Itaú lucra R$ 12,6 bilhões e faz 23,6% de ROE — o dobro do Santander
Enquanto o Santander registra a terceira queda seguida e o Bradesco vê a ação desabar 37% mesmo com lucro em alta, o Itaú entrega o trimestre mais sólido do setor — e mantém a inadimplência estável.
O Itaú Unibanco reportou lucro líquido recorrente de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre de 2026, com retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 23,6%. São números que colocam o banco em outro patamar dentro do setor: o ROE é o dobro do Santander Brasil e quase 50% superior ao do Bradesco.
O resultado veio levemente abaixo do consenso da Bloomberg, que projetava R$ 12,714 bilhões, e o ROE ficou um pouco aquém do esperado (23,8%). Mas o balanço confirma o apelido que o mercado dá ao banco — "relógio suíço" do setor financeiro —, num trimestre em que os concorrentes trouxeram preocupação.
1 · Os números do trimestre
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Indicador |
3T26 |
Variação |
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Lucro líquido recorrente |
R$ 12,6 bilhões |
+6,2% em 12 meses |
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ROE (retorno sobre patrimônio) |
23,6% |
+0,3 p.p. em 12 meses |
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Carteira de crédito expandida |
R$ 1,544 trilhão |
+10,4% em 12 meses |
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Margem financeira gerencial |
R$ 34,6 bilhões |
+7,8% em 12 meses |
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Margem financeira com clientes |
R$ 33,3 bilhões |
+6,9% em 12 meses |
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Receita de serviços |
R$ 11,0 bilhões |
-0,1% em 12 meses |
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Despesas administrativas e de pessoal |
R$ 17,1 bilhões |
+1,7% em 12 meses |
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Provisões para calotes (PDD) |
R$ 10,7 bilhões |
+9,6% em 12 meses |
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Inadimplência acima de 90 dias |
2,0% |
estável |
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Índice de eficiência |
37,5% (consolidado) |
35,7% no Brasil |
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Índice de Basileia |
15,4% |
estável |
2 · Os três grandes bancos lado a lado
A comparação entre os balanços do trimestre explica por que o Itaú é tratado como um caso à parte no setor:
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Itaú |
Bradesco |
Santander BR |
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Lucro |
R$ 12,6 bi |
R$ 7,1 bi |
R$ 2,88 bi |
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Variação anual |
+6,2% |
+14,6% |
-28% |
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ROE |
23,6% |
16,1% |
11,9% |
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Inadimplência 90 dias |
2,0% |
4,4% |
3,4% |
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Tendência |
estável |
melhora no lucro |
3ª queda seguida |
O Itaú é o único que combina rentabilidade alta com inadimplência baixa. Um ROE de 23,6% acompanhado de 2,0% de atrasos acima de 90 dias é um patamar que os concorrentes não alcançam — e o índice ficou estável, na casa dos 2%, mesmo com a carteira de crédito crescendo 10,4% em doze meses.
O crescimento foi puxado por crédito imobiliário (+4,4%) e consignado.
O Bradesco é o caso mais curioso dos três. O lucro subiu 14,6% — o maior crescimento do grupo — e o ROE de 16,1% veio acima do esperado pelo mercado, que projetava 15,9%. Ainda assim, a ação do banco acumula queda de 37% desde a eleição.
O Santander é o caso realmente deteriorado. Foram três quedas trimestrais consecutivas de lucro, com recuo de 28% na comparação anual. O ROE caiu de 17,5% para 11,9% em doze meses, e a inadimplência de pessoa física chegou a 5,5%, alta de 1,3 ponto percentual no período.
3 · O sinal de alerta dentro do balanço
Há um número no resultado do Itaú que merece atenção e que o mercado acompanha de perto: as provisões para devedores duvidosos (PDD) subiram 9,6% em doze meses, para R$ 10,7 bilhões.
É o custo que o banco reconhece por empréstimos que podem não ser pagos. O crescimento das provisões acima do crescimento da carteira sinaliza que a qualidade da originação está sendo testada num ambiente de juros altos — a Selic está em 13,75% ao ano desde setembro.
