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OUTUBRO PRATA – MÊS DE VALORIZAÇÃO DA PESSOA IDOSA

Por Redação EG News • 15/10/2026 às 09h21 (Atualizado em 15/10/2026 às 09h29) • ⏱️ 12 min de leitura
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Outubro é o Mês das Pessoas Idosas: especialista do HUB destaca a importância de se preparar para envelhecer
Quando a velhice é retratada como doença, dependência e despesa, reforçam-se preconceitos que podem influenciar políticas públicas e relações familiares
 
Brasília (DF) – A campanha “Outubro Prata” é um esforço nacional dedicado à valorização da pessoa idosa e à promoção de políticas públicas que permitam um envelhecimento saudável e ativo, além do combate ao etarismo.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 13% da população brasileira têm mais de 60 anos e que, a partir de 2031, haverá mais idosos do que crianças e adolescentes. Já em 2042, essa população alcançará o número de 57 milhões de pessoas. Os números acendem um alerta e levantam questionamentos que não podem ser adiados: o Brasil está estruturalmente preparado para o envelhecimento acelerado de sua população? O brasileiro está se preparando da forma correta para envelhecer?
 
Para falar sobre isso, conversamos com o médico geriatra Marco Polo Dias Freitas, chefe do Serviço de Geriatria do Hospital Universitário de Brasília, da Universidade de Brasília (HUB-UnB), integrante da HU Brasil.  Confira a entrevista:
 
Qual é o perfil atual dos idosos brasileiros?
 
Segundo o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), cerca de 70% das pessoas idosas são completamente independentes e autônomas, ou seja, não apresentam dificuldades e são totalmente independentes para realizar suas atividades cotidianas. Um em cada três idosos (aproximadamente 30%) apresenta algum grau de limitação funcional ou dependência de cuidados. A limitação funcional é mais prevalente em mulheres idosas que em homens idosos. E o grau de dependência é fortemente influenciado pela idade: enquanto na faixa de 60 a 69 anos aproximadamente 14% registram limitações, o índice salta para 44% entre idoso com 80 anos ou mais.
 
O estudo também destaca um ponto crítico no país: embora a maioria das pessoas idosas seja autônoma, entre a minoria que tem limitações e depende de suporte apenas 38% recebem ajuda de fato, evidenciando uma forte sobrecarga nas redes de apoio familiares e a carência de políticas formais de cuidado.
Outro aspecto importante é que a pessoa idosa brasileira não é apenas destinatária de cuidados: ela também contribui para a economia, para a organização das famílias e para a comunidade. Aposentadorias e pensões sustentam muitos domicílios, e pessoas idosas frequentemente ajudam a cuidar de netos, companheiros e outros familiares. Cerca de 70% dos municípios brasileiros dependem da renda de aposentadorias e pensões para movimentar suas economias.
 
Logo, não existe um perfil único de pessoa idosa no Brasil. Estamos falando de uma população muito heterogênea, que reúne pessoas de 60 a 90 anos ou mais, com diferentes condições de saúde, escolaridade, renda, histórias de vida e níveis de autonomia. Precisamos deixar de enxergar a velhice como uma condição uniforme.
 
Quais mudanças nas políticas públicas são necessárias para acolher as pessoas idosas e melhorar sua qualidade de vida?
 
A primeira mudança é compreender que o envelhecimento populacional exige uma política de Estado integrada, contínua e planejada. Não basta ampliar serviços de saúde quando as pessoas adoecem. Precisamos organizar cidades, sistemas de proteção social, moradias, transportes e serviços de cuidado para uma sociedade em que viver até idades avançadas será cada vez mais comum.
 
A geriatria ensina que o objetivo não deve ser apenas tratar doenças isoladamente. É necessário preservar a mobilidade, a cognição, a saúde mental, a segurança no uso dos medicamentos e a capacidade de realizar as atividades cotidianas. Isso requer avaliação multidimensional e planos de cuidado individualizados.
 
Outra prioridade é tornar as cidades mais acessíveis: calçadas regulares, travessias seguras, transporte público acessível, iluminação, bancos para descanso, banheiros públicos e moradias adaptadas.
 
Por fim, precisamos considerar a diversidade da população idosa. Políticas eficazes devem enfrentar desigualdades de renda, gênero, raça, território e deficiência, garantindo acesso real aos direitos, e não apenas sua previsão na legislação.
 
Quais são os impactos do etarismo estrutural no bem-estar das pessoas idosas? Como enfrentá-lo?
 
O etarismo, ou a discriminação por idade, ocorre quando uma pessoa é julgada, desvalorizada ou tratada de forma injusta por causa de sua idade. Pode aparecer em atitudes individuais, em práticas institucionais e em normas sociais que pressupõem que todas as pessoas idosas são frágeis, improdutivas, incapazes de aprender ou dependentes. Um exemplo disso é o símbolo da pessoa idosa que foi utilizado até pouco tempo: uma pessoa encurvada, com uma bengala na mão, sendo que a maioria dos idosos não é assim.
 
