O poder medicinal da hipnose

Quando David Spiegel soube que a sua próxima paciente o aguardava, ele não precisou perguntar o número do quarto. Sua respiração ofegante podia ser ouvida a meio caminho no corredor.

Ao entrar no quarto da paciente, ele viu uma menina de cabelos ruivos de 16 anos de idade sentada na cama, tomada pelo medo, em meio a um ataque de asma. Ao lado dela, a mãe chorava. A menina havia sido hospitalizada com asma pela terceira vez em três meses.

Spiegel era estudante de medicina em turnos pediátricos no Hospital Infantil de Boston, nos Estados Unidos. O ano era 1970. Como parte dos seus estudos, ele tinha aulas de hipnose clínica.

A equipe médica da jovem paciente com asma já havia tentado dilatar suas vias aéreas com injeções de adrenalina. Mas, mesmo depois de duas tentativas, o ataque da menina não diminuía. Spiegel não sabia o que mais poderia fazer.

“Você quer aprender um exercício respiratório?”, perguntou ele.

Ela concordou e Spiegel hipnotizou sua primeira paciente. Depois que a menina entrou no estado de transe característico da hipnose, Spiegel estava pronto para fazer uma sugestão — o “ingrediente ativo” do tratamento hipnótico, que em geral se trata de uma afirmação cuidadosamente elaborada para produz uma reação involuntária.

Mas, enquanto a menina estava sentada na cama, calma e concentrada, Spiegel se perguntava qual sugestão deveria fazer. Ele ainda não havia chegado à aula de asma do seu curso de hipnose.

“Então eu criei algo”, conta ele, relembrando o caso. “Eu disse: ‘cada respiração que você fizer será um pouco mais profunda e um pouco mais fácil’.”

A sugestão improvisada funcionou. Em cinco minutos, a respiração ofegante da paciente havia parado e ela estava deitada na cama, respirando confortavelmente. Sua mãe havia parado de chorar.

Foi um momento didático para o médico e para a paciente. A menina cresceu e se tornou terapeuta respiratória, enquanto Spiegel dedicou sua carreira à hipnose clínica. Nos 50 anos que se seguiram, ele fundaria o Centro de Medicina Integrada da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e, pelos seus cálculos, já hipnotizou mais de 7 mil pacientes.

À primeira vista, a hipnose parece um daqueles fenômenos psicológicos que simplesmente não deveriam funcionar. Mas o que a torna tão interessante é que, muitas vezes, ela funciona. Entrar em estado hipnótico, concentrar-se atentamente e ouvir uma sugestão, para muitas pessoas, é o suficiente para tornar aquela sugestão uma realidade.

Quando uma pessoa hipnotizável ouve que o seu braço começará a se mover sozinho, ele irá. Quando ela ouve que será impossível separar seus dedos entrelaçados, será como se eles estivessem presos com cola.

Quando ela ouve que não se reconhecerá no espelho, ela verá um estranho vagamente familiar imitando seus movimentos através de uma vidraça. E, se a sugestão for que as dores crônicas irão diminuir ou que a ansiedade gradualmente desaparecerá, a hipnose passa a ser uma ferramenta terapêutica valiosa.

Cada vez mais evidências indicam que a hipnose é eficaz para muitas pessoas que sofrem de dores, ansiedade, estresse pós-traumático, parto estressante, síndrome do intestino irritável e outras condições. E, para algumas delas, a hipnose supera os tratamentos padrão em termos de custo, eficácia e efeitos colaterais.

Mas, apesar de décadas de pesquisas sobre a sua importância terapêutica e do entendimento cada vez maior dos seus mecanismos no cérebro, a adoção da hipnose clínica vem sendo incrivelmente lenta. Isso se deve, em grande parte, ao conceito errôneo de que a hipnose é pouco mais que um truque de mágica.

“A hipnose ainda recebe o rótulo de ser algo estranho”, afirma Spiegel. “As pessoas dizem que ela ou é inútil ou é perigosa — nada entre essas duas definições. E ambas estão erradas.”

Começo ‘mesmérico’

 

Práticas como a hipnose existem em muitas culturas espalhadas pelo mundo há séculos. Desde o transe nas práticas de cura tradicionais do sul da África até o xamanismo na Sibéria, na Coreia e no Japão e a medicina nativa norte-americana, muitas práticas exploram a capacidade do corpo de entrar em estado hipnótico.

