O poder e a magia das águas: o que estamos fazendo com o nosso maior tesouro? (El poder y la magia de las aguas: ¿qué estamos haciendo con nuestro mayor tesoro?)
Coluna Walter Pinaya / Columna Walter Pinaya
Toda grande civilização nasceu abraçada por um rio ou por um mar. A Mesopotâmia floresceu entre o Tigre e o Eufrates. O Egito antigo se ergueu às margens do Nilo, e Heródoto chegou a dizer que "o Egito é uma dádiva do rio". A Índia védica bebeu do Ganges e do Indo. A China plantou suas primeiras cidades junto ao Huang He e ao Yangtzé. Muito antes disso, nossos ancestrais já cruzavam oceanos em canoas frágeis, movidos por coragem e fome de mundo. Sem água, não haveria plantio, não haveria comércio, não haveria encontro entre povos. A pesca, em especial, foi uma das primeiras grandes escolas da humanidade que ensinou paciência, cooperação, leitura dos ciclos da lua e das marés, respeito pelos limites da natureza. Pescadores antigos foram também os primeiros navegadores, os primeiros cartógrafos, os primeiros a perceber que o mundo era maior do que a aldeia onde nasceram.
Toda gran civilización nació abrazada por un río o por un mar. Mesopotamia floreció entre el Tigris y el Éufrates. El antiguo Egipto se levantó a orillas del Nilo, y Heródoto llegó a decir que "Egipto es un regalo del río". La India védica bebió del Ganges y del Indo. China plantó sus primeras ciudades junto al Huang He y al Yangtsé. Mucho antes de eso, nuestros ancestros ya cruzaban océanos en canoas frágiles, movidos por coraje y hambre de mundo. Sin agua, no habría cultivo, no habría comercio, no habría encuentro entre pueblos. La pesca, en especial, fue una de las primeras grandes escuelas de la humanidad que enseñó paciencia, cooperación, lectura de los ciclos de la luna y de las mareas, respeto por los límites de la naturaleza. Los pescadores antiguos fueron también los primeros navegantes, los primeros cartógrafos, los primeros en notar que el mundo era más grande que la aldea donde nacieron.
Mas a água nunca foi só recurso. Ela é sagrada. Na tradição africana, Iemanjá é a mãe cujas águas deram origem a tudo, e ao atravessar o Atlântico ela se tornou a rainha do mar que protege pescadores, marinheiros e todos os que vivem da costa. Na mitologia nórdica, Ægir e Ran governam as profundezas, e suas nove filhas são as ondas que embalam e engolem embarcações. Nas tradições asiáticas, dragões não são monstros, são guardiões das chuvas e dos rios, e os Nāga habitam palácios submersos guardando tesouros espirituais. No Brasil, as religiões de matriz africana e os povos originários sempre souberam o que a ciência hoje confirma, a água é o elemento que mais absorve, conduz e transforma energia. Ela guarda memória. Ela sente. Ela responde.
Pero el agua nunca fue solo un recurso. Es sagrada. En la tradición africana, Yemanjá es la madre cuyas aguas dieron origen a todo, y al cruzar el Atlántico se convirtió en la reina del mar que protege a pescadores, marineros y a todos los que viven de la costa. En la mitología nórdica, Ægir y Ran gobiernan las profundidades, y sus nueve hijas son las olas que mecen y se tragan embarcaciones. En las tradiciones asiáticas, los dragones no son monstruos, son guardianes de las lluvias y de los ríos, y los Naga habitan palacios sumergidos guardando tesoros espirituales. En Brasil, las religiones de matriz africana y los pueblos originarios siempre supieron lo que la ciencia hoy confirma: el agua es el elemento que más absorbe, conduce y transforma energía. Ella guarda memoria. Ella siente. Ella responde.
E talvez seja por isso que a água nos toca tão fundo. Nosso corpo é feito majoritariamente de água, e o planeta também. Existe uma correspondência silenciosa entre o que fazemos com os rios e o que acontece dentro de nós. Quando poluímos uma nascente, adoecemos junto. Quando canalizamos um rio sem respeito, secamos uma parte da nossa própria história. Quando destruímos um manguezal, apagamos um berçário de vida e também um lugar de memória coletiva. A água não é só paisagem. É espelho. E o que ela tem refletido de volta para nós não é bonito.
Y tal vez sea por eso que el agua nos toca tan profundo. Nuestro cuerpo está hecho mayoritariamente de agua, y el planeta también. Existe una correspondencia silenciosa entre lo que hacemos con los ríos y lo que pasa dentro de nosotros. Cuando contaminamos un manantial, enfermamos junto con él. Cuando canalizamos un río sin respeto, secamos una parte de nuestra propia historia. Cuando destruimos un manglar, borramos un criadero de vida y también un lugar de memoria colectiva. El agua no es solo paisaje. Es espejo. Y lo que ella ha reflejado de vuelta hacia nosotros no es bonito.
Os números confirmam. O terceiro Relatório Mundial sobre os Oceanos da ONU, divulgado em 2026 com a contribuição de quase 600 cientistas de 86 países, foi claro, os oceanos estão sob "estresse severo". O nível do mar subiu de 2 mm por ano antes de 2015 para 4,3 mm por ano em 2023. Cerca de 16% de todo o calor acumulado nos oceanos desde 1955 aconteceu depois de 2018. São 52,1 milhões de toneladas de plástico entrando no mar a cada ano, virando 24,4 trilhões de partículas de microplástico que já alcançam mais de 4 mil espécies marinhas. Na Europa, apenas um em cada três estoques de peixes e frutos do mar está em bom estado. No Mediterrâneo, as ondas de calor marinhas ficaram três vezes mais frequentes e 50% mais longas desde os anos 1980. No Brasil, a pesca predatória, a especulação imobiliária no litoral e a poluição dos rios amazônicos seguem pressionando ecossistemas que deveriam ser intocáveis.