O etarismo estrutural é especialmente preocupante porque está incorporado às regras, aos processos e à cultura das organizações. Pode se manifestar, por exemplo, quando trabalhadores mais velhos são preteridos sem avaliação de suas competências
 
As consequências vão além do constrangimento. A discriminação pode reduzir a autoestima, limitar oportunidades de trabalho e participação social, desencorajar a procura por atendimento, favorecer o isolamento e contribuir para o sofrimento psicológico.
 
Na saúde, estereótipos podem levar tanto ao excesso de intervenções quanto à omissão de tratamentos potencialmente benéficos, dependendo da suposição feita sobre a idade e o prognóstico. Combater o etarismo não significa negar as mudanças associadas ao envelhecimento. Significa reconhecer essas mudanças sem transformar a idade em justificativa para discriminação ou exclusão.
 
A discriminação por idade também prejudica a sociedade brasileira como um todo?
 
Sim, pois limita o potencial de toda a sociedade. Quando a velhice é retratada exclusivamente como doença, dependência e despesa, reforçam-se preconceitos que podem influenciar políticas públicas e relações familiares.
 
Existe ainda um aspecto econômico. Uma sociedade que exclui pessoas experientes do trabalho e da participação social desperdiça competências que poderiam contribuir para a produtividade, a inovação, o voluntariado e a transmissão de conhecimentos. Ao mesmo tempo, não devemos transformar a valorização da pessoa idosa em uma obrigação de continuar produzindo: o direito ao descanso e à aposentadoria também precisa ser respeitado.
 
Outro ponto importante é a solidariedade intergeracional. Crianças, jovens, adultos e idosos compartilham famílias, comunidades e sistemas públicos. A proteção social deve ser organizada de forma sustentável e justa, sem colocar gerações umas contra as outras.
 
Enfrentar o etarismo é uma estratégia para construir uma sociedade mais inclusiva, produtiva e preparada para o futuro. Todos nós estamos envelhecendo, e a forma como tratamos as pessoas idosas hoje ajuda a definir a sociedade em que viveremos amanhã.
 
Existe uma idade específica para começar a se preparar para o envelhecimento?
 
Essa preparação deve ocorrer ao longo de toda a vida porque a saúde e a funcionalidade na velhice são influenciadas por hábitos, condições sociais, oportunidades e exposições acumuladas desde a infância e, até mesmo, antes do nascimento.
 
Nunca é cedo demais para construir hábitos saudáveis, e nunca é tarde demais para obter benefícios de mudanças possíveis. A atividade física, a alimentação adequada, a prevenção do tabagismo, a moderação no consumo de álcool e o controle de fatores de risco cardiovasculares podem contribuir para a saúde em diferentes fases da vida.
 
Também é importante cultivar relações sociais, desenvolver interesses e projetos pessoais, manter-se aberto ao aprendizado e pensar no planejamento financeiro e habitacional.
 
Do ponto de vista médico, a preparação deve incluir acompanhamento preventivo individualizado, atualização vacinal, cuidados com a saúde bucal, visual e auditiva, atenção à saúde mental e avaliação dos fatores de risco para perda funcional.
É igualmente importante pensar no futuro sem medo. Planejar o envelhecimento não significa esperar passivamente pela doença, mas ampliar as chances de preservar autonomia, vínculos, participação social e capacidade de tomar decisões. Eu diria que a melhor preparação para a velhice começa quando entendemos que envelhecer faz parte da vida.
 
O envelhecimento deve ser visto como um peso para a sociedade ou como uma conquista social?
 
Acredito que o aumento da longevidade é uma das grandes conquistas da humanidade. Viver mais reflete, entre outros fatores, avanços na medicina, na vacinação, no saneamento, na alimentação e nas condições de vida. O desafio é garantir que os anos adicionais sejam acompanhados, tanto quanto possível, de saúde, participação social, autonomia e dignidade.
 
A visão que trata as pessoas idosas como um peso para a sociedade é injusta e simplificadora. Ela desconsidera as contribuições econômicas, familiares, culturais e comunitárias dessa população.
 
Por outro lado, reconhecer a longevidade como conquista não significa ignorar os desafios. O envelhecimento populacional aumenta a necessidade de reorganizar sistemas previdenciários, serviços de saúde, cuidados de longa duração e redes de proteção social. A questão não é negar essas demandas, mas planejar respostas sustentáveis, com financiamento adequado e distribuição justa de responsabilidades.
 
Envelhecer com dignidade é um direito, e preparar a sociedade para a longevidade é uma responsabilidade coletiva. A qualidade do envelhecimento não se mede apenas pelo número de anos vividos, mas pelas possibilidades de viver esses anos com saúde, autonomia, vínculos, propósito e respeito.
 
Sobre a HU Brasil
O HUB-UnB faz parte da HU Brasil desde janeiro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.