A hipnose chegou um pouco mais tarde à Europa e à América do Norte e as origens da versão ocidental da hipnose datam do final do século 18.

Em 1775, o médico alemão Franz Mesmer popularizou a teoria do magnetismo animal. Mesmer acreditava que um fluido magnético invisível viajava através do corpo humano, influenciando nossa saúde e comportamento.

Mesmer tomou para si a tarefa de manipular esse fluido, refinando uma técnica que ficou conhecida como “mesmerismo”.

Durante sua prática médica no então chamado império Habsburgo e posteriormente em Paris, na França, ele descobriu que, sustentando o olhar do paciente e concentrando-se atentamente nele, às vezes fazendo movimentos como passar sua mão do ombro até o braço, ele conseguia resultados terapêuticos.

Mesmer ficou rapidamente famoso – e cada vez mais extravagante. Seus salões em Paris eram “sombrios e sugestivos, com cortinas, grossos tapetes e decorações astrológicas nas paredes”, descreve Jessica Riskin, professora de história da Universidade de Stanford. “O próprio Mesmer vestia-se com uma toga de tafetá lilás.”

Apesar da popularidade de Mesmer, o magnetismo animal logo saiu de moda, mas o fenômeno explorado por Mesmer ganhou força no século 19 com um novo nome: hipnose.

Diversos médicos ilustres desenvolveram sucessivas teorias sobre a sua natureza, distanciando a hipnose das suas origens “mesméricas”. O mais famoso deles foi o fundador da psicoterapia ocidental, Sigmund Freud, que fez algumas das suas análises mais conhecidas com base nos prontuários de pacientes como “Anna O” (a feminista judia austríaca Bertha Pappenheim), que um de seus colaboradores, Josef Breuer, tratou com hipnose entre 1880 e 1882.

Posteriormente, Freud abandonou a hipnose em favor da sua técnica de “livre associação”, não sem antes a terapia hipnótica moldar as bases da psicoterapia ocidental.

O mau uso da hipnose

 

Enquanto os médicos exploravam seu potencial terapêutico, a hipnose também desenvolvia seus usos pelo mundo do showbusiness.

Os mal-afamados hipnotizadores populares faziam tours pela Europa, sugerindo aos participantes que imitassem galinhas, ficassem rígidos como tábuas ou presenciassem uma aparição da Virgem Maria. Os debates públicos sobre a hipnose intensificaram-se nos anos 1880, até que alguns países começaram a promulgar leis para regulamentar o seu uso.

A preocupação com os abrangentes efeitos da hipnose atingia seu ápice à medida que se aproximava a virada do século.

Em setembro de 1894, Ella Salamon, de 22 anos de idade, morreu depois que ser hipnotizada por um ocultista em um castelo em uma área remota na Hungria. A história reverberou pela comunidade médica e pela imprensa na Europa e na América do Norte.

Três meses depois, na Alemanha, a baronesa Hedwig von Zedlitz und Neukirch, em busca de tratamento para dores do estômago e de cabeça, encontrou um homem que se apresentava como “curador magnético” chamado Czeslaw Czyński. Ele supostamente usou a hipnose para seduzir a baronesa por diversas sessões, culminando em um casamento que causou consternação entre a aristocracia alemã.

A baronesa passou vários meses afirmando que estava realmente apaixonada por Czyński, que tinha olhos atraentes, cabelos exuberantes e dentes brancos.

Naquele mesmo ano, o escritor franco-britânico George du Maurier criou o hipnotizador fictício Svengali, no romance best-seller Trilby. O público devorou o livro em meio às notícias do caso Czyński, afirmando que havia paralelos fantásticos entre as duas histórias.

Escândalos como esses intensificaram os esforços de médicos para se distanciar dos ocultistas e hipnotizadores populares e legitimar o seu próprio trabalho. Muitos médicos defendiam que a hipnose não deveria ser realizada por praticantes leigos.

Mais de um século se passou e essa tensão ainda não foi resolvida. Muitos pesquisadores acadêmicos e praticantes clínicos com quem conversei ainda defendem que a prática do hipnotismo pelos leigos é perigosa e que sua má reputação inibiu o desenvolvimento mais amplo da hipnose na medicina.