O índice de eficiência de 37,5% no consolidado e 35,7% no Brasil é o contraponto positivo: mostra que o banco gasta relativamente pouco para gerar receita, e é o que sustenta a rentabilidade elevada mesmo com receita de serviços estagnada (-0,1% em doze meses).
4 · O paradoxo: balanço melhor, ação em queda
Aqui está o ponto mais importante do trimestre — e ele não aparece em nenhuma linha do balanço.
A queda das ações dos bancos não acompanha a deterioração dos resultados. O Bradesco melhorou o lucro e perdeu 37% em bolsa. O Itaú entregou 23,6% de ROE e caiu 26% desde a eleição. O setor financeiro inteiro recuou em bloco no pregão da terça-feira (3).
A explicação está fora dos balanços: o mercado não está precificando banco, está precificando país. Desde o segundo turno, de 25 de outubro, o Ibovespa caiu em todas as sessões, acumulando 18,12% de perda na semana e mais de 20% desde o recorde de outubro — a fronteira técnica de um bear market.
Os vetores são conhecidos: o primeiro Boletim Focus pós-eleição elevou as projeções de inflação e de dólar para quatro anos, a incerteza fiscal segue sem resposta definida, e o Copom decide a Selic nesta quarta-feira (4) com a maioria do mercado apostando em manutenção dos juros em 13,75%.
É essa distância entre fundamento e preço que sustenta a leitura do Morgan Stanley de que a reação foi excessiva: o banco mantém recomendação de compra para o Bradesco, avaliando que a ação negocia a 0,7 vez o valor patrimonial, perto das mínimas da última década.
5 · O que o mercado esperava
O consenso apontava para um trimestre "sólido, com poucas surpresas", na avaliação do Citi. As casas ouvidas destacavam:
· Safra — qualidade dos ativos e disciplina de custos sustentando o lucro, mesmo com crescimento mais moderado dos empréstimos e receitas com tarifas fracas
· Itaú BBA — trimestre modesto, com a deterioração de algumas linhas compensada pela migração da carteira para segmentos mais garantidos e de menor risco
· Genial Investimentos — projeção de lucro recorrente de R$ 50,5 bilhões para 2026 (+7,9% no ano) e R$ 56,5 bilhões para 2027
A avaliação geral se confirmou: o banco entregou um trimestre previsível, sem surpresas negativas, e manteve a trajetória de rentabilidade.
6 · Nota metodológica
Os dados do balanço do Itaú foram apurados em material do Valor Econômico, do Valor Investe, do Money Times, do Finance News e do próprio Itaú Unibanco (release de resultados), de 3 de novembro de 2026. Os dados do Bradesco são do balanço divulgado em 22 de outubro, com reportagens do InfoMoney, do Estadão, do Poder360 e do Money Times. Os do Santander Brasil são do Informe de Resultados do banco e de material do Valor Investe, da Exame, do Money Times, do UOL e do Estadão, de 28 de outubro.
A inadimplência acima de 90 dias do Bradesco aparece como "4,4%" na tabela com base na leitura das fontes disponíveis; o dado exato consta do balanço do banco, e o número deve ser conferido no release oficial antes de qualquer republicação, porque o trecho consultado não trazia o valor completo.
O consenso de mercado para o resultado do Itaú — lucro de R$ 12,714 bilhões e ROE de 23,8% — vem da compilação da Bloomberg. A projeção de R$ 12,5 bilhões citada pelo Valor Investe é de outra base de mercado, o que explica a diferença de avaliação sobre o resultado ter ficado "levemente acima" ou "levemente abaixo" do esperado.
Nota de data: esta reportagem registra o balanço do Itaú Unibanco referente ao terceiro trimestre de 2026, divulgado em 3 de novembro de 2026, e o pregão daquele dia. O resultado veio a público após o fechamento do mercado, e a teleconferência com analistas ocorreu em 4 de novembro. A reação das ações do banco na sessão seguinte não está contemplada neste texto, por ter ocorrido depois do fechamento desta edição.
As projeções da Genial Investimentos para 2026 e 2027 são estimativas de casa de análise, não resultados. Esta reportagem não faz recomendação de investimento e não antecipa o desempenho futuro dos papéis.