Edital Terracap: no apagar das luzes
Regularização ameaça caixa político e expõe guerra por controle em Vicente Pires
A Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) decidiu fazer o que a política local passou anos sabotando silenciosamente: colocou na rua o edital de regularização do Trecho 2 de Vicente Pires, e o que deveria ser um marco de ordem urbana virou uma disputa crua por dinheiro, influência e sobrevivência política.
O movimento partiu de Ibaneis Rocha no último dia de mandato, não por altruísmo institucional, mas como golpe calculado contra o Pastor Daniel de Castro, que viu ruir, de uma só vez, um dos pilares de sustentação de seu domínio político local.
Daniel não é um espectador nessa história, é peça central, porque foi administrador de Vicente Pires e assistiu, com tolerância conveniente, à explosão do parcelamento irregular no 26 de Setembro, transformando um bairro em cidade na base da ocupação descontrolada, avançando sobre áreas públicas e ignorando qualquer noção de planejamento urbano, enquanto Vicente Pires seguiu o mesmo roteiro de crescimento caótico, ocupação oportunista e omissão institucional.
Em 2022, o retorno veio nas urnas, com Daniel eleito deputado distrital, sustentado exatamente por essa base territorial e por sua estrutura religiosa, consolidando poder, influência e controle político sobre a região, inclusive com a manutenção indireta da administração regional sob sua órbita.
O edital ficou pronto em dezembro de 2025, foi discutido, combinado e até celebrado em encontros políticos, com data marcada para 2 de janeiro de 2026, mas travou porque Daniel não estava no centro da operação e, quando não controla, bloqueia.
Ibaneis recuou, não por prudência administrativa, mas por chantagem política explícita, tentando evitar que Daniel assinasse a CPI do BRB, escancarando o velho balcão de trocas que sustenta a política subterrânea do Distrito Federal.
Com a crise do BRB e do Banco Master se agravando, Daniel aumentou o preço, passou a negociar voto, silêncio e apoio, exigindo mais espaço, mais poder e mais garantias, chegando ao ponto de arrancar a promessa de controle da futura Administração Regional do 26 de Setembro, enquanto o governo cedia para sobreviver.
No último ato, porém, Ibaneis virou o jogo, autorizou a publicação do edital e desmontou a engrenagem, deixando Daniel sem controle sobre o processo e exposto politicamente.
A reação foi imediata e reveladora, com Daniel partindo para o ataque contra a Terracap, tentando transformar uma disputa de poder em um falso debate técnico sobre preços, numa narrativa conveniente para esconder o verdadeiro problema.
Mas, enquanto o discurso tenta ganhar tempo, a realidade já começou a atropelar a política, porque moradores aderiram ao edital, realizaram pagamentos e iniciaram o parcelamento dos lotes, criando uma situação concreta e irreversível no plano jurídico e administrativo.
A partir desta semana, a Terracap começa a entregar as primeiras escrituras e, nesta segunda-feira, dia 7 de abril, serão entregues os cinco primeiros títulos de propriedade, marco que consolida a regularização e praticamente enterra qualquer tentativa de suspensão do edital, já que passa a existir direito material consolidado nas mãos dos adquirentes.
O que está em jogo não é valor de lote, é o fim de um sistema.
A regularização fundiária atinge diretamente um mercado clandestino que já se consolidou no Rio de Janeiro e que se instalou, de forma silenciosa e organizada, no Distrito Federal, operado por grileiros de colarinho branco que atuam como empresários, mas funcionam como estrutura paralela de poder.
O modelo é conhecido e lucrativo, começa com a proteção ao parcelamento ilegal, segue com a blindagem contra fiscalização e termina com a cobrança sistemática de quem constrói e ocupa, criando um fluxo permanente de arrecadação paralela que, em ano eleitoral, se transforma em combustível de campanha.
Investigações da Polícia Civil do Distrito Federal e do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios apontam que esse sistema nasceu no Sol Nascente, avançou para Vicente Pires e encontrou no 26 de Setembro o ambiente ideal para se consolidar e se expandir.
Dentro dessa engrenagem, regularização é veneno, porque encerra o ciclo, elimina a dependência, mata a cobrança informal e retira o poder de quem vive da irregularidade, já que, com a escritura na mão, o morador deixa de pagar e o sistema colapsa.
É exatamente por isso que Daniel agora tenta barrar o edital, usando o discurso de preços abusivos como cortina de fumaça, enquanto, nos bastidores, empresários do solo pressionam, ameaçam abandonar o financiamento eleitoral e cobram a manutenção do modelo que os sustenta.
O preço nunca foi o problema, ele é apenas a narrativa.
O problema real é a perda de controle político, a quebra da arrecadação paralela e o risco concreto de campanhas esvaziadas, sem o fluxo de recursos que sempre alimentou esse sistema.
Não por acaso, em regiões como Colônia Agrícola Samambaia e Jóquei, onde esse modelo não se instalou, não houve resistência, não houve crise e não houve discurso inflamado, porque ali a regularização não ameaça estruturas de poder.
Em Vicente Pires e no 26 de Setembro, a situação é outra, e o que se vê não é debate urbano, mas uma disputa direta entre a legalidade e um sistema que depende da ilegalidade para continuar existindo.
A eleição se aproxima e o jogo já virou, porque, enquanto parte da política ainda tenta empurrar a regularização para depois das urnas, a escritura começa a chegar na mão do morador, desmontando, na prática, um sistema inteiro que sempre sobreviveu da promessa e jamais da solução.
EG NEWS