Mas, com cada vez mais exemplos da sua eficácia clínica na literatura e novas descobertas sobre o seu mecanismo no cérebro, pesquisadores e médicos estão concentrando seu trabalho na reabilitação da hipnose.

O legado dos excêntricos experimentos de Mesmer é um conjunto diverso de pesquisas, que variam desde experimentos independentes em meados do século 20 misturando hipnotismo, cobras e ácido concentrado, até estudos publicados em periódicos médicos importantes sobre a hipnose como potente meio de alívio de dores sem o uso de medicação.

Mas, antes de examiná-los, decidi que seria uma boa ideia experimentar a hipnose pessoalmente.
A hipnose popular pode envolver sugestões como imitar animais, e os estudiosos preocupam-se com suas possíveis consequências prejudiciais — Foto: Emmanuel Lafont/BBC

Em busca da experiência

 

Em uma tarde de segunda-feira, enquanto me aproximo do consultório do neurocientista cognitivo Devin Terhune, da Universidade Goldsmiths, em Londres, começo a ficar nervosa por dois motivos.

Primeiro, porque nunca fui hipnotizada antes. Embora eu já tenha falado com diversos pesquisadores e médicos, saber um pouco sobre a teoria não fez com que eu me sentisse preparada para uma sessão real. Afinal, algumas pessoas relatam experiências profundas durante a hipnose, desde sair do próprio corpo até alucinações.

Segundo, porque existe a possibilidade de ocorrer exatamente o contrário — eu ficar sentada com meus olhos fechados por 20 minutos e não conseguir reagir a nenhuma sugestão hipnótica.

Apenas cerca de 10% a 15% da população são classificados como “altamente hipnotizáveis”, ou seja, reagem à maior parte das sugestões. Conhecidos na comunidade hipnótica como “altos”, esse grupo passa por experiências fortes e às vezes profundas durante a hipnose.

Mas a maior parte da população tem uma reação mais silenciosa. Esses indivíduos medianamente hipnotizáveis poderão reagir a algumas sugestões hipnóticas, mas fracassar nos testes mais desafiadores.

E os cerca de 10 a 15% restantes são conhecidos como “baixos”. Os baixos podem reagir a uma ou duas sugestões fáceis ou até não reagir a nenhuma delas.

Seja você alto ou baixo, as pesquisas indicam que o seu nível de capacidade de hipnose não se altera ao longo da vida. Em 1989, um estudo da Universidade de Stanford examinou 50 estudantes calouros de psicologia para determinar sua capacidade de hipnose e os examinou novamente 25 anos depois.

Os antigos colegas apresentaram avaliações surpreendentemente estáveis após todos esses anos – ainda mais estáveis que outras características individuais, como a inteligência.

O que está por trás dessa característica é uma área de pesquisa recente. Existem indicações de que os níveis de dopamina – um neurotransmissor (mensageiro químico) — no cérebro estão relacionados com a capacidade de hipnose.

Estudos preliminares indicaram um gene chamado COMT, envolvido no metabolismo da dopamina, mas as conclusões foram contraditórias e ainda não surgiu um quadro genético mais claro.

Outro neurotransmissor, o ácido gama-aminobutírico (GABA), também foi relacionado à capacidade de hipnose. Em um estudo na Universidade de Stanford, Spiegel, Danielle DeSouza e seus colegas concluíram que as pessoas altamente hipnotizáveis apresentavam níveis mais altos do neurotransmissor GABA em uma parte do cérebro considerada intimamente envolvida com a hipnose.

Essa região do cérebro (o córtex cingulado anterior) está relacionada, entre outras coisas, com o controle cognitivo e a vontade. GABA apresenta efeito inibidor sobre as células cerebrais, o que levou DeSouza e Spiegel a sugerir que maiores reservas de GABA nessa região do cérebro poderiam ajudar os “altos” a entrar em estado hipnótico com mais facilidade.

Existem também alguns indicadores de características de personalidade relacionados com a capacidade de hipnose, mas não ao nível das cinco características principais. Altos e baixos podem ser extrovertidos ou introvertidos; agradáveis ou desagradáveis; neuróticos ou emocionalmente estáveis; abertos ou fechados a novas experiências; e meticulosos ou altamente desorganizados.

Algumas características mais sutis são encontradas com mais frequência nos “altos”, como se empenhar de forma mais criativa, reagir a indicações do ambiente ou se predispor à autotranscendência, segundo Terhune.

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