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POLÍTICOS DO DF

O FCDF sob ataque pela terceira vez — e a bancada inteira contra

Por Redação EG News • 30/10/2026 às 08h44 (Atualizado em 30/10/2026 às 09h05) • ⏱️ 9 min de leitura
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Como uma regra escondida num projeto sobre combustíveis pode tirar R$ 1,8 bilhão do Distrito Federal em 2027 · 30 de outubro de 2026

1 · O que é o FCDF, em uma frase

O Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) é o dinheiro que a União repassa ao DF porque a Constituição manda. Não é convênio, não é emenda parlamentar, não é favor político: está no inciso XIV do artigo 21 da Constituição e foi regulamentado pela Lei nº 10.633, de 27 de dezembro de 2002.

O dinheiro custeia três áreas — e só essas três:

●        Segurança pública — Polícias Civil, Militar e Penal, e Corpo de Bombeiros Militar

●        Saúde

●        Educação

Na prática, é de onde sai o salário dos policiais, bombeiros, professores e profissionais de saúde do DF. A quase totalidade dos recursos vai para as forças de segurança — despesas de pessoal contínuas, que não se cortam sem desmontar estruturas que já existem.

2 · Os números

Item

Valor

Orçamento do FCDF em 2026 (União)

R$ 28,7 bilhões

Empenhado em 2026

R$ 22,5 bilhões

Pago em 2026

R$ 21,8 bilhões

Previsão do FCDF para 2027

R$ 29,5 bilhões

Orçamento total do DF em 2027

R$ 74,97 bilhões

Perda projetada com a nova regra

R$ 1,8 bilhão

Repare na proporção: o FCDF responde por quase 40% de tudo o que o Distrito Federal prevê arrecadar em 2027. Sem ele, o orçamento do DF não fecha — e não é ajuste de margem, é de estrutura.

3 · O que a nova lei fez

A Lei Complementar nº 235, de 27 de agosto de 2026, sancionada pelo presidente Lula, traz no artigo 14 duas travas. Elas só disparam quando o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias (RARDP) projeta déficit primário do governo central.

Trava 1 — limita o crescimento

As despesas vinculadas por lei — categoria em que o FCDF se encaixa — ficam limitadas ao índice de crescimento definido pelo arcabouço fiscal: no máximo 2,5% real ao ano.

Trava 2 — encolhe a base do reajuste

O outro inciso impede que determinadas receitas da exploração de petróleo entrem na base da Receita Corrente Líquida (RCL) — que é justamente o índice pelo qual o FCDF é corrigido.

É aqui que está o problema, e ele é aritmético

O FCDF é atingido pelas duas vias, e elas se somam: a primeira limita o percentual; a segunda reduz o valor sobre o qual esse percentual incide. Não é uma trava — são duas, aplicadas ao mesmo tempo, e exatamente nos anos de maior aperto fiscal.

4 · O detalhe que explica o método

O artigo 14 não cita o FCDF em nenhum momento. Ele fala de "despesas vinculadas à receita". O FCDF é uma delas — e cai na regra por consequência, não por decisão explícita.

E não foi votado como assunto próprio. A trava foi inserida dentro do PLP dos Combustíveis (PLP 114/2026), momentos antes da votação. A governadora Celina Leão resumiu o episódio: o texto foi "aprovado na surdina".

5 · Já tentaram duas vezes antes

Ano

Onde

Desfecho

2023

Novo Arcabouço Fiscal, relator na Câmara

Retirado no Senado

2024

Pacote emergencial de cortes de gastos

Retirado do texto final

2026

PLP dos Combustíveis (art. 14 da LC 235)

Aprovado e sancionado em agosto

A terceira tentativa foi a primeira a passar. Nas duas anteriores, o dispositivo caiu ainda na tramitação; nesta, chegou à sanção.

6 · O argumento jurídico do DF

A tese está na justificativa do PLP 250/2026, da senadora Leila Barros, e é direta: "O FCDF não constitui vinculação ordinária de política pública, mas o instrumento por meio do qual a própria União cumpre encargo que a Constituição lhe atribui".

