Doria declara voto em Flávio Bolsonaro, e a resposta é cobrança
O vídeo, a legenda evasiva e os comentários que pedem coerência — dois dias antes da votação
A declaração O ex-governador de São Paulo João Doria publicou, nesta sexta-feira 23 de outubro de 2026, um vídeo em que declara voto no senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. A votação é no domingo, 25 de outubro.
A declaração não está apenas na fala: está escrita na tela, em texto sobreposto à imagem, e aparece em três momentos da gravação. Doria afirma "meu voto é Flávio Bolsonaro", registra que "porque meu voto será Flávio Bolsonaro neste domingo" e resume o posicionamento na frase "contra Lula e a favor do Brasil". O vídeo tem cerca de três minutos e o áudio é original, sem trilha.
Publicado no perfil do próprio Doria no Instagram, o vídeo acumulava 17,9 mil curtidas cerca de duas horas depois de ir ao ar, com 5,9 mil comentários.
O contraste entre a legenda e o vídeo
• A legenda da publicação é apenas "A favor do Brasil", acompanhada da bandeira do país. Não há nome de candidato, de partido, número de urna nem referência a Lula. O nome de Flávio Bolsonaro e o posicionamento contra Lula aparecem somente dentro do vídeo, em texto na tela e na fala. A legenda, que é o que permanece indexável e o que sobrevive ao compartilhamento isolado, não carrega a declaração.
O que ele diz sobre Lula e sobre a reeleição
No vídeo, Doria sustenta que o presidente Lula perdeu a chance de governar o Brasil pacificando o país e afirma que ele passou quatro anos intimidando pessoas e fazendo julgamento, em vez de governar. A passagem transcrita é esta: "O governo Lula estimulou o confronto entre pobres e ricos. O governo Lula apoiou extremistas contra o povo judeu. Insuflou o Brasil do Nordeste contra o Sul. O Brasil é um só. Uma só nação, um só país, um só povo."
Doria também manifesta apoio ao fim da reeleição para cargos do Executivo, pauta que atribui à campanha de Flávio Bolsonaro e que diz defender também. É o único ponto programático que ele menciona na gravação.
O ex-governador afirma ainda que a decisão é de caráter pessoal e que não envolve o LIDE, o grupo empresarial de lideranças que ele fundou e do qual é presidente. O esclarecimento antecipa uma leitura que a publicação recebeu de imediato: a de que o apoio teria motivação empresarial, e não apenas política.
A leitura não surgiu do nada. Antes do vídeo, a coluna Painel S.A., da Folha de S.Paulo, havia registrado que Doria dizia a pessoas próximas ser favorável à eleição de Flávio Bolsonaro. O vídeo, portanto, tornou pública uma posição que já circulava em conversas de bastidor — e o cuidado de separar a decisão pessoal do LIDE sugere que o ex-governador antecipava a associação entre as duas coisas.
O histórico que dá peso à declaração
O apoio ganha significado pelo que veio antes dele. Doria e a família Bolsonaro têm um histórico de aliança e ruptura que atravessa quase uma década de política brasileira, e o vídeo de sexta-feira é o ponto mais recente dessa trajetória.
Table 1. A trajetória de aliança e ruptura entre Doria e o campo bolsonarista
| Período | O que aconteceu |
| 2018 | Doria associa sua campanha ao governo de Jair Bolsonaro para se eleger governador de São Paulo, numa articulação que ficou conhecida como "Bolsodoria". A relação começa a se deteriorar já em 2019, por disputas políticas regionais e nacionais |
| Setembro de 2019 | Jair Bolsonaro ironiza as intenções presidenciais de Doria em entrevista à Folha de S.Paulo, usando a expressão "ejaculação precoce política" e dizendo que o governador estava politicamente morto |
| Outubro de 2020 | A ruptura se aprofunda na pandemia. Doria adota isolamento social e uso de máscaras e viabiliza a vacina CoronaVac. Em entrevista à Rádio CBN, chama Bolsonaro de "notório negacionista" e afirma que ele "se notabilizou internacionalmente como negacionista", criticando o incentivo à cloroquina e o desestímulo ao uso de máscaras e ao isolamento. Bolsonaro responde chamando-o de "nanico projeto de ditador", na saída do Palácio da Alvorada, por causa da defesa da obrigatoriedade da vacina |
| Ao longo do período | Bolsonaro recorre a apelidos e deboche para desqualificar o governador, entre eles "calcinha apertada" e "moleque", em declarações e transmissões ao vivo |
| Depois de 2022 | Fora do governo de São Paulo, Doria faz acenos públicos ao governo Lula e chega a pedir desculpas por excessos verbais do passado, segundo registros da imprensa sobre sua trajetória |
| 23 de outubro de 2026 | Publica vídeo declarando voto em Flávio Bolsonaro e posicionamento contra Lula, a dois dias do segundo turno |
O contraste entre a trajetória e a declaração é o que explica a reação que a publicação recebeu. Quem acompanha política brasileira há uma década reconhece no vídeo de sexta-feira um reposicionamento — e foi exatamente isso que os comentários apontaram.
