Recordar é… História!
Quem sonhou com Brasília 77 anos antes?
Quem escolheu a data de aniversário?
Como mudamos do Rio de Janeiro para o cerrado?
Aos 66 anos, uma cidade lúcida merece compartilhar o conto de quando um dia foi sonho e quem foram esses sonhadores.
Na noite de 30 de agosto de 1883, Dom Bosco teve um sonho premonitório, que revelou numa reunião da Congregação Salesiana em 4 de setembro do mesmo ano. O padre Lemoyne registrou tudo.
No sonho, ele viajava pela América do Sul — continente que jamais visitou em vida — percorrendo terras entre a Colômbia e o sul da Argentina, vislumbrando povos e riquezas.
Ao chegar à região entre os paralelos 15º e 20º, Dom Bosco descreveu: “Entre os graus 15 e 20 havia uma enseada bastante longa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Ele ouviu repetidamente: ‘Quando se vierem a escavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, de onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível!’”
No sonho, há um diálogo sobre quando isso aconteceria: “Isto acontecerá antes que passe a segunda geração.” Cada geração, a partir da visão, compreenderia o que apontava matematicamente para os anos de 1950-1960, exatamente quando Brasília foi concebida e inaugurada.
Em 21 de agosto de 1956, o Deputado Federal Emival Ramos Caiado apresentou o PL 2.874, de sua autoria e relatoria, definindo a localização exata da nova capital, criando a Novacap e oficializando o nome Brasília, cuja sanção presidencial de JK saiu menos de um mês depois.
No dia 1º de outubro de 1957, por meio da Lei nº 3.273, de autoria do mesmo Deputado Emival Caiado, foi fixada a data para mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para o Interior do Brasil, assim como a inauguração de Brasília, em 21 de Abril de 1960.
Emival Caiado não escolheu esse dia de forma aleatória — é a data de Tiradentes, feriado nacional em homenagem ao mártir da Inconfidência Mineira. Havia um simbolismo claro: Inaugurar a nova capital no centro do país num dia já consagrado como símbolo de brasilidade e de ruptura histórica.
Cravar em lei o 21 de abril para a inauguração norteou os esforços do governo para que o sonho fosse realizado — foi o parâmetro que deu a Juscelino Kubitschek o prazo legal com o qual governou e se cobrou, tornando Brasília uma realidade em tempo recorde.
O Brasil vivia à beira-mar, de costas para o seu maior potencial, então Juscelino teve a visão política de interiorização do progresso e buscou, no seu adversário político, Emival Caiado, uma aliança produtiva.
O que estava em discussão era algo maior, era a mudança da capital, a interiorização do desenvolvimento e a ocupação do território.
Em uma época que a política discutia mais ideias e projetos, e adversários tinham a nobreza da convergência em favor do Brasil, Juscelino e Emival selaram um esforço conjunto para enfrentar um desafio quase intransponível — Tirar a capital da caixa de ressonância cultural do Brasil e do mundo, que era o belíssimo Rio de Janeiro da Bossa Nova, mediante uma obra faraônica, em um prazo improvável, a ser realizada no meio do nada, que era o mato do cerrado, convencendo Congressistas, a Imprensa e a Nação, que essa era uma grande ideia a ser seguida.
Nascido no seio de Goiás, filho de Totó Caiado, grande líder político desde 1905, deputado federal de 1909 a 1921 e posteriormente senador, cujo irmão, seu tio, Brasil Ramos Caiado, foi presidente de Goiás de 1925 a 1929, dava a Emival a legitimidade, a força e a representatividade política que a missão de Juscelino exigia.
Emival era um grande articulador, orador admirado, debatedor nacional influente que mantinha discussões acaloradas com Carlos Lacerda, homem que acumulava experiência como Deputado Estadual e estava no seu terceiro mandato como Deputado Federal, portanto, o aliado e a força motriz perfeita para um projeto tão ambicioso.
Emival Caiado criou e se tornou presidente do Bloco Parlamentar Mudancista entre 1959 e 1960, crucial para obter êxito na dura missão política.
Então finalmente os planos saíram do papel, a história se sucedeu e os feitos com JK foram brilhantes, mais condecorando o Deputado Goiano com a distinção de Grande Oficial da Ordem do Mérito de Brasília.
Kubitscheck sempre dizia que sem Caiado não teriam conseguido essa façanha política-econômica-desenvolvimentista.
Brasília também é motivo de grande orgulho aos Goianos por estar envolto pelo Estado de Goiás.
Hoje devemos a glória do progresso que irradia do interior com um governo mais centralizado ao feito desses homens, que sempre merecerão reverências.
Setenta e sete anos depois do sono clarividente de Dom Bosco, após o vigoroso trabalho de Juscelino Kubitscheck e Emival Caiado, há 66 anos era inaugurada no Planalto Central brasileiro a nova capital do Brasil, a cidade de Brasília, exatamente dentro do sonhado intervalo de coordenadas geográficas, emoldurada pelas águas que também não existiam em 1883.
Essas águas são uma belíssima obra da engenharia e da natureza produzida durante a construção do nosso avião, cartão postal que reluz beleza, esporte e lazer, que é o nosso Lago Paranoá.
Dom Bosco é co-padroeiro de Brasília, e a Ermida Dom Bosco foi erguida exatamente sobre o paralelo 15º, em homenagem ao sonho profético.
Juscelino Kubitscheck é o Idealizador da nova capital.
Lúcio Costa é o Urbanista e Oscar Niemeyer é o Arquiteto do nosso museu a céu aberto.
Emival Caiado é o Legislador de Brasília.
Os Candangos foram os Construtores.
E todos eles, Concretizadores de Brasília, no sentido mais concreto da palavra, se inspiraram em dois sonhos…
O de motivação abstrata, de fé e poesia, do sonho como elemento simbólico e divino, e do sonho político mobilizador, de interiorização do país, cuja idealização, construção e mudança são um feito histórico de pessoas que sonhavam e realizavam!
São também aniversariantes os homens e as mulheres que construíram Brasília.
Que esse legado seja sempre relembrado e respeitado.
Em tempos azedos, onde os políticos de Brasília e seu banco escalam para figurar como o maior caso de corrupção do Brasil, que possamos voltar a sonhar e concretizar nessas terras de pequi e baru, leite e mel.
Conrado Caiado
21/04/26
EgNews