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Flávio invocou Guaidó. Guaidó teve reconhecimento de dezenas de países — e fracassou.

Por Redação EG News • 28/10/2026 às 18h05 (Atualizado em 28/10/2026 às 18h07) • ⏱️ 14 min de leitura
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Na carta, o senador cita nominalmente Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado e escreve que "a história os chamou de outra coisa" · o venezuelano foi reconhecido pelos EUA e por mais de 35 países, inclusive o Brasil, e mesmo assim não derrubou Maduro · o governo interino foi encerrado pela própria oposição em 2022. 

28 de outubro de 2026

1 · A carta escolhe o próprio precedente

Na carta divulgada nesta quarta-feira (28) após desembarcar em Miami, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não se limitou a contestar o resultado eleitoral. Ele **nomeou os paralelos que reivindica**.

"Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa."

E, logo adiante, a frase que resume a operação retórica:

"Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele."

Além dos três venezuelanos, o texto menciona **José Martí** — que organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York —, o jurista **Rui Barbosa** e o general **Charles de Gaulle**. A imprensa registra ainda a menção a **Floriano Peixoto**.

Ao colocar Guaidó no mesmo parágrafo que Martí e De Gaulle, o senador procura **transformar a autoproclamação de um candidato derrotado em uma tradição histórica de resistência democrática**. Como todo precedente invocado publicamente, ele se torna verificável.

2 · O que Guaidó teve

Em **23 de janeiro de 2019**, Juan Guaidó — então presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, órgão controlado pela oposição — **se declarou presidente interino do país**, contestando a reeleição de Nicolás Maduro em 2018 e invocando o **artigo 233 da Constituição venezuelana**, que trata da vacância do cargo.

A base jurídica não era retórica. Ele era **presidente do Parlamento**, portanto na linha sucessória, e o Legislativo havia declarado o cargo do Executivo vago por considerar a reeleição ilegítima.

E, diferentemente do que ocorre agora, veio o reconhecimento em massa:

Elemento

Guaidó (2019)

Base constitucional

Artigo 233; presidia a Assembleia Nacional, na linha sucessória

Reconhecimento dos EUA

Sim — declaração formal do governo Trump, em 23 de janeiro de 2019

Outros países

Mais de 35, segundo registro do Congresso americano

Brasil

Reconheceu, no governo Jair Bolsonaro

Europa

Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Portugal, Dinamarca, entre outros

Américas

Colômbia, Argentina, Canadá, Peru, Paraguai, Guatemala, Costa Rica

Ativos venezuelanos

EUA bloquearam e transferiram controle ao governo interino

A declaração do governo americano de 2019 foi explícita ao justificar o reconhecimento: referia-se à Assembleia Nacional como *"o único ramo legítimo de governo devidamente eleito pelo povo venezuelano"*, que invocou a Constituição para declarar Maduro ilegítimo e a Presidência vaga.

3 · O que Flávio tem

A comparação exige colocar lado a lado, e o contraste é de natureza, não de grau.

Elemento

Guaidó (2019)

Flávio (2026)

Posição institucional

Presidente da Assembleia Nacional

Senador; deixa o mandato em 31/01/2027

Base jurídica invocada

Artigo 233 da Constituição

Nenhuma linha sucessória

Resultado eleitoral

Reeleição de Maduro contestada por ilegítima

Derrotado por mais de 4 milhões de votos (51,79% a 48,21%)

Reconhecimento dos EUA

Como presidente interino

Visto de entrada — não é reconhecimento como chefe de Estado

Outros países

Mais de 35

Nenhum

Perseguição alegada

Detenção de opositores, crise institucional

Disputou a eleição com direitos políticos garantidos

O dado decisivo é o penúltimo. **Os Estados Unidos concederam visto a Flávio e à família** — e o próprio presidente Donald Trump, ao confirmar a autorização, recusou-se a endossar a tese de que o senador seria o presidente eleito: *"Não vou comentar isso. Nós demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas não vou me envolver."*

Visto de entrada e reconhecimento como chefe de Estado são coisas distintas, e nenhum país tratou o caso brasileiro como o venezuelano.

4 · Como o modelo terminou

Há um segundo teste a que a comparação se submete: **o que aconteceu com Guaidó depois**.

A estratégia dele se apoiava em três frentes — **reconhecimento internacional, mobilização popular e pressão sobre as Forças Armadas**. As duas primeiras funcionaram em parte; a terceira nunca se concretizou. Maduro manteve o controle da maior parte do aparato militar, mesmo com as sanções e a pressão diplomática.

O desfecho, em ordem:

●        **2019** — os EUA bloqueiam ativos do governo venezuelano e transferem o controle ao governo interino. Maduro permanece no poder;

●        **anos seguintes** — o governo paralelo administra recursos e estrutura diplomática, sem controlar o Estado venezuelano;

●        **fim de 2022** — **a própria oposição venezuelana encerra o governo interino** que Guaidó liderava desde 2019;

●        **2023** — Guaidó deixa a Venezuela, passando pela Colômbia antes de chegar a Miami.

O resumo do ex-ministro Aldo Rebelo, à Band, é direto: *"Flávio quer ser Guaidó, um governo paralelo do Brasil nos EUA. O que é que virou o Guaidó, o pretenso governo paralelo da Venezuela? **Nada**."*

O ex-candidato Renan Santos cunhou outra expressão para a mesma ideia: uma ***"oposição EAD"*** — a oposição exercida à distância, sem presença no terreno onde se dá a disputa.

