Texas: a corrida mais cara da história americana e a chance democrata depois de 38 anos
Ken Paxton e James Talarico disputam a cadeira aberta por John Cornyn; grupos externos já gastaram mais de US$ 205 milhões, 98% deles pró-Paxton, e o voto latino virou a variável decisiva.
A corrida ao Senado pelo Texas é, em números absolutos, a mais caras da história americana em uma eleição não presidencial. E é também a primeira, em quase quatro décadas, em que os democratas chegam à reta final com chance real de vencer.
A votação é em 3 de novembro.
1 · Quem disputa
· Ken Paxton (republicano) — procurador-geral do Texas desde 2015. Conquistou a nomeação ao derrotar o senador John Cornyn no segundo turno da primária, em 26 de maio, por 63,8% a 36,2%.
· James Talarico (democrata) — deputado estadual por Austin e ex-professor de escola pública. Venceu a primária em 3 de março com 53,2%, contra 46,8% de Jasmine Crockett.
· Ted Brown (libertário) — corretor de seguros aposentado, foi o candidato libertário ao Senado em 2024.
A cadeira está aberta. Cornyn, no Senado há quatro mandatos, perdeu a renomeação — o que transformou um posto historicamente seguro em disputa de final aberto.
A primária democrata teve mais de 2,3 milhões de votos, recorde de participação do partido no estado.
2 · O dinheiro
O gasto total da corrida passa de US$ 560 milhões em publicidade — mais do que qualquer outra disputa não presidencial na história americana.
E o dinheiro externo está quase todo de um lado. Até 1º de outubro, grupos independentes haviam gasto mais de US$ 205 milhões, e mais de 98% apoiando Paxton, segundo análise do Texas Tribune sobre registros da Comissão Eleitoral Federal.
O maior gastador é o Texas PAC, super PAC ligado à liderança republicana do Senado, com US$ 131 milhões. Em setembro, Elon Musk doou US$ 158 milhões ao Senate Leadership Fund — que repassou o mesmo valor ao Texas PAC no dia seguinte a cada doação, segundo a CBS News.
Do lado democrata, o super PAC Moment of Truth informou a doadores que pretende gastar até US$ 62 milhões, e Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, fez uma doação de peso. Levantamento do Call the Map registra US$ 162,9 milhões em gastos externos pró-Talarico, distribuídos entre 43 grupos.
Na publicidade contratada diretamente pelas campanhas e aliados, a diferença também é grande: US$ 268 milhões republicanos contra US$ 130 milhões democratas.
3 · As pesquisas
Os levantamentos divergem, e a média depende de quem calcula. Em sete pesquisas divulgadas nas últimas três semanas:
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Instituto |
Período |
Resultado |
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Quantus Insights |
26–28/10 |
Paxton +1,1 (48,7% a 47,6%) |
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ActiVote |
22–28/10 |
Talarico +4,2 |
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254 Labs / YouGov Blue |
21–26/10 |
Talarico +8 (51% a 43%) |
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Texas Southern University |
21–25/10 |
Talarico +2 (empate estatístico) |
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CNN / SSRS |
20–27/10 |
Talarico +6 (49% a 43%) |
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Rasmussen Reports |
23/10 |
Empate em 45% a 45% |
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Marist Poll |
08–11/10 |
Talarico +2 |
As médias seguem essa dispersão: o PollingSource calcula D+5,7, o Call the Map aponta D+1,1 e o PollsMax projeta R+0,9. Cook Political Report, Sabato's Crystal Ball e Inside Elections classificam a corrida como empate técnico.
Um dado pesa contra Paxton: 42% dos prováveis eleitores o veem favoravelmente e 57% desfavoravelmente. Talarico tem 48% de favorabilidade contra 51% de rejeição.
4 · O histórico: 38 anos
Nenhum democrata é eleito ao Senado pelo Texas desde 1988 — há 38 anos. O último foi Lloyd Bentsen, que também venceu em 1970, 1976 e 1982. Antes dele, o último democrata havia sido Ralph Yarborough, reeleito em 1964.
