Entender para cuidar: o papel da terapia comportamental para pets
Quando o tutor entende o comportamento do pet, a situação muda a dinâmica de toda a família - (crédito: Magnific)
Ansiedade, agressividade e dificuldades de adaptação estão entre os sinais que podem indicar a necessidade de acompanhamento especializado em comportamento animal
A terapia comportamental para pets é voltada para a promoção do bem-estar emocional e da qualidade de vida dos animais. Realizado por profissionais especializados em comportamento animal, o acompanhamento busca identificar as causas de determinadas condutas e desenvolver estratégias para modificá-las de forma saudável, sempre respeitando as necessidades e o perfil de cada cão ou gato.
O tratamento é indicado em situações como ansiedade, medos excessivos, agressividade, hiperatividade, dificuldades de adaptação, luto, mudanças na rotina ou qualquer outra condição que esteja afetando o bem-estar do animal e a convivência com a família. Em alguns casos, o acompanhamento comportamental pode ser associado a outros tratamentos veterinários, como fisioterapia, acupuntura ou reabilitação, quando há necessidade de cuidar também da saúde física do animal.
Além do tratamento desses comportamentos, Pedro destaca a importância do trabalho preventivo. Segundo ele, a orientação aos tutores desde os primeiros meses de vida do animal pode evitar o desenvolvimento de diversos problemas futuros. "Também trabalhamos muito a prevenção, ajudando tutores a desenvolverem uma relação mais saudável e equilibrada com seus animais", compartilha.
Sinais de alerta
Mudanças repentinas no comportamento são sempre um sinal de alerta nos animais de estimação, já que eles costumam demonstrar que algo não vai bem por meio de mudanças sutis em seus hábitos. Esses indícios podem se manifestar de diferentes formas e, de modo geral, são divididos em duas categorias: sinais físicos, como alterações no apetite, problemas na pelagem e distúrbios digestivos, e sinais emocionais ou comportamentais, como apatia, isolamento, mudanças no padrão de sono e dificuldade de interação.
De acordo com o biólogo, esses comportamentos merecem atenção, pois podem indicar tanto questões emocionais quanto problemas de saúde. "Entre os sinais mais comuns estão medo excessivo, agressividade, isolamento, apatia, destruição de objetos, vocalização intensa, lambedura compulsiva, dificuldade para relaxar, alterações no sono ou no apetite e dificuldades de convivência. Antes de qualquer intervenção comportamental, é importante descartar possíveis causas médicas junto ao médico veterinário", orienta.
A recomendação do especialista reforça a importância de uma avaliação completa do animal. Dessa forma, é possível identificar a origem das alterações de comportamento e definir o tratamento mais adequado, garantindo não apenas o bem-estar do pet, mas também uma convivência mais equilibrada com toda a família.
Sessão terapêutica
As sessões de terapia comportamental para animais têm início com uma avaliação detalhada, etapa fundamental para identificar a origem do problema e definir a melhor estratégia de tratamento. Nesse primeiro contato, o profissional analisa o histórico do pet, sua rotina, o ambiente em que vive e a relação com os tutores, reunindo informações que servirão de base para um plano de acompanhamento.
Segundo Pedro Fontoura, o processo é personalizado e envolve mudanças tanto no comportamento do animal quanto na forma como a família lida com determinadas situações. "O trabalho começa com uma avaliação detalhada do histórico do animal, da rotina, do ambiente e das interações familiares. A partir daí, identificamos possíveis gatilhos e elaboramos um plano individualizado. Diferentemente do que acontece com humanos, não existe uma conversa terapêutica. O foco está na modificação do ambiente, no manejo adequado, na mudança das emoções associadas a determinadas situações e no treinamento baseado em reforço positivo. Os tutores participam ativamente de todo o processo", explica.
Papel fundamental dos tutores
A participação dos tutores é considerada essencial para o sucesso do acompanhamento, já que as mudanças propostas precisam ser aplicadas no dia a dia do animal. Dessa forma, a terapia comportamental busca não apenas modificar comportamentos indesejados, mas também fortalecer a relação entre o pet e sua família, promovendo uma convivência mais equilibrada e saudável.
Felipe Cambruzzi, veterinário comportamental, ressalta que a participação ativa do tutor durante todo o processo é um dos fatores que mais influenciam o sucesso da terapia. Segundo ele, como o tutor é quem convive diariamente com o animal, sua colaboração permite que as orientações do especialista sejam aplicadas de forma contínua, favorecendo resultados mais rápidos e duradouros. "Costumo dizer que o comportamentalista pega situações e momentos específicos do dia, uma fatia das 24 horas. Então, com a ajuda de quem passa o dia a dia com o pet, temos o trio perfeito: pet com problema, tutor engajado e comportamentalista capacitado", comenta.
De acordo com o especialista, o envolvimento do tutor vai muito além de acompanhar as consultas. "O tutor vai participar observando e ajustando a rotina, fazendo manejos ambientais, aplicando exercícios, mudando a forma de interação, observando gatilhos, registrando a evolução e, muitas vezes, abandonando hábitos que, sem perceber, estavam piorando o problema", ensina. Essas mudanças fazem com que o tratamento seja incorporado ao cotidiano do animal, aumentando as chances de sucesso.
Além dos benefícios para o comportamento do pet, Felipe destaca que o acompanhamento também transforma a relação entre o tutor e o animal. "Ela muda a forma como o tutor enxerga o animal. Quando o tutor entende o motivo daquele comportamento, a relação muda. Ele para de olhar para o animal como um problema e começa a enxergá-lo como um indivíduo que está tentando comunicar alguma coisa", complementa.
Do conflito à harmonia
A cirurgiã-dentista Danielle Maia descobriu a terapia comportamental para pets ao buscar soluções para um problema de adaptação entre seus gatos. Após adotar um novo filhote, uma das gatas da casa passou a rejeitar sua presença, demonstrando comportamento agressivo. "Quando eu adotei um gatinho novo, uma das minhas gatas não aceitou. Mesmo com o período de adaptação, ela continuava rejeitando o filhote e, sempre que eles ficavam perto, o atacava. Pesquisei na internet sobre adaptação de pet e vi que existia veterinário especialista em comportamento animal", compartilha.
Para Danielle, o acompanhamento especializado foi determinante para resolver a situação e evitar que o problema se agravasse. Por isso, ela incentiva outros tutores a não terem receio de buscar ajuda profissional. "Não hesitem em procurar ajuda, porque ela é fundamental e, sim, faz toda a diferença na vida dos bichinhos e dos tutores. Nós somos muito gratos à veterinária que nos ajudou nesse processo." O relato evidencia que a orientação de um profissional pode transformar a convivência entre os animais e proporcionar mais bem-estar para toda a família.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negremonte