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De pau-de-arara a dono do pedaço: o nordestino que fez Brasília e não pediu licença

Por Redação EG News • 08/10/2026 às 12h10 (Atualizado em 08/10/2026 às 12h11) • ⏱️ 5 min de leitura
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Coluna Walter Pinaya

Se você anda pelas feiras de Ceilândia num sábado de manhã, o que mais escuta é isso. Não é exagero. Brasília tem a cara do Nordeste e não é de hoje. Os números oficiais mostram que mais de 639 mil pessoas que moram no DF vieram da região nordestina, o que dá metade de todo mundo que chegou de fora. Contando filhos e netos, quase 70% da população da capital tem raiz no Nordeste. Só que antes de virar estatística, essa gente foi gente de carne e osso, subiu num pau-de-arara, enfrentou estrada de chão e chegou aqui com uma mala velha e um sonho grande.

Ceilândia é o coração disso tudo. A cidade foi oficialmente reconhecida como a "Capital da Cultura Nordestina" do DF pela Lei Distrital 6.474 de 2019, e não é à toa. Quem chega na Feira Central sente logo o cheiro de baião de dois, o som do repente saindo de um bar, o sotaque puxado no "r". Mais de 60% da população local vem de estados como Maranhão, Ceará, Paraíba e Bahia. A Candangolândia também é um reduto forte, com mais de 65% de moradores nordestinos. É nessas RAs que a saudade de casa vira forró no fim de semana, e o acarajé da tarde vira ponto de encontro.

As histórias de chegada são de arrepiar. Seu Carlito saiu de Ipú, no Ceará, em 1957, e levou 29 dias dentro de um caminhão pau-de-arara até Brasília. Ele veio porque diziam que aqui "juntava dinheiro a rodo". Chegou, virou pedreiro na construção civil e em 1962 abriu uma oficina que funciona até hoje. Já Josefa veio do Ceará com 30 anos atrás de um amor. Hoje aposentada, ela ajuda o marido numa barraca de roupas na Feira Central de Ceilândia. E tem também Seu Cícero, que chegou em 5 de janeiro de 1968 depois de cinco dias de viagem e um ônibus que quebrou três vezes no caminho. Veio pra trabalhar na construção, foi servente, teve loja de tecidos por 12 anos.

Mas não é só de trabalho que esse povo fez Brasília. A cultura nordestina virou a alma da cidade. Na Ceilândia, os repentistas se apresentam na Feira da Guariroba em festivais que reúnem cantadores de todo o DF e Entorno. Os forrós de antigamente, que eram chamados de "coisa de peãozada", hoje são patrimônio cultural. E quando chega junho, o São João toma conta. A advogada cearense Laís sente falta da paçoca de carne de sol com farinha e das brincadeiras do Ceará, mas vai nas festas das igrejas pra matar a saudade. A enfermeira aposentada Rosa Maria, do Maranhão, faz questão de cozinhar canjica e cuscuz pra família e ensinar os netos a manter a tradição. Isso é resistência, oxe. É pegar o que se tem e transformar.

E olha que esse povo não desiste fácil. O vocabulário diz tudo: "pelejar" é tentar até a exaustão, "arretado" é o que é bom demais, "aperreado" é quem tá na luta. Desistir não tá no dicionário. Se demora mais, paciência. Se o caminho é longo, a gente vai arrodeando. O nordestino que chegou em Brasília com uma mão na frente e outra atrás construiu a capital, levantou Ceilândia, abriu feira, criou filho, mandou dinheiro pra família e ainda achou tempo pra contar um causo e rir da própria desgraça. Um xerô pra essa gente arretada que fez de Brasília um pedaço do Nordeste no coração do Brasil. E um xerô para todas minhas amigas e meus amigos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. E viva o dia do nordestino, todo dia. #NordestinoSimSenhor #OrgulhoNordestino #BrasiliaTemSotaque #WalterPinayaNoEGNews #EGNews