A reação: cobrança, mais do que adesão
Os 5,9 mil comentários do vídeo não formam um bloco de apoio. O que eles revelam é outra coisa: cobrança de coerência. Os comentários mais curtidos da publicação não defendem Lula — questionam Doria pelo que ele próprio disse e fez no passado.
Table 2. Os comentários mais curtidos da publicação, com o número de curtidas de cada um
| Comentário | Curtidas |
| "É, João... você não só se esqueceu do que foi o governo Bolsonaro, mas parece ter se esquecido do que o bolsonarismo fez com você. Uma vergonha." | 1.194 |
| "Que triste, acho que o senhor esqueceu o que aconteceu na pandemia e vai cometer novamente o erro de apoiar essa família." | 608 |
| "Parabéns pelo posicionamento, ainda que tardio!" | 239 |
| "Destruíram sua carreira e você vem com esse mi-mi-mi" | 182 |
| "Ahhhh que decepção @jdoriajr Depois de tudo que passamos na Pandemia!? Que triste..." | sem contagem visível |
| "Bora Lula" | 102 |
O padrão que emerge dessas mensagens é consistente: as três com maior engajamento tratam de memória e coerência, não de preferência eleitoral. A menção à pandemia aparece em duas delas, e não por acaso: foi no enfrentamento da Covid-19 que Doria construiu a oposição mais dura a Jair Bolsonaro, chamando-o publicamente de negacionista em defesa da vacinação. É esse episódio específico, e não uma rivalidade genérica, que os comentários trazem de volta ao centro da discussão. Nem mesmo o comentário mais favorável — "parabéns pelo posicionamento" — deixa de registrar a ressalva "ainda que tardio".
Há, no conjunto, três registros distintos. Um primeiro, de eleitores que se sentem traídos pelo que consideram esquecimento do passado recente, e que é o mais curtido. Um segundo, minoritário, de adesão ao voto em Flávio, com ressalvas. E um terceiro, de militância antipetista explícita, que aparece em mensagens curtas de apoio a Lula ou de celebração do resultado.
Limite do que estes dados mostram
• Os comentários de uma publicação são uma amostra enviesada: são, em sua maioria, de pessoas que já seguiam o perfil e foram expostas ao conteúdo — não representam o eleitorado. Servem como termômetro da reação de quem acompanha o ex-governador, e não como medida de apoio ou rejeição pública à sua declaração. A matéria também não tem registro de reação oficial da campanha de Flávio Bolsonaro ao apoio, e por isso não faz afirmação sobre ela.
O que está em jogo nos dois dias restantes
A declaração de Doria acontece em um momento de movimentações públicas concentradas na reta final. Nos últimos dias, apoios e posicionamentos de figuras políticas se multiplicaram, e a carta assinada por bispos católicos sobre o segundo turno — divulgada em 22 de outubro e ainda em coleta de adesões até o dia 24 — se somou ao conjunto de manifestações que buscam influenciar o eleitorado antes da votação.
O caso de Doria tem uma característica própria: é uma declaração inequívoca de voto, expressa em texto na tela, publicada por quem tem um histórico documentado de oposição à família Bolsonaro. O valor informativo não está em saber que um político declarou apoio a outro, mas em observar quem o declarou, de que forma declarou e como o público respondeu.
Nota metodológica: este texto se baseia na publicação feita por João Doria em seu perfil no Instagram em 23 de outubro de 2026, incluindo a legenda, o texto sobreposto ao vídeo e os comentários visíveis na publicação, com os números de curtidas registrados no momento da consulta. A referência à nota da coluna Painel S.A., da Folha de S.Paulo, é feita como registro de bastidor, sem reprodução de conteúdo não consultado em fonte direta. O histórico de conflitos entre Doria e o campo bolsonarista está relatado a partir de registros públicos da imprensa brasileira sobre a trajetória dos dois, com os períodos identificados. Não há, neste material, apuração da reação oficial da campanha de Flávio Bolsonaro ao apoio.