E nenhum democrata venceu uma eleição estadual no Texas desde 1994.
A disputa mais próxima das últimas décadas foi em 2018, quando Beto O'Rourke perdeu para Ted Cruz por 50,9% a 48,3% — cerca de 215 mil votos de diferença. Em 2024, Cruz derrotou Colin Allred por 53,1% a 44,6%, e Trump venceu o estado por 13,7%.
5 · O que mudou: a virada do voto latino
O Texas ganhou mais de 2,5 milhões de novos moradores desde 2020 — aproximadamente a população inteira do Novo México — e tem hoje 6,7 milhões de latinos elegíveis para votar. Só a Califórnia tem mais.
Em 2024, esse eleitorado deu a Trump um giro de 27 pontos em relação a 2020, segundo dados do AP VoteCast — um dos movimentos mais fortes do país. Foi o que levou os republicanos a redesenhar, no meio da década, vários distritos de maioria hispânica no sul do estado, com a intenção de virá-los para o controle republicano.
Agora o movimento é no sentido oposto. Em média de pesquisas nacionais de qualidade, os democratas lideram entre eleitores hispânicos por 35 pontos (64% a 29%). No Texas, levantamento Univision/YouGov mostra Gina Hinojosa à frente de Greg Abbott por 52% a 43% entre latinos.
O motor apontado é econômico. Reportagem da Bloomberg registra que a insatisfação com Trump é generalizada entre latinos do Texas — hoje o maior grupo demográfico do estado — e que os temas de custo de vida pesam mais nesse eleitorado, que ganha menos.
6 · A leitura republicana
Os republicanos não tratam o movimento como definitivo. O deputado federal Ryan Guillen, do sul do Texas, disse ao Texas Tribune que "vai haver uma correção" — os latinos devem voltar à esquerda em parte — mas sustentou que a região é conservadora e que o piso do partido com esses eleitores segue mais alto do que era antes do giro à direita.
Há também heterogeneidade regional. No norte do Texas, o levantamento da Univision mostra Abbott liderando entre latinos por cerca de 10 pontos, e os republicanos à frente na disputa para a Câmara por 11 — na contramão do sul do estado.
7 · O sinal de janeiro
Um resultado fora do radar sugere que o terreno mudou. Em 31 de janeiro, a democrata Taylor Rehmet venceu uma eleição suplementar para o Senado estadual do Texas em um distrito que Trump havia ganhado por 17 pontos em 2024.
8 · O que observar em 3 de novembro
O sul do Texas. É onde o giro latino de 2024 foi mais forte e onde o redesenho dos distritos está sendo testado. Se o voto hispânico voltar à esquerda em volume, o efeito se espalha para as disputas da Câmara no estado.
A participação. A primária democrata bateu recorde. Numa corrida decidida por margens de um a dois pontos, o comparecimento vale mais do que qualquer conversão de voto.
O peso do dinheiro. Os republicanos gastaram mais de US$ 260 milhões em publicidade, contra US$ 130 milhões dos democratas. Se a vantagem de recursos não se traduzir em votos, a leitura sobre eficácia do gasto muda.
9 · Nota metodológica
Os percentuais de pesquisa são recortes de levantamentos identificados pelo instituto e pelo período no texto e na tabela: Quantus Insights, ActiVote, 254 Labs/YouGov Blue, Texas Southern University, CNN/SSRS, Rasmussen Reports e Marist Poll. Médias divergem por metodologia e ponderação — por isso as três projeções citadas apontam resultados diferentes.
Os valores de gasto externo são de análise do Texas Tribune sobre registros da Comissão Eleitoral Federal, referentes a 1º de outubro de 2026, e de levantamento do Call the Map. A doação de Elon Musk foi reportada pela CBS News a partir de registros da FEC.
Os dados históricos de 1964 a 2024 vêm do Texas Tribune, do New York Times e da NPR. Pesquisas são fotografias do momento da coleta, com margem de erro, e não previsão de resultado.