abril – para evitar uma “confissão” de que errou ao avalizar compra do Master. Mas o emedebista tem sido pressionado a assumir a responsabilidade pelos prejuízos diante dos riscos de intervenção no BRB.

Leia abaixo a íntegra da nota da defesa de Ibaneis:

A defesa do Governador Ibaneis Rocha esclarece que ele está afastado do escritório de advocacia desde 2018, de modo que não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento.

sclarece-se, ainda, que o Governador Ibaneis nunca participou de quaisquer negociações com o Sr. Marcos Ferreira Costa, tampouco com outros representantes dessa empresa. Todas as informações que detém sobre o grupo foram adquiridas a partir de matérias de jornais, já no presente ano.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Roberta Castro Queiroz

Marcelo Turbay Freiria

Liliane de Carvalho Gabriel

Álvaro Chaves

Ananda França de Almeida