O Brasil virou "campo de batalha da fé" - quando a política sequestra Deus como arma eleitoral
A fé sequestrada
Por Walter Pinaya
Neste 4 de outubro, as urnas vão falar mais alto que o ódio. Vote com consciência, desconfie das fake news e não permita que transformem a laicidade do povo brasileiro em arma eleitoral. A fé de cada um merece respeito e não manipulação. O Brasil que queremos se constrói com informação, respeito e voto livre.
A eleição brasileira de 2026 está se transformando numa guerra que usa a fé como munição. A poucos dias do primeiro turno, de São Paulo à Bahia, das igrejas aos terreiros, símbolos religiosos são rasgados, queimados e usados como porrete contra adversários. O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou, no fim de setembro, que a Polícia Federal investigue "uma onda de ataques claramente direcionados a imagens religiosas". Só ele listou mais de dez casos em sete estados, como exemplo, a imagem de Nossa Senhora Aparecida destruída a machadadas em Cuiabá, a Santa Bárbara despedaçada numa igreja de Salvador, uma loja de artigos religiosos atacada três vezes em um mês em Londrina, esculturas de orixás destruídas e oferendas pisoteadas num terreiro de Umbanda em Esmeraldas. Não são casos isolados. Dados do Disque 100 mostram que só no primeiro semestre de 2026 foram registradas 1.252 denúncias de intolerância religiosa, das quais 270 contra praticantes de Candomblé e Umbanda, historicamente o grupo que mais sofre violência religiosa, com aumento de mais de 40% em relação ao ano anterior. Quando a eleição de um país se transforma em caçada à fé das minorias, a própria democracia já está sangrando.
A munição verbal dessa "guerra da fé" não é nova. A extrema-direita repete o mesmo repertório como "a esquerda é do diabo", "candidato que vai a terreiro está amarrando o país", "se a esquerda ganhar, eles vão fechar as igrejas", “isso não é religião, é seita/macumba para o mal”, "se a esquerda ganhar, eles vão fechar as igrejas", "esse candidato é comunista/ateu e odeia os cristãos", "eles defendem deboche contra a fé cristã e a família", "o Brasil é exclusivo do Senhor Jesus e quem não gostar que saia do país”, "chuta que é macumba / Esse candidato está amarrado pelo demônio", "quem vota em candidato que frequenta terreiro está amaldiçoando o país". A versão de 2026 é mais crua, o candidato a vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar, repostou um vídeo de 2021 que descreve Lula recebendo uma homenagem de Zé Pilintra num terreiro de Umbanda como "prova de que ele é um falso católico", tentando incender o medo do eleitorado evangélico contra as religiões de matriz africana. Pior ainda, o candidato Pablo Marçal declarou publicamente que "se macumba funcionasse, a Bahia já seria Dubai" e que "todo macumbeiro é um fracassado na vida", falas que ultrapassam a fronteira da disputa política e configuram o que a lei brasileira define como racismo religioso. O deputado federal Orlando Silva já acionou a polícia e o Ministério Público da Bahia abriu investigação. Essas falas nunca ferem apenas um candidato: ferem milhões de brasileiros que têm no terreiro sua casa espiritual.
O mais alarmante é que essa manipulação da fé em nome da política está produzindo violência real. Em setembro de 2026, os brasileiros assistiram a uma sequência de destruições físicas de imagens sagradas, por exemplo, em Salvador, no bairro do Matatu, a imagem de Nossa Senhora das Graças foi encontrada despedaçada no chão da Igreja Senhor Bom Jesus dos Milagres antes da missa; em Londrina, uma loja de artigos católicos foi atacada três vezes em um mês, com quadros de São Miguel, Santa Luzia e Carlo Acutis chutados e destruídos; em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, duas estátuas de anjos foram derrubadas e quebradas na Catedral de São Pedro antes de uma crisma. Do outro lado, os terreiros sofrem uma violência ainda mais sistemática e muito menos visível. A pesquisa do MDHC em parceria com a UNIRIO mostra que, entre 255 terreiros consultados, 76% relataram ter sofrido racismo religioso e 93% dos terreiros com mais de 100 membros já passaram por esse tipo de violência. Quando uma minoria religiosa sofre ao mesmo tempo agressão física e silêncio institucional, a chamada "liberdade religiosa" vira letra morta.
Essa instrumentalização da fé parte de um equívoco fundamental sobre a Constituição brasileira. O Brasil é um Estado laico desde a Constituição republicana de 1891, e o artigo 19, inciso I, da Constituição de 1988 proíbe expressamente a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios de "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embarcar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". A neutralidade do Estado laico não é hostilidade à religião, pelo contrário, é a proteção igualitária de todas as crenças. Como apontam constitucionalistas, um Estado laico não adota nenhum credo religioso como base de decisões públicas, seja ele majoritário ou não, porque "a religião da maioria" também não pode ser razão legítima para oprimir a fé da minoria. Quando um candidato afirma que vai "consagrar o Brasil a Jesus Cristo" ou insinua que certas religiões são "do mal", ele não está exercendo liberdade religiosa, ele está sim usando a máquina do Estado para endossar um credo específico, exatamente o que a Constituição de 1988 proíbe.