5 · O detalhe que inverte a ordem dos fatos

A comparação não nasceu na carta. **Ela foi plantada antes — pelo próprio coordenador da campanha.**

Segundo registro do Poder360, **Rogério Marinho já havia citado María Corina Machado ao falar de Flávio como oposição no exterior na terça-feira (27)** — véspera da carta. No dia seguinte, o senador levou a comparação para o documento, com os três venezuelanos nomeados e a frase sobre a história.

E o mesmo Marinho, no mesmo dia da carta, tratou o documento como **"desabafo"** e a autoproclamação como **"erro de confecção"** — além de dizer que não há provas de fraude eleitoral.

A sequência é o achado desta reportagem: **o campo forneceu o repertório histórico; o candidato o converteu em manifesto; e o campo, horas depois, recolheu-se ao tratar o texto como acidente.**

6 · O que a comparação faz, politicamente

Vale explicitar o efeito da analogia, porque ela não é neutra.

**Ao se comparar a opositores de uma ditadura, Flávio equipara o Brasil à Venezuela de Maduro.** É o que sustenta a leitura, registrada em análise do SBT News, de que a comparação **não encontra eco na realidade** e representa um ataque à democracia brasileira, cuja legitimidade é reconhecida internacionalmente — diferentemente do que ocorria sob o regime chavista.

O argumento é factual, e não opinativo: no Brasil, o senador **disputou a eleição com todos os direitos políticos garantidos**, obteve 48,21% dos votos válidos, e o resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral e reconhecido por organismos internacionais e pelo próprio PL.

6.1 O que a carta mantém depois do recuo

A primeira versão da carta apresentava Flávio como "o verdadeiro presidente eleito do Brasil"; ele republicou o texto **substituindo a expressão por "o líder do Brasil"**. O ajuste afasta a autoproclamação formal — e é relevante, porque era ela que aproximava o caso do roteiro de Guaidó.

Mas a carta manteve **a acusação de fraude, as críticas ao STF e ao TSE, o agradecimento a Trump e a Milei, a menção a Rogério Marinho como candidato ao Senado e a promessa de liderar a oposição dos Estados Unidos**. A analogia com os venezuelanos também permaneceu, com os nomes citados.

Segundo o Poder360, o senador pretende fazer **pronunciamentos regulares** e apresentar, nos próximos dias, uma **estratégia de mobilização** que classifica como "pacífica e legítima".

7 · O que observar

●        se algum país reconhece Flávio como autoridade — o que seria o único paralelo real com o caso Guaidó;

●        se os EUA mantêm a posição de conceder visto sem endosso político à tese de fraude;

●        se o senador mantém a retórica de exílio político ou ajusta o discurso após o recuo da autoproclamação;

●        como os opositores venezuelanos citados — María Corina Machado e Edmundo González — reagem à apropriação do próprio nome;

●        se a estratégia de mobilização anunciada se concretiza, e por quais meios;

●        se o campo bolsonarista sustenta a comparação ou a abandona, como fez Marinho ao tratar a carta como desabafo.

8 · Nota metodológica

A carta de Flávio Bolsonaro foi divulgada em 28 de outubro de 2026 por intermédio de aliados e republicada no perfil do senador, e sua íntegra é reproduzida por UOL, Metrópoles, Poder360, Veja, CNN Brasil, Correio Braziliense, Estadão e Band. As citações deste texto são transcritas desse documento.

As informações sobre a autoproclamação de Juan Guaidó em 23 de janeiro de 2019, a invocação do artigo 233 da Constituição venezuelana, sua condição de presidente da Assembleia Nacional, o reconhecimento pelos Estados Unidos e por mais de 35 países e o bloqueio de ativos venezuelanos constam de cobertura da época, do registro do Congressional Research Service dos Estados Unidos e da declaração oficial do governo americano de 23 de janeiro de 2019.

O encerramento do governo interino pela própria oposição venezuelana no fim de 2022 e a saída de Guaidó do país em 2023 são registrados pela CNN Brasil, pelo Metrópoles e pelo UOL.

A relação entre os dois casos — o que aproxima e o que separa — é analisada pelo UOL, pela CNN Brasil, pelo GPS Brasília e em análise do SBT News. A ausência de reconhecimento internacional a Flávio e a distinção entre a concessão de visto e o reconhecimento como chefe de Estado constam dessa cobertura.

As declarações de Donald Trump sobre a entrada do senador nos Estados Unidos e a recusa de endosso constam da cobertura de 28 de outubro. As frases de Aldo Rebelo são da Band; a expressão "oposição EAD" é atribuída a Renan Santos, por reportagem do Times Brasil.

A informação de que Rogério Marinho já havia citado María Corina Machado ao tratar de Flávio como oposição no exterior na terça-feira (27), antes da carta, é do Poder360. As declarações do senador tratando a carta como desabafo e a autoproclamação como erro de confecção, e a afirmação de que não há provas de fraude, constam de entrevista coletiva no Senado em 28 de outubro, reproduzida por Agência Brasil, Folha de S.Paulo, Valor Econômico, O Globo, CNN Brasil, Gazeta do Povo, Correio Braziliense e Jovem Pan.

O resultado eleitoral de 2026 — Lula com 51,79% e Flávio com 48,21% dos votos válidos — é do Tribunal Superior Eleitoral. A informação sobre a intenção de pronunciamentos regulares e a apresentação de estratégia de mobilização é do Poder360.

As menções a José Martí, Rui Barbosa, Charles de Gaulle e Floriano Peixoto, feitas na carta, são registradas pelo Metrópoles, pelo Poder360 e pelo Estadão. Este texto reproduz a autodescrição de Flávio e a submete à verificação documental do caso venezuelano, sem afirmar juízo sobre a conduta do senador.