Ou seja: não é o governo federal gastando por escolha — é o governo federal cumprindo uma obrigação que a Constituição criou. O Distrito Federal não recebe o FCDF; a União o paga.

E o próprio legislador já havia reconhecido isso

A Lei Complementar nº 200, de 2023 — o arcabouço fiscal — excluiu expressamente as despesas do inciso XIV do artigo 21 da Constituição da base de cálculo e dos limites individualizados de despesa primária. A natureza singular do FCDF já estava reconhecida em lei.

O que o artigo 14 da LC 235 fez foi desfazer essa exceção sem dizer que a estava desfazendo.

7 · A união da bancada — e por que ela importa

Na reunião de quinta-feira (29), na presidência da Câmara, estavam parlamentares da direita, da esquerda, da base e da oposição — nas palavras do vice-governador eleito Gustavo Rocha (Republicanos).

“A questão é tão importante para o DF que lá estavam parlamentares da direita, da esquerda, da base, da oposição, todos defendendo unidos a preservação do fundo constitucional”, disse ele.

Quem estava do mesmo lado

Parlamentar

Partido

Campo

Erika Kokay

PT

Base do governo

Agnelo Queiroz

PT

Base do governo

Fábio Félix

PSol

Esquerda

Bia Kicis

PL

Oposição

Michelle Bolsonaro

PL

Oposição

Izalci Lucas

PL

Oposição

Rafael Prudente

MDB

Centro — coordenador da bancada

Gustavo Rocha

Republicanos

Vice-governador eleito

O que isso significa

A defesa do FCDF não é pauta de governo nem de oposição: é pauta de Estado. Ninguém no Distrito Federal ganha eleição prometendo cortar a segurança pública da capital — e ninguém perde eleição por defendê-la.

É o tipo de matéria em que a aritmética do voto se sobrepõe à ideologia. Sem acordo entre campos que normalmente não se falam, não há maioria para reverter nada — e o corte de R$ 1,8 bilhão acontece por omissão, não por decisão.

Rafael Prudente, coordenador da bancada, já mapeou os apoios: PL, PP, MDB, PT e PSol. Izalci Lucas ficou responsável pela articulação no Senado.

8 · O que está em curso

No Congresso — o PLP 250/2026, da senadora Leila Barros (PDT-DF), acrescenta parágrafo único ao artigo 14 para dizer que as vedações "não se aplicam ao Fundo Constitucional do Distrito Federal". Está no Plenário do Senado, aguardando despacho desde 8 de setembro.

Caminhos alternativos — a bancada estuda dois: apresentar um novo projeto para retirar o artigo, ou incluir emenda de mesmo teor em outro projeto com tramitação avançada e aprovação considerada garantida.

No Supremo — o governo do DF acionou o STF em setembro para questionar a regra. A ação está com o ministro Cristiano Zanin.

A corrida contra o calendário — Prudente quer a reversão ainda em 2026, para que tenha efeito no orçamento de 2027. Se passar de dezembro, o corte entra em vigor e a discussão se arrasta pelo ano seguinte.

9 · Nota metodológica

Os valores do FCDF em 2026 vêm do Portal da Transparência (orçamento atualizado, despesas empenhadas e pagas). A previsão de R$ 29,5 bilhões para 2027 e a perda de R$ 1,8 bilhão são estimativas — a segunda é atribuída tanto à Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, quanto à Secretaria de Economia do DF, e as duas chegam ao mesmo número.

O texto do artigo 14 da LC 235/2026 é descrito a partir da justificativa oficial do PLP 250/2026, que o resume em dois incisos; a página do Planalto com a íntegra não estava acessível no momento do fechamento.

A projeção de corte não é corte consumado: é o que a regra nova produziria se o RARDP apontar déficit primário. Enquanto isso não estiver confirmado no relatório, o efeito é potencial — e todo o esforço da bancada é para que seja cancelado antes de valer.

 

 

 

 

Gustavo Rocha e parlamentares se encontraram com Motta para evitar mais uma ameaça ao FCDF - (crédito: Reproduçao)